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  Costa, Lucio (1902 - 1998)        

Biografia
Lucio Marçal Ferreira Ribeiro de Lima e Costa (Toulon, França 1902 - Rio de Janeiro RJ 1998). Arquiteto, urbanista, estudioso e teórico da arquitetura e conservador do patrimônio. Forma-se, em 1924, na Escola Nacional de Belas Artes - Enba, no Rio de Janeiro. Entre 1922 e 1929, mantém um escritório de arquitetura associado a Fernando Valentim e realiza inúmeros projetos e obras orientados predominantemente pelo estilo neocolonial, de teor nacionalista, e eventualmente pelos preceitos ecléticos internacionais.

Em 1929, casa-se com Julieta Modesto Guimarães, Leleta, e, em meio a uma crise profissional, muda-se com ela para Correias, nos arredores de Petrópolis, Rio de Janeiro. Lá, descobre a Casa Modernista, de Gregori Warchavchik, publicada na revista Paratodos, reforçando sua insatisfação com a arquitetura acadêmica. Em 1930, volta para o Rio de Janeiro, convidado a trabalhar como assessor de obras do Itamaraty e, após a Revolução de 1930, é nomeado diretor da Enba, por Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Na Enba, consuma sua "conversão" ao movimento moderno e realiza uma importante reviravolta no ensino da escola, demitindo antigos professores e contratando outros, de orientação moderna, como Warchavchik, Alexander Buddeus e Leo Putz. Ainda no cargo, organiza o importante Salão Revolucionário de 1931, que conta com a participação de artistas como Guignard, Candido Portinari, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, e tem papel fundamental na divulgação e legitimação do movimento iniciado em São Paulo com a Semana de 1922. Em setembro de 1931, em razão da forte reação conservadora, é exonerado do cargo de diretor.

Entre 1931 e 1933 associa-se a Warchavchik, para realizar projetos importantes como o Conjunto Residencial da Gamboa e a Residência Alfredo Schwartz, de 1932. Segue-se, até 1936, um período de intenso estudo da produção dos mestres da arquitetura moderna e de estiagem de encomendas profissionais, a que denomina "os anos de chômage [desemprego]". Nesse período escreve o importante texto-manifesto Razões da Nova Arquitetura, 1934/1936, advogando a inevitabilidade histórica do modernismo.

Em 1935-1936, é convidado pelo ministro Gustavo Capanema a conceber o projeto da nova sede do Ministério da Educação e Saúde - MES, tarefa em que prefere trabalhar associado a um grupo de jovens arquitetos: Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira, Ernani Vasconcelos e Oscar Niemeyer, com a coordenação de Le Corbusier. Esse edifício, bem como o Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York, 1939 (projetado em parceria com Niemeyer), e o Conjunto da Pampulha, é considerado o marco inaugural da arquitetura moderna brasileira, sendo o primeiro arranha-céu no mundo a realizar integralmente os "cinco pontos da arquitetura moderna" idealizados por Le Corbusier.1

Em 1937, passa a trabalhar como diretor da Divisão de Estudos e Tombamentos - DET, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Sphan, criado nesse ano. Deve-se a ele a definição de critérios e normas de classificação, análise e tombamento do patrimônio arquitetônico brasileiro, bem como a definição de critérios para a intervenção em centros históricos. Soma-se a isso seu projeto para o Museu das Missões, no interior do sítio arqueológico de São Miguel, no Rio Grande do Sul. O texto Documentação Necessária, 1937, consuma sua reflexão sobre o acervo construído nacional, dando forma madura a seu projeto intelectual de articulação conceitual entre o repertório comum luso-brasileiro e a arquitetura moderna internacional.

Essa interpretação historiográfica se consolida em textos escritos nas décadas seguintes, como Considerações sobre a Arte Contemporânea, anos 1940, e Muita Construção, alguma Arquitetura e um Milagre, 1951. Nesses anos, ao mesmo tempo que ainda realiza projetos importantes, desliga-se progressivamente da atividade projetual para concentrar-se nas tarefas de pesquisa do serviço público, no Sphan, depois Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan, onde se aposenta, em 1972.

A vitória no concurso para o plano piloto de Brasília, em 1957, assinala uma súbita reaparição de Costa na cena nacional, e é o marco inicial de uma série de projetos urbanísticos que ele desenvolve em seguida. Em 1987, Brasília é considerada Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco. Em 1995, aos 93 anos de idade, o arquiteto lança Lucio Costa: Registro de uma Vivência,2 livro autobiográfico contendo projetos, ensaios críticos, cartas pessoais e textos memorialísticos, um livro de referência para qualquer estudo da arquitetura brasileira.

