por Alexandre Ribeiro e Nayra Lays

Das poucas coisas que me levaram à expressão artística – sendo um jovem preto da periferia –, com toda a certeza a teimosia foi a maior delas. Não por a questão ser a quantidade incontável de “nãos”. Seja de qual mundo formos, todos nós temos de aprender a lidar com isso. O que me indigna do lado de cá é a intensidade desses “nãos”.

“Eu NUNCA vou aprender a ler, Bá.
Eu sou muito BURRA.”
BURRA. INCAPAZ. INFERIOR.
pequena.

Eu tinha só 6 anos de idade quando disse isso pela primeira vez. Sentada ao lado da minha prima Barbara enquanto ela me ensinava a ler, me senti pequena. Como se as palavras fossem muito maiores do que eu, algo indecifrável. Onde, afinal, se aprende que algo é impossível quando se tem 6 anos?

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A primeira vez em que senti a poesia pulsar nos meus olhos eu tinha mais ou menos 15 anos. Era época de férias e eu estava no 15o andar do hotel. Eu estava maravilhado com o pôr do sol refletindo nos espelhos dos prédios. Uma visão esplendorosa. Pensei em escrever um verso que fosse, mas sabe... Em menos de um instante a realidade me jogou para o tal do “meu lugar”. Meu supervisor me chamando no rádio e me pedindo que eu acelerasse na limpeza dos quartos.

Eu não sei. Ou talvez saiba, vai saber.

Com paciência, a Bá me olhava e pedia que eu tivesse calma. Eu conseguiria. Tentaríamos mais uma vez no dia seguinte, e no outro dia, e no outro.

Olhando aqueles gibis da Turma da Mônica comprados pela minha mãe, eu inventava histórias. Leituras faciais dos personagens. Criatividade. Diálogos que eu não sabia ao certo o que queriam dizer. Dedução. O Mauricio de Sousa pode não saber, mas eu cocriei as histórias dele só pra mim. De repente, viravam minhas e, por algum tempo, foi divertido. Mas em determinado momento eu não consegui mais ficar satisfeita só com a minha imaginação. Queria saber ao certo o que estavam falando e, mais do que isso, queria também saber escrever e ler as minhas narrativas.

ESTÓRIAS. HISTÓRIA. CAMINHOS.
T E M P O.
Poeta.
Mestre de cerimônias.
Colunista.
Escrevivente.

Parece que foi ontem, aos 19 anos, que me ouvi dizendo que sou esse todo pela primeira vez. Muito. Um universo repleto de palavras. Hoje são elas que me sustentam, e se engana quem acha que só me refiro ao dinheiro.

Às vezes a palavra é fragmento e só. Entende quem quiser, como quiser, no tempo que puder. Às vezes nem entende, e está tudo bem também. As palavras, assim como a gente, quase sempre transcendem a matéria, mais facilmente decifrável, palpável.

De pé, frente a frente a mim, por vezes eu precisei me pedir... calma. Eu conseguiria. Eu só precisava ter paciência e tentar no outro dia, e de novo, e de novo.

Respirar.

Escrever a própria história é bem mais desafiador do que cocriar a de outras pessoas. Mas também é bem mais emocionante, por envolver complexidades que só mesmo quem está escrevendo consegue aprender a decifrar.

Desculpe se não achei sua carteira de trabalho assim tão atraente, e muito menos aceitei sua falsa analogia sobre o seu conhecimento ser o maior de todos. Dos barracos aos palanques, minha indignação é corajosa. E essa indignação corajosa eu carinhosamente chamo de teimosia. Dessa que foi capaz de pisar na cara da desigualdade e, não satisfeita, empunhou uma caneta num bloco de notas em pleno ônibus lotado. Dessa que me fez sair do meu segundo trabalho e ir vender CDs na rua. Dessa que me fez escrever meus versos e sair gritando-os mundo afora. Dessa que me fez escrever meu primeiro livro. Pelo simples fato de não me ver como quem se saciava com uma proibição sem profundidade.

Eu posso!

Agora, perto de completar 21, no dia 21, início de mais um inverno, tudo o que peço a mim é que eu não esqueça de (des)educar a Nayra de 6 anos de idade, que se julgava burra e que, por vezes, ainda tenta morar aqui.

Todos os dias.

Com a paciência de quem está aprendendo pela primeira vez.

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