por Alexandre Ribeiro e Nayra Lays

Alguns dias trancada no meu quarto, após a execução de Marielle Franco, com a pergunta que me amargurou: como ser uma jovem negra tentando construir outras narrativas em um contexto de guerra declarada, onde tudo o que tenho é minha voz, enquanto atiram em nós?

Quantos momentos de luto nosso corpo ainda vai aguentar?
Ele se recupera, junta os cacos para levantar e lá vem. Outra pancada.
Balas não respeitam corações e furam ainda mais enquanto a gente se fortifica.

Me desesperou pensar sobre isso, nunca me vi questionando tão profundamente a base de tudo o que tenho construído em mim: a esperança.

Qual é a fonte do que nos mantém em movimento no mundo, afinal? Nós, que ousamos trazer narrativas incômodas?

Odo nnyew fie kwan – símbolo da devoção, da fidelidade e do poder do amor



Tradução: “O amor ilumina seu próprio caminho, nunca erra o caminho de casa.
Com amor podemos conquistar tudo”.

Me lembrei de Djamila Ribeiro em seu texto “Pule, Garota” e de sua perfurante pergunta retórica: “Dá para promover mudanças no conforto?”.

A resposta bradou firme em mim: não. Mas tudo bem se recompor antes de voltar ao fronte.

Em tempos em que a neblina paira sobre meu espírito, busco mergulhar em palavras que transbordem do meu peito. Maya Angelou escreveu “Still I Rise” como um recado e me alimentou o sonho. O sonho de que minhas palavras se aprofundem na pele como ela fez, ao me lotar de força e me arrepiar por inteiro. Que eu seja instrumento de continuidade, assim como as ideias que atravessaram eras nos inspiram a seguir. A não deixar de crescer nem de levantar.

Enquanto o mundo continuava girando, sem dar trégua para que vivêssemos o luto, me desapeguei da pressa de correr com ele e me permiti desacelerar. Passar alguns dias pensando e só. Refazendo planos, estratégias, chorando as lágrimas represadas.

No quarto, teci novamente, aos poucos e dolorosamente, a utopia de dias mais brilhantes que há muito inspirou pessoas como Marielle, e que hoje ainda me mantém viva por dentro.

Não apenas pelo fato de nosso peito sempre girar faltando uma peça. Por Marielle, por Claudia e por nossas irmãs e irmãos que se vão de junto de nós. Mas ficam. Quem não tem uma causa pela qual morrer não tem motivo para viver. A potência de suas vidas e sonhos vai sempre estar entre nós.


“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” (Fernando Birri).

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