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  Rio Branco, Miguel (1946)    

Críticas

"Miguel Rio Branco optou por um outro caminho, a meu ver, mais rico e estimulante. Não o ensaio com princípio-meio-fim, tese exposta, não a ênfase na técnica, que tende a anular o sentir e o pensar, mas o caderno de anotações, em que a emoção do momento vem associada à consciência crítica, em que o acaso é integrado no processo criador. Não o desenho acabado, o contorno rígido, mas o croquis, a anotação gráfica. Isto fica claro logo à entrada da exposição, na coluna em que aparece seu nome. De um lado a foto de um prato contendo um garfo e dois pedaços de bolo, sobre um deles, nítida, uma mosca. Na outra, a palavra ventania (nome de bar) tem sua correspondência formal nos efeitos que resultaram de um erro técnico. Realidade e acaso, Miguel está atento aos acidentes do processo técnico e criador tanto quanto aos lances mais duros da realidade, o aqui e o agora brasileiros, o Nordeste em particular, para onde tem viajado com freqüência".

Frederico Morais

MORAIS, Frederico. Na fotografia, o compromisso com a realidade: denúncia e documento social. O Globo, Rio de Janeiro, 23 out. 1978.


"Seu ensaio sobre o Maciel, um bairro deteriorado física e socialmente dentro da região do Pelourinho, em Salvador, transforma a maioria das outras exposições em simples exercícios amadorísticos e prova mais uma vez que a fotografia depende fundamentalmente de talento, domínio de linguagem e de uma dose suficiente de coragem do autor para mergulhar em busca de seus próprios fantasmas e transformá-los em imagens. E que não depende apenas, como vem ocorrendo, de um bom arquivo de onde se possa retirar velhas e empoeiradas fórmulas de bem fotografar.
Trabalhando com cor e sobre um tema escorregadio, cheio de imagens/símbolo de fácil assimilação como é um bairro decadente que exibe fachadas coloniais semidestruídas, prostitutas, traficantes e um repertório completo de marginais, Miguel Rio Branco consegue uma síntese onde a documentação sociológica convive de forma invejável com um discurso pessoal amargo e pessimista. Para o fotógrafo, o bairro funciona como um microcosmo ampliado da sociedade. Esmiuçado sem paternalismo pela câmara, revela um universo de violência, sexualidade, insegurança e transitoriedade. Nada é definitivo em suas imagens. Apenas o cenário com os sinais de um luxo passado parecem resistir. A arquitetura decadente ilustra e dramatiza cada flagrante. Sob suas ruínas, homens e mulheres lutam por sobreviver naquele instante, sem qualquer expectativa. Do passado, guardam apenas as cicatrizes ganhas em combates".

Moracy R. de Oliveira

OLIVEIRA, Moracy R. de. Rio Branco, polêmico, instigante. Jornal da Tarde, São Paulo, 03 nov. 1980.


"Não conheço Maciel, lá no Pelourinho, em Salvador. Mas mergulhei nele durante caminhada pelas imagens de Miguel Rio Branco, feitas de cores e estruturas, resignações, indiferenças, cansaços e, às vezes, manchas de sorriso ou desespero. Lixo fora e lixo dentro. O mundo de casas-fachadas escamadas, desmudando a matéria bruta - tijolo, cimento, tábua. O mundo de corpos-fachadas, fragmentos de matéria lisa, texturizada com as cicatrizes vivas, memórias de paixões, lutas, violências. E entre esses dois capítulos visuais desenrola-se, obedecendo a um ritmo e a uma seqüência lógica, emocional e pictórica do fotógrafo, a vida-inferno da Comunidade Maciel (50 cibaprints na Fotogaleria Fotoptica, na rua Bela Cintra, 1465).
A emoção que atinge o espectador frente às primeiras fotos de Miguel é do belo. É a beleza de casas-quadros abstratos, feitas de geometrias, texturas, camadas de matéria e ser. São barro, cal, madeira que se vestem numa luminosidade de sol (que luz bonita é esta do entardecer, que aquece, ilumina e penetra nas fendas e dobras, emprestando um relevo às imagens). São as cores de terra, tijolo, café emolduradas num verde envelhecido, azul colonial e dourado barroco. As venezianas-tábuas brutas entreabertas deixam apenas adivinhar a vida escondida. Um retângulo vazado, esboço de uma janela, aprisiona dentro de nada um verdadeiro céu azul com uma nuvem branca suspensa.
E, de repente, as casas se povoam. São rostos, pernas, corpos que se debruçam nas janelas, num convite permanente para conversinha, paquera ou simplesmente abrindo-se num gesto ou sorriso profissional para seduzir um 'cliente'. A sensação torna-se surrealista. No momento da vida penetrar dentro das fachadas-pinturas, o quadro que até agora vibrava com uma força pectórica, começa a morrer devagar. (É a beleza de um Dorian Gray que morre na imagem da velhice real. ) É o abstrato possuído pela realidade que morre. Aparece a verdade. Miséria, sujeira, decadência até se chegar ao 'fundo do poço'".

Stefania Bril

BRIL, Stefania. Imagens de vida-inferno. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 18 out. 1980. p. 15.


 
 
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