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  Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri  

Histórico

A Seção de Artes Plásticas do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, São Paulo - que adquire em 1956 a denominação Escola Livre de Artes Plásticas - ELAP - é criada oficialmente em 1949, resultado direto do trabalho que o psiquiatra e crítico de arte Osório César (1896 - 1980) desenvolve no hospital a partir de 1923. O propósito básico da escola é a recuperação e a reintegração dos pacientes na sociedade por meio do desenvolvimento de suas aptidões artísticas. Ainda que a meta do trabalho seja eminentemente terapêutica, Osório César mostra-se sensível às capacidades artísticas individuais e às possibilidades de revelação de novos talentos. Nesse sentido, são realizados testes para a verificação de vocações artísticas, sendo alguns pacientes selecionados precisamente em função delas. O trabalho na escola permite a realização de experimentos e investigações com a arte-terapia, e a criação artística e artesanal. A base da proposta - inspirada nas idéias do teórico da arte Herbert Read (1893 - 1968), sistematizadas em sua obra Educação pela Arte (1943) - assenta-se na idéia de que os pacientes devem trabalhar livremente (na escolha de temas, técnicas e materiais), com o mínimo de interferência do supervisor. Trata-se de garantir a espontaneidade das manifestações artísticas, o que permitiria tanto o desenvolvimento psicológico - pelo estabelecimento de uma relação profunda do paciente com o seu mundo interior - quanto o artístico.

Desde a sua chegada ao Juqueri, Osório César interessa-se pela arte produzida pelos internos, objeto de sua reflexão em livros e artigos - por exemplo, o ensaio A Arte Primitiva dos Alienados, de 1925; outro, escrito com o poeta e psicanalista Durval Marcondes (1899 - 1991), intitulado Sobre Dois Casos de Estereotipia Gráfica com Simbolismo Sexual e ilustrado com desenhos feitos por pacientes (1927); e o livro A Expressão Artística dos Alienados (1929), com 84 ilustrações e prefácio de Cândido Mota Filho (1897 - 1977). Além de pioneiro no estudo da arte produzida por "doentes mentais", Osório César é o principal responsável pelas atividades artísticas levadas a cabo no hospital do Juqueri. Em 1923, há registros de que pacientes - adultos e crianças - se dedicam às artes nos ateliês artesanais e nas aulas de música. A partir de 1939, com o enorme aumento da população asilada, em função da transferência de "doentes" vindos das cadeias públicas, o modelo hospitalar é alterado e, com ele, afetadas as atividades artísticas e artesanais. Estas terão continuidade com o apoio da Instituição de Assistência Social a Psicopatas - IASP, instituída por decreto de 28 de junho de 1938, cuja principal meta é a melhoria das condições de vida dos internos, o que envolve o incentivo à produção artística. Dirigida por Osório César, a IASP garante a manutenção, financeira inclusive, da Seção de Artes Plásticas e depois da Escola Livre de Artes Plásticas. Apesar de definidas como setores distintos, com denominações diferentes, a Seção de Artes Plásticas, a ELAP e a Instituição de Assistência "confundem-se em projetos, captação de recursos e até mesmo no espaço físico", indica a pesquisadora e arte-educadora Maria Heloisa Ferraz. "Funcionavam no mesmo prédio, com um único diretor, que procurava dinamizá-las através das atividades e divulgações",1 continua ela.

O médico Mário Yahn, primeiro diretor da Seção de Artes Plásticas do hospital, é o responsável por sua instalação física, na sala de banhos do 6º Pavilhão Feminino, que depois é transferida para a Vila Médica - onde funciona na casa n. 7 até 1974 -, sendo deslocada finalmente para a 1ª C. T. O Feminina e Recanto Feliz. A partir de 1950, sob a orientação de Osório César, definem-se os contornos do trabalho da Escola Livre de Artes Plásticas, instituição independente de verbas governamentais, que vive de donativos, da comercialização de trabalhos de pacientes e da manutenção de serviços como: cantina, apiário, charutaria etc. Ao IASP cabe a garantia da infra-estrutura básica, incluindo a compra de materiais: lápis, nanquim, óleo, pastel, cartolina, papel, tela e gesso. Entre os anos de 1953 e 1955, os registros apontam cerca de 60 pacientes envolvidos nas atividades da ELAP, em um momento que o hospital possui cerca 15.000 pacientes. Os internos são encaminhados quando considerados em boas condições físicas e psicológicas, e também recrutados em função de aptidões reconhecidas. Os pacientes que aceitam integrar a escola passam nela a maior parte do dia, realizando aí as suas refeições. Do ponto de vista do trabalho, são assessorados por artistas convidados para atuarem nos ateliês de desenho, pintura, escultura e cerâmica. Além do apoio ao trabalho diário, ao professor cabia a seleção de trabalhos que deveriam integrar uma exposição permanente. A primeira artista a ocupar essa função é Maria Leontina (1917 - 1984), que aí permanece entre 1951 e 1953, substituída por Clélia Rocha da Silva. Em 1955, o desenhista e gravador Moacyr Rocha, assume o lugar que, a partir de 1957, é ocupado exclusivamente por funcionários, que trabalham sob a supervisão de Osório César.

