Castagneto

[João Batista Castagneto]
Gênova (Itália) 1851
Rio de Janeiro RJ 1900

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Encouraçado na Baía do Rio de Janeiro, 1898
óleo sobre madeira 7,5 x 38 cm

 

Chega ao Rio de Janeiro em 1874 e três anos depois matricula-se nos cursos de desenho figurado, desenho geométrico e matemática na Academia Imperial de Belas-Artes, onde estuda até 1884 com Zeferino da Costa e Victor Meirelles. De 1882 a 1884 é orientado por Georg Grimm e, quando este rompe com a Academia, acompanha-o na instalação de seu ateliê ao ar livre na Praia de Boa Viagem, em Niterói. A partir de 1886 alterna a pintura com a atividade docente no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e no Liceu de Niterói. Viaja para a França em 1890, onde conhece os pintores Frédéric Montenard e François Nardi. De volta ao Brasil, em 1893, mantém sua produção pictórica voltada para o gênero marinha, mas também pinta e desenha paisagens e interiores. Entre as exposições de que participa destacam-se Exposição Geral da Academia Imperial de Belas-Artes, Rio de Janeiro, 1884 (Medalha de Ouro); Exposição Geral de Belas-Artes, Rio de Janeiro, 1890/1894; Retrospectiva da Pintura no Brasil, no Museu Nacional de Belas-Artes, Rio de Janeiro, 1948; Bienal de São Paulo - Sala Paisagem Brasileira até 1900, 1953.

"Castagneto (João Batista) é um original. Filho de um lobo-do-mar, de um velho nauta embalado pelas vagas do Mediterrâneo e do Iônio, João Batista Castagneto nasceu artista e nasceu marinheiro. Herdou de seu pai o amor pela misteriosa inconstância do mar, recebeu da sua querida Itália o bafo quente da impressionabilidade artística. Como o mar o seu temperamento é rebelde. Ama e odeia. É manso e é irascível. Um dia pensou que o estudo acadêmico, em vez de fazê-lo progredir, vinha impedir-lhe os passos; e rasgou, de um momento para outro, os motivos que o prendiam à Academia. Como artista ele sente, por uma maneira originalíssima, maneira de que só ele possui o segredo, todos os enlevos, toda a poesia das vagas. A voz tormentosa das águas, o doudo soluçar das ondas, as ciclópicas lutas do oceano, vibram dentro dele estranhas cordas sonoras de um sentimentalismo que a mais ninguém a natureza deu. E, como o mar, a sua pintura é forte e é doce, é rápida e é vagarosa, tem asperezas e tem carícias, parece transparente e parece compacta, brilha e se entenebrece. (...)
Quando lhe falta tempo para mudar pincéis, maneja um só, mergulhando-o em diversas tintas, ou pinta com os dedos, com as unhas, com a espátula, com o primeiro objeto que tiver à mão: um seixo resistente, um pedaço de pau, um pedaço de corda, um palito, o cano do cachimbo, a ponta do cigarro.
(...) Ora, é uma marinha de uma tonalidade suave e leve, com um pequeno barco ao centro dando ao conjunto um encanto todo sereno e feliz. Ora, é o rancho da praia coberto de leprosas telhas desmanteladas pelo vento. Aqui é um assunto tomado ao cair da tarde. O sol desaparece, lentamente, do céu; nuvens caliginosas, formadas em massas largas e caprichosas, vagueiam pelo ar; o horizonte tinge-se de uma cor alaranjada, intensa, vívida; ao longe montes azulados, perdidos no silêncio do espaço, como muralhas enormes de uma cidadela invencível. No mar, ao quente reflexo dos últimos raios do sol, de velas abertas às virações repentinas, correm faluas bojudas. Ali é uma vista do arsenal de guerra, apanhada da praia de Santa Luzia. Ao fundo, além, muito além, rola o mar as vagas e vem tumultuoso, irrequieto, espojar-se à praia em um dolente e bruto espreguiçar. O sol banha a natureza. Os telhados e as paredes caiadas das oficinas do arsenal, iluminadas pela luz risonha, parecem dilatar no quadro um longo riso de força diante do mar que geme na areia."

Gonzaga Duque

DUQUE, Gonzaga. A arte brasileira.
Introd. e notas Tadeu Chiarelli.
Campinas: Mercado de Letras, 1995. p.198-200.
(Coleção arte: ensaios e documentos).