A primeira selfie da história aconteceu em 1839, quando Robert Cornelius experimentou virar as lentes da câmera para a sua própria figura, questionando, pela primeira vez, o lugar do fotógrafo e do fotografado. Isso nos dá a ideia de que o autorretrato não é assunto de hoje. O que não podemos negar, no entanto, é que a evolução tecnológica mudou nossa forma de olhar para o mundo e, consequentemente, de fotografá-lo.

A democratização do campo fotográfico se deu quando o equipamento se tornou acessível a um grande número de pessoas: câmeras de fácil manuseio e custo reduzido para a compra de filmes e a revelação. Até alcançarmos os dias atuais e o fenômeno da fotografia digital, em que a relação entre público e fotografia se intensifica de tal modo a criar uma condição de quase dependência do meio.

Com os equipamentos digitais podemos ver instantaneamente o que registramos. Podemos apagar aquilo de que não gostamos com um clique tão fácil quanto o disparo da câmera. Testamos, assim, nosso olhar, que se vê livre para experimentar, mas fica cada vez mais colocado dentro de um molde. Muitos já enxergam tudo dentro de um quadrado, imaginando um bom filtro para compor a cena.

Quando a fotografia se torna imaterial, ela vira dado de compartilhamento. Queremos mostrar nossas imagens. O que muda é a proporção do nosso alcance. Quanto mais as pessoas nos veem, mais prestamos atenção em como nos mostramos, pois todos somos imagem. E, quando a câmera frontal do celular vira uma espécie de espelho da pós-modernidade, nossa imagem se transforma e sentimos a necessidade de mostrar o que supomos ser o que há de melhor em nós.

Uma selfie é um anúncio publicitário de uma sociedade que, desde a década de 1960, se vê criando realidades imagéticas, muitas vezes inexistentes. Ela imortaliza o banal e, além de registrá-lo, o eleva a uma categoria de importância. Eleita a palavra do ano em 2013, a selfie se torna, enfim, uma categoria fotográfica com características específicas. Sua finalidade, no entanto, ainda é nebulosa para nós, que estamos no meio do vendaval. É necessário, no entanto, refletirmos sobre esse sintoma contemporâneo para que, além da tecnologia, também não nos automatizemos.

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