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  Meirelles, Victor (1832 - 1903)        

Comentário Crítico

Nasce em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, e vai para o Rio de Janeiro em 1847, onde estuda na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba. Em 1852, obtém o prêmio de viagem ao exterior da Aiba. Em Roma, é orientado pelos artistas Tommaso Minardi (1787 - 1871) e Nicola Consoni (1814 - 1884) e entra em contato com a pintura "purista", na qual o desenho é mais tênue e delicado que o da tradição neoclássica e as cores são suavizadas. Estuda as obras dos mestres italianos, em especial os artistas da Escola Veneziana, como Ticiano (ca.1488 - 1576) e Paolo Veronese (1528 - 1588), por quem manifesta especial interesse. Consegue renovação do pensionato e estuda em Paris, a partir de 1857, com o artista Léon Cogniet (1794 - 1880) e posteriormente com Andrea Gastaldi (1826 - 1889). Durante o tempo em que reside no exterior, mantém intensa correspondência com  Porto Alegre (1806 - 1879), pintor e escritor, diretor da Aiba entre 1854 e 1857. Após mais de oito anos de ausência, retorna ao Brasil em 1861. No ano seguinte é nomeado professor de pintura histórica e de paisagem na Aiba, cargo que exerce até 1890.

Na permanência em Paris, pinta o quadro A Primeira Missa no Brasil (1861). O crítico Gonzaga Duque (1863 - 1911) comenta essa obra, ressaltando sua importância histórica: "... A primeira missa não poderia ser senão aquilo que ali está. Devia ser, forçosamente, aquele conjunto, isto é, um altar, um padre oficiando, um outro servindo de acólito, a guarnição da armada portuguesa assistindo ao ofício divino, o gentio aproximando-se, cauteloso, admirado, imitando o que via fazer. É isso o que narra a história e só".1 O quadro retrata a primeira missa da maneira como é descrita na carta de Pero Vaz de Caminha (ca.1451 - 1500). O documento, publicado somente em 1817, assume papel primordial na história do Brasil. No momento em que o quadro é pintado, a temática indianista está presente na literatura romântica e nas artes plásticas. Destaca-se o sentido poético de organização dos grupos que participam da cena e a gama cromática, com sutilíssimas passagens de tons. A cena principal estende-se ao longe e o olhar do espectador é direcionado para a cruz, no alto. No plano de fundo, abre-se a paisagem serena, banhada por uma luz suave, na qual está presente a vegetação tropical. O quadro tem uma atmosfera contemplativa. Meirelles cria uma imagem da história que dificilmente pode ser esquecida e que para muitos setores da intelectualidade do século XIX é a primeira grande obra de arte brasileira.

A tela Moema (1866) inspira-se no canto VI do poema épico Caramuru (1781), de frei José de Santa Rita Durão (1722 - 1784), que, como outros textos literários do período, trata do tema indianista ligado ao imaginário nacional. O poema narra a desventura da índia que, abandonada pelo português Caramuru, se atira ao mar e segue o navio no qual ele está partindo. No quadro, o corpo nu, banhado pelas ondas na praia, é exposto em primeiro plano, o rosto revela uma beleza exótica. O pintor cria uma imagem sensual e que, ao mesmo tempo, causa estranheza. Revela um sentimento poético na representação da paisagem.

Ao longo da carreira, recebe várias encomendas de quadros oficiais, entre eles, a Batalha de Riachuelo (ca.1882), no qual, com a técnica naturalista da representação, explora o triunfo e a destruição associados ao combate.  Na Exposição Geral de Belas Artes, em 1879, são apresentadas as telas A Batalha de Guararapes, de Victor Meirelles e a Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1843 - 1905), que marcaram época na pintura brasileira. É criada uma polêmica na imprensa, em relação às duas telas, consideradas antagônicas. 

Com a Proclamação da República, modifica-se a direção da Aiba, que passa a se chamar Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Surgem propostas de renovação no ensino das artes e os antigos professores, como Victor Meirelles, são exonerados. Ele passa a ser marginalizado, por ser identificado como o pintor oficial da monarquia. Desde 1885, procurando alternativa à pintura historica e às encomendas oficiais, cria uma empresa de panoramas da cidade do Rio de Janeiro. No fim da vida, sobrevive das exibições públicas de seus panoramas e, melancólico, lamenta que o público tenha esquecido de seus quadros. Do primeiro panorama, exposto em Bruxelas e em Paris, em 1889, foram preservados apenas seis estudos. Nestes, a paisagem é representada com equilibrada distribuição de tons, e o olhar do espectador é convidado a percorrer a variedade de passagens, da semi-obscuridade da vegetação à luminosidade da atmosfera.

Vitor Meirelles tem papel importante na formação de vários artistas, na segunda metade do século XIX, devido a sua longa carreira como professor. Destaca-se, sobretudo, pelas qualidades de sua pintura: o desenho primoroso e a requintada combinação tonal em telas trabalhadas com sentimento e poesia.

Notas

1 DUQUE, Gonzaga. A Arte brasileira. Campinas: Mercado de Letras, 1995. p.173. (Arte: ensaios e documentos).



Atualizado em 28/05/2010
 
 
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  Caminha, Pero Vaz de (ca.1451 - 1500)

 

 
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