lista alfabética
  busca
Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais
 
       
   
biografia
histórico
fontes de pesquisa




  sugestões

  Pedrosa, Mário (1900 - 1981)        

Biografia
Mário Pedrosa (Timbaúba PE 1900 - Rio de Janeiro RJ 1981). Crítico de arte, jornalista, professor. Realiza seus estudos no Institut Quinche, em Lausanne, Suíça, em 1913. Entre 1920 e 1922, vive em São Paulo e trabalha como redator de política internacional no jornal Diário da Noite e produz artigos de crítica literária. Em 1923, forma-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Filia-se ao Partido Comunista Brasileiro - PCB em 1926. Viaja para a Alemanha em 1927, e estuda filosofia, sociologia, economia e estética na Universidade de Berlim. Retorna ao Brasil em 1929. Por volta de 1930, com o jornalista Fúlvio Abramo (1909 - 1993) e outros, funda um grupo de posição trotskista e envolve-se no movimento político comunista internacional. Por sua militância política, é preso em 1932. Em 1933 realiza, no Clube dos Artistas Modernos - CAM, a conferência "As Tendências Sociais da Arte de Käthe Kollwitz", sobre o trabalho da gravurista alemã.

Em 1937, com o golpe de Estado e a instauração do Estado Novo (1937-1945), Pedrosa é exilado e permanece em Paris entre 1937 e 1938. Nesse ano transfere-se para Nova York, trabalha no Museum of Modern Art - MoMA [Museu de Arte Moderna] e colabora ativamente em revistas de cultura, política e arte. Volta clandestinamente ao Brasil em 1940. É preso e novamente deportado para os Estados Unidos. Em 1942, por ocasião da inauguração dos painéis de Candido Portinari (1903 - 1962) na Biblioteca do Congresso em Washington D.C., publica um estudo sobre o pintor brasileiro. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, retorna ao Brasil, participa da luta pela derrubada da ditadura Vargas e torna-se colaborador do jornal Correio da Manhã, escrevendo na seção de artes plásticas até 1951. Funda e dirige o semanário Vanguarda Socialista, no Rio de Janeiro, no qual publica artigos difundindo uma orientação política democrática, anti-stalinista e não mais trotskista. Incorpora-se à Esquerda Democrática, fundada em agosto de 1945, que passa a se denominar Partido Socialista Brasileiro - PSB, em 1947.

Em 1949 presta concurso para a cátedra de história da arte e estética na Faculdade de Arquitetura do Rio de Janeiro, com a tese Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte. Colabora como crítico de arte no jornal carioca A Tribuna da Imprensa entre 1950 e 1954. Concorre em 1955 à cadeira de professor de história do Brasil do Colégio Pedro II, para a qual escreve o texto Da Missão Artística Francesa: Seus Obstáculos Políticos. Torna-se livre-docente desse colégio, defendendo a tese Evolução do Conceito de Ideologia: da Filosofia à Sociologia, em 1956. De 1957 a 1971, assina artigos sobre artes visuais no Jornal do Brasil. Colabora também no jornal Folha de S. Paulo.

Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte - Aica desde sua fundação, em 1948, torna-se vice-presidente da entidade em 1957. Contemplado com bolsa da Unesco, passa quase dez meses no Japão, entre 1958 e 1959, quando escreve um estudo sobre as relações da arte japonesa com a arte contemporânea ocidental. Organiza o Congresso Internacional de Críticos de Arte, em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, em 1959. Com o título A Cidade Nova, Síntese das Artes, o congresso debate a criação de Brasília e reúne muitas personalidades de destaque internacional.

É membro das comissões organizadoras das Bienais Internacionais de São Paulo de 1953 e 1955, e diretor-geral da bienal de 1961. Dirige o Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP de 1961 até 1963. De 1961 a 1962, é secretário do Conselho Federal de Cultura, criado pelo governo Jânio Quadros. Em 1966 volta a colaborar com o Correio da Manhã.

Refugiado político durante a ditadura militar, exila-se em 1971. Dirige o Museu de la Solidariedad em Santiago, Chile, no início da década de 1970, e constitui um acervo com doações de artistas de vários países. Torna-se presidente do secretariado do Museo Internacional de la Resistencia Salvador Allende, em Cuba, e professor de história da arte Latino-Americana da Faculdade de Belas-Artes do Chile. Retorna ao Brasil em outubro de 1977.

Colaborador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ nas décadas de 1950 e 1960, faz parte do comitê para sua reconstrução após o incêndio de 1978, que propõe a criação do Museu das Origens. Entre 1979 e 1980 é consultor da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente. Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores - PT, é o primeiro a assinar seu manifesto de criação, no Colégio Sion, em São Paulo, em 1980.