Vários "pacientes-artistas" atuam na escola, sendo reconhecidos em função de suas habilidades e talentos. Os desenhos a lápis de Albino Braz (1893 - 1950) - repletos de bichos estranhos, serpentes e figuras humanas - acabam incorporados aos acervos do MASP e do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo - IEB/USP. Além disso, suas obras integram a 1ª Exposição de Arte do Hospital do Juqueri (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, 1948), a Exposição de Arte Bruta (Paris, 1949), a 3ª Exposição Internacional do Surrealismo (SP, 1967) e a 16ª Bienal Internacional de São Paulo, de 1981. O espanhol Pedro Cornas (internado em 1932, com 39 anos) destaca-se pelas formas geométricas que realiza (por exemplo, O Estudioso, nanquim e lápis sobre papel, coleção do Masp, s/d). Os trabalhos do desenhista José Theóphilo R. (internado em 1944, com 24 anos) possuem feições recorrentes: são casas e igrejas dispostas em composições planas, com predominância de linhas verticais e horizontais. Aurora (ca.1896 - 1959) é responsável por pinturas de colorido intenso (por exemplo, A Brasileira, óleo sobre papelão, s/d, e Juízes da Inquisição, óleo sobre papelão, s/d). João Rubens Garcia (nascido em 1916, internado em 1950) é autor de desenhos de cenas e figuras, representados com riqueza de detalhes (Senhores no Remendo, nanquim sobre papel, s/d). O pintor Braz Navas (1919 - 1968) utiliza trapos, e não pincéis, para pintar, o que dá aos seus quadros aspecto inusitado.

As exposições realizadas ao longo dos anos 1950 e 1960 são os principais veículos de divulgação e comercialização dos trabalhos dos internos do hospital. Em 1948, a 1ª Exposição de Arte do Hospital do Juqueri, organizada por Osório César no Masp entre 19 de outubro e 19 de dezembro, é considerada um impulso decisivo para a criação da ELAP, em função do seu grande impacto de público e crítica. Nela são expostos desenhos a lápis preto e de cor, hoje pertencentes ao acervo do museu. Na década de 1950, obras dos alunos da ELAP são apresentadas em diversos espaços, no Brasil e no exterior. Por exemplo, no Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP (Exposição de Artistas Alienados), 1951; na Maison Nationale de Chareton, Paris 1952; no Masp, por ocasião das comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo (1954); no Clube dos Artistas e Amigos da Arte, SP - o "Clubinho (1955), na Galeria Prestes Maia, SP (1956) etc. A despeito do agravamento da situação financeira, em 1957 são realizadas cinco mostras: em Atibaia e Santos, São Paulo, e na Faculdade de Direito, no Clubinho e na Galeria Prestes Maia, na capital paulista. Em 1958, as exposições diminuem sensivelmente (há registros de apenas uma mostra na galeria Prestes Maia) e, após 1959, praticamente desaparecem.

O trabalho de Osório César deixa marcas na medicina e nas artes nacionais, repercutindo em outras experiências, como naquela empreendida pela psiquiatra Nise da Silveira (1906- 1999) no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, que dá origem ao Museu de Imagens do Inconsciente (1952). Ainda que com orientações distintas, os trabalhos empreendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro enfatizam a importância da expressão criativa no processo de cura, sendo responsáveis pelo sucesso artístico de muitas obras e artistas. Em 1981, trabalhos dos pacientes do Juqueri, do Museu de Imagens do Inconsciente e de outros artistas - como Arthur Bispo do Rosario (1911 - 1989) - são apresentados no módulo Arte Incomum, da 16ª Bienal Internacional de São Paulo, 1981. Com o fechamento da ELAP, em meados dos anos 1970, as obras produzidas na escola são reunidas no Museu Osório César, criado em 1985 no complexo Hospitalar de Franco da Rocha.

Nota

1 FERRAZ, Maria Heloísa Corrêa de Toledo. Arte e loucura: limites do imprevisível. São Paulo: Lemos, 1999.



Atualizado em 02/03/2007
 
 
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