Comentário Crítico
Autor de uma expressiva obra construída, embora pouco numerosa, e de textos fundadores da historiografia arquitetônica brasileira, Lucio Costa é a figura-chave no quadro de implantação e consolidação da arquitetura moderna no Brasil. Sua trajetória como arquiteto se inicia nos anos 1920, quando, com a tutela de José Mariano Filho, patrono do movimento neocolonial no Rio de Janeiro, se torna uma das figuras de maior destaque entre seus pares. São dessa época projetos como as residências Rodolfo Chamberland, 1921, e Raul Pedrosa, 1924, feitos com orientação acadêmica, segundo os "estilos históricos" (ecletismo e neocolonial). O rompimento com a tradição beaux-arts, aprendida em sua formação na Escola Nacional de Belas Artes - Enba, em favor da arquitetura moderna, ocorre bruscamente em 1930, quando o arquiteto assume o cargo de diretor da escola em que havia estudado, renovando amplamente o currículo e o quadro de professores da Enba. Entre os alunos que se beneficiam dessa transformação estão, entre outros, Luiz Nunes, Jorge Moreira, Vital Brazil, Milton Roberto e Oscar Niemeyer.

Sua "conversão" ao moderno o aproxima de figuras como o arquiteto ítalo-russo Gregori Warchavchik, que em 1927 introduz a "nova arquitetura" em São Paulo, e dos pintores e escultores modernistas, por ocasião do Salão de 31. Nos anos seguintes, aprofunda o estudo da obra de Le Corbusier, Walter Gropius e Ludwig Mies van der Rohe, conseguindo aos poucos recuperar o prestígio profissional adquirido anteriormente, como arquiteto acadêmico. Seu percurso, desde então, caracteriza-se por uma notável generosidade e espírito de grupo, orientada não por uma ambição de sucesso pessoal, mas por um projeto de "formação nacional",3 carregando consigo toda uma geração pioneira. O passo decisivo desse processo é a sua iniciativa de constituir um grupo de arquitetos para projetar o edifício do Ministério da Educação e Saúde - MES, no Rio de Janeiro, com a consultoria de Le Corbusier. Assim, todos podem aprender as lições modernas básicas diretamente das "fontes originais do movimento mundial de renovação", e não de "segunda ou terceira mão",4 por meio do que se fazia em São Paulo.

Em suas palavras, "ao contrário do que ocorreu na maioria dos países, no Brasil foram justamente aqueles poucos que lutaram pela abertura para o mundo moderno, os que mergulharam no país à procura das suas raízes, da sua tradição".5 Assim, a exemplo de outras figuras de destaque do modernismo artístico brasileiro, como Mário de Andrade e Gilberto Freyre, Lucio Costa dedica grande esforço e atenção ao estudo do patrimônio histórico e artístico nacional, tendo papel decisivo na criação e consolidação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Sphan, desde a fundação do órgão, em 1937, até sua aposentadoria, em 1972. Seu ponto de vista para a intervenção em sítios históricos é decisivo, como no caso da construção do Grande Hotel de Ouro Preto, em 1940. Para Costa, não se deve procurar imitar as construções antigas, mas realizar uma obra que destaque a temporalidade da intervenção presente, como uma ação respeitosa da contemporaneidade em relação ao passado.

Lucio Costa constrói uma teoria interpretativa que de certa forma naturaliza a arquitetura moderna internacional no Brasil, já que aponta uma identidade fundamental entre o despojamento de suas formas (a "estética da máquina") e o caráter coletivo e anônimo da arquitetura civil da colônia, que elege como a nossa tradição mais legítima. Essa convergência entre modernidade e patrimônio, no Brasil, marca tanto a interpretação teórica que foi seguida quase unanimemente por aqueles que escrevem a história da arquitetura no país,6 quanto a sua obra construída, que, ao combinar inovações técnico-formais (pilotis, brise-soleil, concreto armado, panos de vidro) com elementos da tradição artesanal (treliças, cobogós, alvenarias de pedra), procura encontrar um termo possível de conciliação entre a impessoalidade da sociedade de massas vindoura e a afetividade do mundo doméstico, herdada dos tempos da colônia. Exemplos particularmente felizes dessa articulação são os seus projetos para o Museu das Missões, 1937, em São Miguel, Rio Grande do Sul, os edifícios do parque Guinle, 1943-1948, no Rio de Janeiro, e o Park Hotel São Clemente, 1944, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro.

