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  Saggese, Antonio (1950)        

Críticas

"(...) Nessa série de 13 fotos realizadas em interiores de oficinas mecânicas, Antonio Saggese tem uma estranha maneira de atribuir o lugar do erótico: uma especialidade sem volume, sem a generosa doação da presença dos corpos. Aqui as peles brilham como os metais e as partes dos corpos se articulam com a mesma lógica dos fragmentos das oficinas. Cordas, borrachas, correias e chaves são, como os membros, índices de um suposto funcionamento geral que possivelmente nem mesmo existia.
A pertinência dos trabalhos ao campo da fotografia (no qual eles se posicionam com uma inteligência meio desconfiada), e ao próprio campo da cultura visual contemporânea, reside na ambigüidade imediata em que eles mergulham o observador, e assim no tipo de olhar singular, distanciado, que dele reclamam. Porque diante dessas fotos o observador desliza entre a possibilidade de se engajar no imaginário que ali foi rigorosamente constituído, de render-se ao sucesso do dispositivo técnico colocado a serviço da precisão e do refinamento da imagem, de sua qualidade estética, enfim, e, numa direção inversa, a de manter-se em despojada neutralidade perante essas totalidades de sentido que a fotografia logo tende a estabelecer, enfrentando a experiência puramente visual e o conseqüente esvaziamento e indiferenciação daquele imaginário".

Sônia Salzstein Goldberg

Antonio Saggese: fotografias. Ribeirão Preto: Ribeirão Shopping, 1989.


"(...) O trabalho de Saggese mostra que esse voyeurismo disfarçado é um dos elementos básicos da sedução fotográfica. Não por acaso a fotografia gratifica os sentimentos eróticos daqueles para quem o desejo se torna mais intenso com a distância.

A morte é revelada como a essência do processo fotográfico. A idéia de que as fotos preservam o passado é a última fortaleza da teoria da foto como espelho da realidade. Mas as fotografias não sobrevivem às pessoas que registram. Pelo menos não por muito tempo".

Ricardo Anderáos

Anderáos, Ricardo. Morte e erotismo decodificam a linguagem fotográfica. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 jun. 1991.


"A afinidade entre o muro e a paisagem, criada pelos artistas pré-rafaelistas, é retomada no trabalho fotográfico de Antonio Saggese. São várias séries: oficinas mecânicas, serrarias e cemitérios. Em todas, paredes cobertas por fotografias. Calendários, recortes, retratos. A fotografia é sempre vista na parede em que está fixada. Ex-votos, cartazes de propaganda eleitoral, avisos de serviços e oportunidades - imagens já feitas para ser coladas na parede. Não têm a autonomia de uma fotografia convencional, só existem em função do contexto, como parte de uma superfície que se prolonga para além dela: o muro.

Os calendários de fotos eróticas em oficinas mecânicas e marcenarias estão recobertos de graxa e pó, rasurados, gastos pelo tempo. Pregos estrategicamente fincados, anotações e outros papéis sobrepostos vão contando a história da exposição daquelas imagens. Serrotes pendurados mal deixam entrever a esmaecida silhueta atrás. Convívio brutal entre a delicadeza dos modelos femininos e do papel perecível das imagens e a agressividade dos tornos, das barras de ferro, das peças cheias de óleo e pneus. As ferramentas penduradas sobre as fotos delineiam o imaginário sadomasoquista dessas mecânicas do desejo".

Nelson Brissac Peixoto

PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. São Paulo: Senac, 1996.