|
|
|
|
|||||||||||||||||
|
Pedrosa, Mário (1900 - 1981)
Comentário Crítico Como crítico, não apenas procura compreender a arte de seu tempo, mas também intervir em seu processo de produção. Teórico e principal defensor da arte abstrata, exerce um papel crítico crucial para o movimento neoconcreto, no fim da década de 1950, e para o novo realismo, na década de 1960. A densidade teórica de sua produção crítica lhe confere a qualificação de "pensador de arte",2 sempre envolvido com as questões relevantes e as expressões artísticas de seu tempo. De ânimo combativo e militante, dedica-se a pensar e a propor uma arte adequada a um país novo como o Brasil, a entender a dinâmica específica da arte brasileira. Afinado com as discussões em voga no campo artístico mundial, contribui com reflexões a respeito dos significados da produção de arte moderna internacional e sobre teoria da arte, por ele entendida como uma forma de conhecimento. Seus textos revelam a familiaridade com os movimentos artísticos internacionais de vanguarda, nutrida pela convivência com figuras como o crítico de arte Jorge Romero Brest (1905 - 1988) e o pintor Joaquim Torres-García (1875 - 1949), com os quais compartilhava o interesse pelas tendências construtivas, os escritores surrealistas Pierre Naville (1904 - 1993), Louis Aragon (1897 - 1982) e André Breton (1896 - 1966) e artistas como o escultor Alexander Calder (1898 - 1976) e o pintor Joan Miró (1893 - 1980), sobre os quais escreve importantes ensaios no período em que vive nos Estados Unidos. Grande parte de sua produção, em que debate questões centrais da arte, destina-se à publicação em jornais. Nela, divulga sua posição sobre o que acredita ser os equívocos da arte informal, defende a arte abstrata em suas vertentes mais construtivas e apóia os jovens artistas formuladores do neoconcretismo, no qual enxerga uma nova linguagem para as artes plásticas brasileiras. Entre seus mais importantes artigos originalmente publicados na imprensa, destacam-se o balanço da obra de Candido Portinari (1903 - 1962), no qual tece uma reflexão sobre a questão do conteúdo social da arte, de 1934; o ensaio sobre o trabalho de Calder, de 1944; Do 'Informal' e Seus Equívocos, no Jornal do Brasil, em 1959; O 'Bicho-da-Seda' na Produção em Massa, Quinquilharia e Pop Art, Mundo em Crise, Homem em Crise, Arte em Crise, os três textos no Correio da Manhã, em 1967; e Do Porco Empalhado ou os Critérios da Crítica, no Correio da Manhã, em 1968. Como professor, leciona estética e história da arte no Rio de Janeiro e em Santiago, Chile. Dessa atividade resultam quatro teses acadêmicas: Da Natureza Afetiva da Forma na Obra de Arte, estudo pioneiro na abordagem dos problemas da arte do ponto de vista da psicologia das formas (gestalt), alcança repercussão internacional no meio acadêmico e influencia jovens artistas brasileiros que se tornam nomes importantes da arte concreta. Da Missão Artística Francesa: Seus Obstáculos Políticos, de 1955, aborda sobretudo os problemas encontrado pela expedição, que vem ao Brasil em 1816, e as influências externas na história da arte brasileira. Os outros dois estudos, As Principais Correntes da Revolução Russa e Evolução do Conceito de Ideologia, de 1956, situam-se no campo da história, filosofia e sociologia. A maioria dos críticos brasileiros do período tende a se concentrar no conteúdo e ignorar os aspectos da forma. Nesse contexto, Pedrosa surpreende, e por vezes escandaliza, ao valorizar a arte abstrata e os problemas de percepção da forma e ao criticar, no fim da década de 1940 e na década de 1950, grandes nomes do modernismo brasileiro, como Lasar Segall (1891 - 1957), Candido Portinari e Tarsila do Amaral (1886 - 1973). Seu primeiro livro, Arte Necessidade Vital, de 1949, é uma coletânea de textos publicados em jornais e revistas especializadas entre 1933 e 1948. O artigo específico que dá nome ao livro é uma conferência realizada no encerramento da exposição de pintura organizada pelo Centro Psiquiátrico Nacional