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  Bonadei (1906 - 1974)        

Críticas

"(...) a pesquisa abstrata, iniciada em 1940 - a partir da fase das Impressões Musicais, quando o artista procura transferir para a tela as sensações provocadas pela música -, determina uma redefinição do conceito de linha, que passa a ser seu núcleo principal de interesse. Então a cor se neutraliza: temos fundos unitonais, geralmente cinzentos, ou uma pequena variação de cinza, que se misturam aos rosas, verdes e azuis. A linha, em compensação, é espessa, reforçada, e se exprime em contornos negros e brancos. A interpretação metafórica da música leva o artista a criar símbolos gráficos expressando emoções, raramente revestidos de cor (...). Essa fase o leva, também, a uma determinação da essencialidade do gesto no ato de traçar a linha.
No momento em que pesquisa o cubismo, de um modo geral volta-se ainda para a linha e o desenho. Na pesquisa cubista, que sucede imediatamente à fase das Impressões Musicais, dá-se a redefinição da organização dos planos, que passam a se interpenetrar e a se intersecionar, dinamizando-se no sentido da profundidade e tornando-se o elemento principal de sua busca. Como conseqüência, há uma reformulação na maneira de ver o objeto, que o artista procura captar em sua tridimensionalidade; ao mesmo tempo, dá-se a acentuação do sentido de volume e a busca de plasticidade do objeto, que leva a uma abstração do real. Em benefício da composição que o artista procura, o objeto pode até ser abandonado ou ficar meramente esboçado".

Lisbeth Rebollo Gonçalves

GONÇALVES, Lisbeth Ruth Rebollo. Aldo Bonadei: introdução ao percurso de um pintor. São Paulo: USP/FFLCH, 1977.


"Desde meados dos anos 30, a pintura de Bonadei, que passara pelo rigor do aprendizado acadêmico com o virtuose das naturezas-mortas, Pedro Alexandrino, estivera se dirigindo no sentido de uma crescente simplificação do espaço pictórico pelas mãos de Cézanne e de moderados cubismos. Equilibrara-se aos poucos, para manter-se como tal até o fim, na doce, mas controlada musicalidade dos acordes de emoção e razão, esquentando-se às vezes cromaticamente em lembranças de Matisse, outras vezes preferindo a via mais ascética de exercícios geométricos com fachadas ou tetos de casarios. Só por exceção, e ainda assim esquematizando-a (como no Interior de Ateliê, de 1942), ele deixou a figura humana habitar a sua obra".

Roberto Pontual

PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Prefácio Gilberto Chateaubriand; apresentação M. F. do Nascimento Brito. Rio de Janeiro: JB, 1987. p. 125.


"A arte de Bonadei se caracteriza por uma tensão constante entre o seu lirismo e a sua vontade de contenção, tanto no grafismo como na cor. Essa contradição pode ser encontrada em todas as suas faces, levando seu apego ao negro e aos tons pouco luminosos, e à solidez das suas composições. Os momentos mais fascinantes da pintura de Bonadei correspondem às quase-rupturas da contenção, como em algumas das naturezas-mortas admiráveis do fim da década de trinta e do começo da década de quarenta, em que a contradição se resolve numa exposição musical, ou quando o próprio traço negro adquire uma violência cruel, como na monumental natureza-morta de 1952.
(...)
Em meados da década de quarenta, Bonadei começou a passar por uma importante transformação psicológica e artística, que iniciaria uma nova abertura na sua criatividade, reduzindo gradualmente a violência da contradição entre o seu lirismo e a sua contenção de forma e cor.
(...)
A primeira fase da crise de metanóia de Bonadei foi marcada por uma nova abertura para a música, assinalada pelos seus desenhos abstratos tão originais das impressões musicais, que o tornaram um pioneiro da arte abstrata no Brasil, ainda na década de quarenta, uns dez anos antes do surto abstracionista informal dos anos cinquenta".

Mario Schenberg

SCHENBERG, Mario. Pensando a arte. Fotografia Romulo Fialdini. São Paulo: Nova Stella, 1988.


"Mas houve um Bonadei que pintava e bordava roupas para sobreviver. Houve um Bonadei italiano que pintou Florença, e outro de Moema, que pintava paisagens ao ar livre, e um outro mais, o Bonadei da Rua da Abolição. Houve também um Bonadei que pintava formas musicais. Houve ainda um outro, o pintor abstrato. Houve um Bonadei poeta e houve um Bonadei amante (este talvez fosse o mais secreto dos Bonadeis). Todos eles pungentes, fortes e generosos. (...)

Não vás ainda o instante já foi
Irás de vermelho
O tempo irá contigo
Depois será outro tempo.
A cidade está toda cor-de-rosa
Cor da infância longínqua
Cidade imensa
Casa sobre casa
Sempre a mesma cor
Gás néon brinca
Sobre o azul
Inutilmente.

O poeta Bonadei que assim transmuta a cidade vista por olhos de criança é o mesmo que cria toda uma obra pela transfiguração da natureza, da cor, da luz, da forma, das composições cenográficas das naturezas-mortas, mutações caprichosas de um pintor que soube ordenar gestos e impulsos com a intenção de expressar sentimentos. Bonadei foi sobretudo um artista da cor, que a utilizou com sabedoria e liberdade, unindo tons e semitons, explorando sua harmonia, ao mesmo tempo que podia às vezes juntar cores primárias aliadas a um forte grafismo gestual ou um quase-contorno da cor transformada em luz".

Emanoel Araújo

ARAÚJO, Emanuel. Bonadei. In: BONADEI: 90 anos. São Paulo: Dan Galeria, 1996. p. 2-4.


 
 
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  Suassuna, Ariano (1927)