Sua biblioteca, com aproximadamente 8 mil livros, folhetos e periódicos sobre arte, filosofia, ciências sociais e política, além de 15 mil itens de seu arquivo, entre cartas, recortes de jornal e documentos iconográficos que registram seu trabalho como crítico de arte e ativista político, faz parte do acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Diversas de suas correspondências e artigos, reunidos pelo Centro de Documentação do Movimento Operário Mário Pedrosa - Cemap, estão sob os cuidados do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista - Cedem/Unesp, em São Paulo. 

Comentário Crítico
Mário Pedrosa é um dos mais importantes críticos de arte do Brasil, o que se comprova por sua produção e sua projeção internacional. Como afirma o crítico de arte Ronaldo Brito, é impossível analisar a produção intelectual de Pedrosa sem levar em conta sua participação nos eventos, pela influência sobre os agentes do meio artístico e grau de impregnação do circuito com suas idéias e posições.1

Como crítico, não apenas procura compreender a arte de seu tempo, mas também intervir em seu processo de produção. Teórico e principal defensor da arte abstrata, exerce um papel crítico crucial para o movimento neoconcreto, no fim da década de 1950, e para o novo realismo, na década de 1960. A densidade teórica de sua produção crítica lhe confere a qualificação de "pensador de arte",2 sempre envolvido com as questões relevantes e as expressões artísticas de seu tempo. De ânimo combativo e militante, dedica-se a pensar e a propor uma arte adequada a um país novo como o Brasil, a entender a dinâmica específica da arte brasileira. Afinado com as discussões em voga no campo artístico mundial, contribui com reflexões a respeito dos significados da produção de arte moderna internacional e sobre teoria da arte, por ele entendida como uma forma de conhecimento.

Seus textos revelam a familiaridade com os movimentos artísticos internacionais de vanguarda, nutrida pela convivência com figuras como o crítico de arte Jorge Romero Brest (1905 - 1988) e o pintor Joaquim Torres-García (1875 - 1949), com os quais compartilhava o interesse pelas tendências construtivas, os escritores surrealistas Pierre Naville (1904 - 1993), Louis Aragon (1897 - 1982) e André Breton (1896 - 1966) e artistas como o escultor Alexander Calder (1898 - 1976) e o pintor Joan Miró (1893 - 1980), sobre os quais escreve importantes ensaios no período em que vive nos Estados Unidos. Grande parte de sua produção, em que debate questões centrais da arte, destina-se à publicação em jornais. Nela, divulga sua posição sobre o que acredita ser os equívocos da arte informal, defende a arte abstrata em suas vertentes mais construtivas e apóia os jovens artistas formuladores do neoconcretismo, no qual enxerga uma nova linguagem para as artes plásticas brasileiras.

Entre seus mais importantes artigos originalmente publicados na imprensa, destacam-se o balanço da obra de Candido Portinari (1903 - 1962), no qual tece uma reflexão sobre a questão do conteúdo social da arte, de 1934; o ensaio sobre o trabalho de Calder, de 1944; Do 'Informal' e Seus Equívocos, no Jornal do Brasil, em 1959; O 'Bicho-da-Seda' na Produção em MassaQuinquilharia e Pop Art, Mundo em Crise, Homem em Crise, Arte em Crise, os três textos no Correio da Manhã, em 1967; e Do Porco Empalhado ou os Critérios da Crítica, no Correio da Manhã, em 1968.

Como professor, leciona estética e história da arte no Rio de Janeiro e em Santiago, Chile. Dessa atividade resultam quatro teses acadêmicas: Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte, estudo pioneiro na abordagem dos problemas da arte do ponto de vista da psicologia das formas (gestalt), alcança repercussão internacional no meio acadêmico e influencia jovens artistas brasileiros que se tornam nomes importantes da arte concreta. Da Missão Artística Francesa: Seus Obstáculos Políticos, de 1955, aborda sobretudo os problemas encontrado pela expedição, que vem ao Brasil em 1816, e as influências externas na história da arte brasileira. Os outros dois estudos, As Principais Correntes da Revolução Russa e Evolução do Conceito de Ideologia, de 1956, situam-se no campo da história, filosofia e sociologia.

A maioria dos críticos brasileiros do período tende a se concentrar no conteúdo e ignorar os aspectos da forma. Nesse contexto, Pedrosa surpreende, e por vezes escandaliza, ao valorizar a arte abstrata e os problemas de percepção da forma e ao criticar, no fim da década de 1940 e na década de 1950, grandes nomes do modernismo brasileiro, como Lasar Segall (1891 - 1957), Candido Portinari e Tarsila do Amaral (1886 - 1973).

