Tarsila do Amaral

Capivari SP 1886 - São Paulo SP 1973

Retrato de Luiz Martins, déc. 40
óleo sobre tela 60 x 80 cm

 

Inicia sua formação artística em São Paulo, aprendendo escultura com Zadig e Mantovani em 1916. No ano seguinte estuda pintura e desenho com Pedro Alexandrino e J. Fischer Elpons. Viaja para Paris em 1920. Nesse período freqüenta a Academia Julian, recebendo orientação do retratista Emile Renard. Em 1923, estuda com André Lothe, Fernand Léger e Albert Gleizes. De volta ao Brasil, realiza em 1924, com o poeta Blaise Cendrars e os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, uma viagem às cidades históricas de Minas Gerais. O contato com o Barroco mineiro transforma sua arte, iniciando a fase de pinturas denominada Pau-Brasil. Em 1928, pinta a tela Abaporu, que significa antropófago, inspirando o Movimento da Antropofagia, liderado por Oswald de Andrade e Raul Bopp. Começa, assim, a fase antropofágica, em que realiza suas principais pinturas. É uma das mais importantes pintoras do século XX, sendo precursora no Brasil do Cubismo, do Expressionismo, com Lasar Segall e Anita Malfatti, e do Surrealismo, com Ismael Nery. Entre as exposições de que participa destacam-se Salon Officiel des Artistes Français, França, 1922; Salão Revolucionário, Rio de Janeiro, 1931; Bienal de São Paulo, várias edições de 1951 a 1998; Bienal de Veneza, 1964. Evento no Itaú Cultural: Imaginário Popular, 1997.
"Feitas as contas, a maior qualidade da pintura de Tarsila é também a razão de sua assustadora fragilidade - aí está uma superfície discrepante (Torre Eiffel + carnaval em Madureira, como vemos em uma de suas telas...), mantida no fio da navalha, cheia de brechas, articulando um sem-número de polaridades. A bem da verdade, mesmo nos trabalhos mais admiráveis da artista é possível assistir aos torneios formais em que ela se engalfinha para manejar com naturalidade o vocabulário moderno: freqüentemente as telas divergem entre a descrição quase naturalista dos tipos étnicos, das peculiaridades da paisagem regional, e a geometrização mais decidida das formas, respondendo à exigência moderna de uma franqueza construtiva.
Reconheçamos que em virtude dessa atitude dúplice (que quer abraçar ao mesmo tempo o mundo e o vilarejo natal) muitos detalhes de sua pintura tocam o pitoresco: Tarsila acaba astuciosamente trapaceando a lógica cubista, que aconselharia a redução da figura humana aos tipos anônimos da civilização urbana, e se entretém prazerosamente nos detalhes. Ela oscila, por exemplo, em meio a uma dezena de maneiras de pintar pés e mãos, e isto, como se vê, é quase um capricho sentimental para quem aspira à (alguma) generalização da forma, à percepção estrutural do espaço pictórico.
(...) falar em incompletude e incongruência em face da obra de Tarsila talvez seja também especular em torno de um modo específico de produtividade poética na arte brasileira que, como a pintura da artista revelou, seria movida pela disposição construtiva aprendida da arte moderna tanto quanto pelo seu inverso, a vocação para a tabula rasa, para embaralhar tudo, relativizar o peso excessivo e já normativo de determinada 'influência', recombinar e buscar novas sínteses culturais."


Sônia Salzstein

SALZSTEIN, Sônia. A saga moderna de Tarsila. In: TARSILA, anos 20. Org. Sônia Salzstein. Textos de Aracy Amaral et al. São Paulo: Galeria de Arte do Sesi: Página Viva, 1997. p.13, p.16.