por Natália Garcia

Ele chegava perto dos 2 metros de altura. Tinha a cabeça alongada na vertical, profundos olhos claros, mãos e pés proporcionais à estatura gigante. Chegou em cima da hora para ministrar um curso sobre a lógica da água. Estava emocionado por poder falar sobre esse assunto em São Paulo, uma cidade que tanto reprime seus rios. Holandês, Paul von Dijk precisou de tradução simultânea, de um inglês carregado de sotaque para o português. Falava devagar, baixo, se demorava até chegar ao ponto do que queria dizer.

Logo após se apresentar, ele se levantou, pegou um saco plástico gigante e começou a sacudi-lo pelos ares com as duas mãos, com ritmo e sutileza. Dançou com aquele objeto, que se confundia com um lenço em suas mãos. A agilidade e a graça dos seus movimentos nos faziam esquecer que ele estava perto dos 80 anos de idade. E então, ofegante, mas sem perder a calma, ele disse que aquele pedaço de plástico representava o fenômeno da vida, o movimento sincrônico e surpreendente que cria e desmancha formas no tempo, o tempo todo.

Ele parou o movimento e tirou do bolso um pequeno pedaço de um cano de PVC, com aproximadamente 2 centímetros de diâmetro. Apertou o saco plástico com força, fazendo-o passar por dentro do buraco do PVC. De um lado do cano, o dedão de Paul apertando aquele enorme saco para caber em um buraco de 2 centímetros. De outro, o plástico completamente compactado, saindo do cano com a forma de uma enorme salsicha. 

Se o pedaço de plástico sacudindo pelos ares era uma metáfora da vida, o cano de PVC, para Paul, era uma representação do modelo mental dos moradores de cidades ocidentais. Era isso que os sistemas de economia e educação, a arquitetura e o urbanismo faziam em sua opinião: deformavam a expressão da natureza, achatando as infinitas possibilidades da vida.

O curso que Paul veio ministrar em São Paulo em 2016 se chamava Água: Equilíbrio entre Polaridades. A base desse workshop era a ideia de que a água é um ser vivo que abriu mão de ter forma para que todos os demais seres pudessem tê-la. E esse ser, segundo o holandês, se expressa nos caudalosos rios que serpenteiam em um desapressado movimento de zigue-zague. Chamam-se meandros as curvas que o rio faz de um lado para o outro. O que Paul tentava nos explicar era que andar em linha reta através de um cano não é um caminho natural da água.     

Difícil não se lembrar de Paul no Brechas Urbanas que teve a presença de Luiz Netto, fotógrafo que registra cidades submersas por rios, e de Eliane Brum, jornalista que resolveu se mudar para o lugar que ela entende ser o centro do mundo, a Amazônia, e tem se dedicado (entre outras coisas) a compreender e disseminar o modelo mental de uma cultura humana que compreende e se norteia pelo ritmo e pela lógica da água – os ribeirinhos.

Enquanto Netto nos mostrava imagens de escolas e igrejas tomadas por corais no fundo de uma água que se deslocou por causa da ação humana, Eliane nos contou histórias de pessoas que entendiam como casa um ecossistema sem limites, estruturas ou contratos estabelecidos. Pessoas que moravam na beira do rio, na água do rio, na construção de pau a pique sobre a areia, na comunidade dos vizinhos, no céu trovejante carregado de nuvens escuras e na chuva densa que desabaria na sequência. Pessoas que se viram expulsas de suas casas pela construção de uma usina hidrelétrica e precisaram caber nos limites, nas estruturas, nos contratos – na rua.

As histórias contadas por Eliane e Luiz eram manifestações daquele modelo mental de moradores de cidades ocidentais mencionado por Paul von Dijk. Ficou evidente, naquela conversa, como a única chance de melhorar a experiência humana no planeta passa por equiparar a expressão dos homens – as cidades – à expressão das águas – os rios.

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