Seu primeiro livro, Arte Necessidade Vital, de 1949, é uma coletânea de textos publicados em jornais e revistas especializadas entre 1933 e 1948. O artigo específico que dá nome ao livro é uma conferência realizada no encerramento da exposição de pintura organizada pelo Centro Psiquiátrico Nacional em março de 1947. Ocasião em que Pedrosa apresenta sua conceituação da arte e tece considerações sobre qual seria o fundamento do fenômeno artístico, rejeitando a noção de arte como imitação da natureza. Valendo-se de conceitos da psicologia, afirma que a atividade artística se estende a todos os seres humanos, não sendo ocupação exclusiva de poucos. Ele diz: "A vontade da arte pode se manifestar em qualquer homem de nossa terra, independente do seu grau meridiano, seja ele papua ou cafuso, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado".No artigo A Força Educadora da Arte, afirma que a obra de arte tem o poder de agir sobre o homem, e que a ocupação artística desempenha um importante papel terapêutico na educação dos sentidos e das emoções. A filósofa Otília Arantes qualifica Arte Necessidade Vital como uma importante colaboração para o debate estético nacional, pois o ensaio contém a primeira formulação - que depois Pedrosa vai desenvolver na tese de 1949 - que procura aproximar os ensinamentos da gestalt à arte.

Na década de 1960, época da polêmica em torno dos diversos abstracionismos, seus artigos "refletem a busca da superação da mesma problemática em que a arte ainda é tratada sobretudo sob o ponto de vista dialético de forma e conteúdo".4 A seu ver a reivindicação de uma arte pura se esgota e a polêmica crítica passa a invadir outros campos. Trata-se, segundo ele, de uma crise que não é puramente estética. Em busca do entendimento dessa crise que afeta o panorama das artes do período, Pedrosa escreve artigos como Crise do Condicionamento Artístico, nos quais discute os motivos da incompreensão e perplexidade do público em relação à arte moderna. Em ensaios como A Arte e as Linguagens da Realidade, publicado em Dimensões da Arte, em 1964, analisa qual deve ser a atitude do espectador diante da obra de arte.

Pedrosa vê com otimismo as correntes construtivas, para as quais a arte é um fator de progresso a contribuir para a transformação intelectual e prática da sociedade. Entre os artistas, destaca especialmente Hélio Oiticica (1937 - 1980) e Lygia Clark (1920 - 1988), enfatizando em suas obras a superação da recepção puramente contemplativa do trabalho de arte, o fato de a participação do espectador ser constituinte do objeto artístico. Após o arrefecimento das ideologias construtivas, segue se dedicando a compreender o processo artístico. Escrevendo, em 1966, a respeito das experimentações da arte brasileira, identifica uma mudança de parâmetros da produção que extrapola os limites da arte moderna, o que o leva a cunhar o conceito de arte pós-moderna. Nessa produção, diz Pedrosa, as idéias têm primazia sobre as propriedades estéticas do objeto.

Crítico mordaz da pop art, expressão da sociedade de massa que, segundo ele, dissolve a promessa de democratização em nome da banalidade do lugar-comum, e do expressionismo abstrato norte-americano, Pedrosa valoriza a produção dos doentes mentais reunida no Museu de Imagens do Inconsciente, fascinado pelos trabalhos de internos como Emygdio de Barros (1895 - 1986)Raphael (1912 - 1979) e Carlos Pertuis (1910 - 1977), a quem conhece por intermédio de Almir Mavignier (1925). Outro tema de seu interesse é o ensino da arte e seu papel no desenvolvimento de habilidades técnicas, no amadurecimento emocional e na criatividade. Pedrosa acompanha os trabalhos de Ivan Serpa (1923 - 1973) com seus alunos da escolinha de arte do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, com quem publica, em 1953, Crescimento e Criação, sobre as funções pedagógicas da arte.

Com sua crítica combativa e experimental, Pedrosa mobiliza toda uma geração de artistas e redireciona a reflexão sobre arte no Brasil. Sobressaem em seus textos a erudição, o rigor interpretativo, a busca das grandes sínteses e a sutileza de sua percepção formal. De sua extensa produção teórica e crítica sobre arte e política, muitos artigos são, em vida ou postumamente, organizados em coletâneas.

 

Notas
1 BRITO, Ronaldo. As lições avançadas do mestre Pedrosa. In: ______; LIMA, Sueli de (Org.). Experiência crítica: textos selecionados. São Paulo: Cosac & Naify, 2005. p. 48. Texto publicado originalmente em Opinião, agosto de 1975.
2 AMARAL, Aracy. Mario Pedrosa: um homem sem preço. In: MARQUES NETO, José Castilho (org). Mario Pedrosa e o Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. p. 53.
3 PEDROSA, Mário. Arte necessidade vital. Rio de Janeiro: Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1949. p. 151-152.

4 PEDROSA, Mário. Prefácio (abril de 1972). In: ______; AMARAL, Aracy (Org.). Mundo, homem, arte em crise. São Paulo: Perspectiva, 1975. p. 7.



Atualizado em 08/10/2013
 
 
Veja nas
Enciclopédias
 
  teatro - personalidades
  Gullar, Ferreira (1930)

 
  literatura - nomes
  Gullar, Ferreira (1930)