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  Ramos, Nuno (1960)        

Críticas

"Gestar, justapor, aludir, duplicar são quatro modos que Nuno Ramos encontrou para salientar e problematizar a invenção na arte. É através deles que construiu, para além das variações estilísticas ou de aparência visual mais imediata, um invariante poético. O artista nunca se afastou de uma poética que, para onde quer que se desvie, sempre buscou dar continuidade ao descontínuo e, nesse movimento, expor a tensão entre ambos. É assim que ao investigar o fazer pelo gesto procura continuá-lo como tal na pintura apesar da descontinuidade intransponível entre um gesto e a marca que ele deixa. Ou que, ao destacar o fazer por justaposição, não cria colagens com elementos discretos, mas amálgamas ou fusões das mais diversas coisas, em que há um contínuo ato de agregar. Do mesmo modo, quando alude a potências cósmicas como criadoras das obras, garante uma continuidade entre elas e seus vestígios sensíveis através de um hábil contraponto entre o evidente e o enigmático. Já, quando aborda o fazer pela relação entre modelo e cópia, as diferentes escalas ganham fluidez e continuidade no jogo da imaginação que é oferecido ao espectador. Mas, se a fórmula 'dar continuidade ao descontínuo' soar abstrata - como se fosse um problema matemático, filosófico -, talvez baste, para torná-la concreta, olhar uma de suas obras, em que qualquer destroço, fragmento, resto, no fim das contas, mas só no fim das contas, é salvo de seu naufrágio. E quem sabe mesmo experimentar o sentimento único, próprio da arte e de não muito mais, de que os retalhos, a descontinuidade e a finitude da vida deságuam num curso maior, ininterrupto e contínuo como o suceder das gerações".

Alberto Tassinari

TASSINARI, Alberto. Gestar, justapor, aludir, duplicar.  In: TASSINARI, Alberto; MAMMÌ, Lorenzo; NAVES, Rodrigo. Nuno Ramos. São Paulo: Ática, 1997, p. 16-29.


"O tempo desses trabalhos não é o tempo da sucessão, que permite que as coisas se acumulem. Ele é antes um tempo poroso, que opera no interior de um presente extensivo, a criar reiteradamente a sua própria suspensão, anulando um após o outro todos os movimentos sucessivos. Com isso, é o próprio processo de conformação que é colocado em xeque. Se na tradição moderna em boa medida a forma era obtida a partir de uma concepção fenomenológica da matéria - o que não a impedia de ter uma presença até então desconhecida -, e conseqüentemente de uma construtividade que era dada na própria relação perceptiva, num embate em que a resistência dos elementos era simétrica ao poder de formalização do sujeito, agora temos como que uma pulverização deste nexo por uma maleabilidade excessiva da matéria que inviabiliza passivamente as próprias tentativas de estruturação. De certo modo, a trama de madeira é uma teatralização desse drama".

Rodrigo Naves

NAVES, Rodrigo. Em Pó.  In: TASSINARI, Alberto; MAMMÌ, Lorenzo; NAVES, Rodrigo. Nuno Ramos. São Paulo: Ática, 1997, p. 184-185.


"Seus trabalhos respeitam os campos delimitados das práticas artísticas, são pinturas ou esculturas, e até acentuam, se bem que de modo oblíquo, a diferença entre os dois gêneros: um recente ciclo de esculturas, brancas e assépticas como uma coleção de gessos, contrapõe-se, nesse sentido, à explosão da matéria pictórica nos últimos quadros. No entanto, por mais que estejam instaladas no centro de um domínio artístico, essas obras revelam um certo mal-estar, uma instabilidade, uma fragilidade sobretudo física: nas esculturas, a matéria compacta é substituída pelo pó de cal, sempre a ponto de desfazer-se ou de desabar sobre si mesma; nas pinturas, os diferentes materiais continuam a reagir uns sobre os outros, não se estabilizam, não 'secam'. A inquietude congênita desvirtualiza a obra como objeto. O que vemos é apenas o resultado precário de um processo, um momento de êxtase que por pouco não se quebra. A superfície úmida dos quadros denuncia que o objeto de arte, a obra como em geral a entendemos, ainda não está pronta, e não o estará nunca. (...)
Para que a obra possa cumprir sua promessa, ela deve antes de mais nada abolir a certeza de que haverá, de um modo ou de outro, uma aparição. Deve ser capaz de anular a parede, o espaço, a liturgia que a santificam. São justamente os problemas com os quais a vanguarda dos anos 60 e 70 se deparou à exaustão. Mas diversas obras recentes, entre essas aquelas de Nuno Ramos, mostram que essas questões podem ser retomadas nos limites do trabalho pictórico, sem perder sua tensão. (...) É graças ao abandono da forma que os quadros de Nuno Ramos possibilitam uma experiência estética. A obra se subtrai ao olhar porque são abolidos os filtros através dos quais organizamos nossa visão. Oferece-se sem defesa, e assim se esconde - tão concreta que se torna inalcançável.  (...) As esculturas de cal não podiam ser tocadas sem desfazer-se, e tornavam-se  assim inatingíveis, como se estivessem fechadas num campo magnético - essas pinturas não podem nem ser olhadas, sem que o olhar se afunde no corpo do quadro, se atole. A impossibilidade de uma manipulação, ainda que enquanto estratégia visual, restitui à obra uma aura, uma sacralidade - mas é uma sacralidade diferente daquela tradicional: ela assinala que, se a arte retornou às galerias, retornou, porém, irredutivelmente estrangeira. Não se articula mais numa hierarquia de valores, suspende-os: é um buraco negro".

Lorenzo Mammì

MAMMÌ, Lorenzo. Nuno Ramos. In: TASSINARI, Alberto; MAMMÌ, Lorenzo; NAVES, Rodrigo. Nuno Ramos. São Paulo: Ática, 1997, p. 188-189.


"A complexa utilização dos mais diversos materiais - parafina, vaselina, terebentina. feltro, papel, cera, linhaça, barro, sal, pano, corda, lâmina de alumínio, esmalte sintético, mármore, vidro, breu - cria uma mistura densa graças à livre disposição de seus elementos constitutivos. O trabalho resulta numa espécie de campo ativo, através do deslocamento constante desses elementos, sugerindo uma busca descontínua que progride por dificuldades, incompatibilidades e oposições. Suas obras revelam-se, assim, experiências multidirecionadas, traçando uma imensa arena cultural onde ficam expostos os conflitos. Nestas superfícies receptivas a tantos e tantos sentidos, ficamos sem saber precisar o que os retém, o que os afasta, o que os amalgama, enfim, o que os determina. Esta conjugação de elementos difusos forma uma espécie de poema sinfônico contemporâneo de harmonias dissonantes com rápidas alterações de ritmos, sem qualquer centro tonal ou estruturas temáticas".

Vanda Mangia Klabin

KLABIN, Vanda Mangia. Apresentação ao catálogo Nuno Ramos. Rio de Janeiro, Centro de Arte Hélio Oiticica, 1999/São Paulo, Museu de Arte Moderna, 2000, p 6.


 
 
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  Antunes, Arnaldo (1960)