em março de 1947. Ocasião em que Pedrosa apresenta sua conceituação da arte e tece considerações sobre qual seria o fundamento do fenômeno artístico, rejeitando a noção de arte como imitação da natureza. Valendo-se de conceitos da psicologia, afirma que a atividade artística se estende a todos os seres humanos, não sendo ocupação exclusiva de poucos. Ele diz: "A vontade da arte pode se manifestar em qualquer homem de nossa terra, independente do seu grau meridiano, seja ele papua ou cafuso, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado".3 No artigo A Força Educadora da Arte, afirma que a obra de arte tem o poder de agir sobre o homem, e que a ocupação artística desempenha um importante papel terapêutico na educação dos sentidos e das emoções. A filósofa Otília Arantes qualifica Arte Necessidade Vital como uma importante colaboração para o debate estético nacional, pois o ensaio contém a primeira formulação - que depois Pedrosa vai desenvolver na tese de 1949 - que procura aproximar os ensinamentos da gestalt à arte. Na década de 1960, época da polêmica em torno dos diversos abstracionismos, seus artigos "refletem a busca da superação da mesma problemática em que a arte ainda é tratada sobretudo sob o ponto de vista dialético de forma e conteúdo".4 A seu ver a reivindicação de uma arte pura se esgota e a polêmica crítica passa a invadir outros campos. Trata-se, segundo ele, de uma crise que não é puramente estética. Em busca do entendimento dessa crise que afeta o panorama das artes do período, Pedrosa escreve artigos como Crise do Condicionamento Artístico, nos quais discute os motivos da incompreensão e perplexidade do público em relação à arte moderna. Em ensaios como A Arte e as Linguagens da Realidade, publicado em Dimensões da Arte, em 1964, analisa qual deve ser a atitude do espectador diante da obra de arte. Pedrosa vê com otimismo as correntes construtivas, para as quais a arte é um fator de progresso a contribuir para a transformação intelectual e prática da sociedade. Entre os artistas, destaca especialmente Hélio Oiticica (1937 - 1980) e Lygia Clark (1920 - 1988), enfatizando em suas obras a superação da recepção puramente contemplativa do trabalho de arte, o fato de a participação do espectador ser constituinte do objeto artístico. Após o arrefecimento das ideologias construtivas, segue se dedicando a compreender o processo artístico. Escrevendo, em 1966, a respeito das experimentações da arte brasileira, identifica uma mudança de parâmetros da produção que extrapola os limites da arte moderna, o que o leva a cunhar o conceito de arte pós-moderna. Nessa produção, diz Pedrosa, as idéias têm primazia sobre as propriedades estéticas do objeto. Crítico mordaz da pop art, expressão da sociedade de massa que, segundo ele, dissolve a promessa de democratização em nome da banalidade do lugar-comum, e do expressionismo abstrato norte-americano, Pedrosa valoriza a produção dos doentes mentais reunida no Museu de Imagens do Inconsciente, fascinado pelos trabalhos de internos como Emygdio de Barros (1895 - 1986), Raphael (1912 - 1979) e Carlos Pertuis (1910 - 1977), a quem conhece por intermédio de Almir Mavignier (1925). Outro tema de seu interesse é o ensino da arte e seu papel no desenvolvimento de habilidades técnicas, no amadurecimento emocional e na criatividade. Pedrosa acompanha os trabalhos de Ivan Serpa (1923 - 1973) com seus alunos da escolinha de arte do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, com quem publica, em 1953, Crescimento e Criação, sobre as funções pedagógicas da arte. Com sua crítica combativa e experimental, Pedrosa mobiliza toda uma geração de artistas e redireciona a reflexão sobre arte no Brasil. Sobressaem em seus textos a erudição, o rigor interpretativo, a busca das grandes sínteses e a sutileza de sua percepção formal. De sua extensa produção teórica e crítica sobre arte e política, muitos artigos são, em vida ou postumamente, organizados em coletâneas. Notas Atualizado em 27/08/2010 |
|