Com o passar dos anos, no entanto, Costa recolhe-se progressivamente ao trabalho na repartição, fecha seu escritório de arquitetura e realiza poucos projetos de envergadura, como o edifício do Banco Aliança e a sede social do Jockey Club do Brasil, ambos de 1956, no Rio de Janeiro. Enquanto isso, no início dos anos 1950, revê o percurso de formação da arquitetura moderna brasileira atribuindo a Oscar Niemeyer os méritos por sua originalidade e fulminante sucesso internacional: "ele é a chave do enigma", diz Costa.7 Desse modo, compara Niemeyer a Aleijadinho, e reconstrói sua interpretação da arquitetura colonial luso-brasileira deslocando a ênfase da valorização da edificação civil, "desataviada e pobre", para a exuberante liberdade formal das igrejas barrocas, "nosso estilo de batismo".

Em 1957, após o trauma da morte de sua mulher em um acidente automobilístico, ocorrido três anos antes, Costa ressurge publicamente ao vencer o concurso para o plano piloto de Brasília, a nova capital do Brasil, inaugurada em 1960. Concebendo-a com base em dois eixos que se cruzam em ângulo reto - o eixo rodoviário-residencial e o eixo monumental -, como que a gravar no terreno o sinal da cruz, caracteriza-a da seguinte forma: "trata-se de um ato deliberado de posse, de um gesto de sentido ainda desbravador, nos moldes da tradição colonial".8 Assim, o desenho da cidade orienta-se pela definição de diferentes escalas de uso do espaço: a escala residencial, nas superquadras; a monumental, no eixo dos edifícios públicos; a gregária, no setor cultural e de diversões, situado em um anel em torno do encontro dos dois eixos; e a bucólica, à beira do lago, para os passeios e amenidades da população urbana. Solução urbanística que o crítico Mário Pedrosa defende veementemente, considerando-a "o ovo de Colombo".9

Daí para diante, mesmo depois dessa excessiva exposição, Costa mantém-se reservado e distante da cena principal da arquitetura brasileira. No decorrer dos anos 1970, 1980 e 1990, recebe encomendas de projetos urbanos, como a urbanização da Barra da Tijuca, 1969, no Rio de Janeiro, o plano para a nova capital da Nigéria, 1976, e o estudo para Casablanca, no Marrocos, 1980. Ao mesmo tempo, restringe seus projetos arquitetônicos a uma dimensão exclusivamente doméstica, atendendo apenas aos "apelos" de suas filhas e amigos próximos. Do ponto de vista crítico, mantém-se aferrado a seus ideais dos anos 1930, considerando o pós-moderno um equívoco apressado.

Notas
1 São eles o pilotis, o térreo livre, o teto-jardim, a fachada livre e as janelas horizontais.

2 COSTA, Lucio. Lucio Costa: registro de uma vivência. São Paulo: Empresa da Artes, 1995

3 Otília Arantes estende o conceito de "formação", formulado por Antonio Candido no caso da literatura brasileira, para a arquitetura, com base na ação de Lucio Costa. Ver: ARANTES, Otília B. F. Lucio Costa e a 'boa causa' da arquitetura moderna. In: ______. Sentido da formação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

4 COSTA, Lucio. Depoimento (1948). In: ______. Lucio Costa: registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995, p. 198.

5 COSTA, Lucio. PS-1991. In: ______. op. cit. p. 116.

6 São eles: GOODWIN, Philip. Brazil Builds - architecture new and old; 1652-1942. New York: MoMA, 1943; HITCHCOCK, Henry-Russel. Latin american architecture since 1945. New York: MoMA, 1955; MINDLIN, Henrique E. Modern architecture in Brazil. New York: Reinhold Publishing, 1956; BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981.

7 COSTA, Lucio. Muita construção, alguma arquitetura e um milagre (1951). In: ______. op. cit. p. 170.

8 COSTA, Lucio. Memória Descritiva do Plano Piloto (1957). In: ______. op. cit. p. 283.

9 PEDROSA, Mário. Reflexões em torno da nova capital. In: AMARAL, Aracy (org.). Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 309



Atualizado em 26/09/2013
 
 
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