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  Leirner, Nelson (1932)        

Críticas

"Artista que nos anos 60 marcou sua contribuição com atitudes provocativas no contexto artístico brasileiro - como com a apresentação de um porco empalhado dentro de um engradado e atado a um presunto, evidentemente logo roubado pelo público, perante o júri do Salão de Brasília de 1967 - ou mesmo com o Altar de Roberto Carlos, do mesmo período, concebendo um ambiente de adoração e recolhimento em que a imagem principal, mesclada à religiosidade popular, era do ídolo musical da juventude da época, este artista foi igualmente autor de happening de inusitada violência, ao marcar dia e hora para oferecer ao público o que houvesse no interior da Galeria Rex, de São Paulo, que encerrava nesses dias suas atividades. Ao mesmo tempo, Nelson Leirner teve especial predileção pela apropriação de objetos industrializados, transfigurados em objetos artísticos com fino senso de humor. Observa-se, nessa opção, o caráter eminentemente urbano que permeia sua obra, de que é um exemplo sua criativa série Homenagem a Fontana. Essa intimidade com os meios industriais o levaria ao design, paralelamente à produção gráfica que tem desenvolvido nos últimos anos, em desenhos de dolorosa carga erótica".

Aracy Amaral

AMARAL, Aracy. Nelson Leirner. In: MODERNIDADE: arte brasileira do século XX. São Paulo: Hamburg, 1988.


"A idéia de apropriação, central na produção de Nelson Leirner, ganharia acabamento e adquiriria uma feição particular por volta do ano de 1965, com sua exposição na Galeria Atrium, com Geraldo de Barros. Em seus trabalhos, essa idéia conteria tanto a noção de objet-trouvé (entendido como um objeto já pronto e que, pelos seus predicados, se destaca aos olhos do artista da massa de objetos anônimos) quanto a de readymade (de objeto feito em série, sem nenhum atributo que o diferencie de seu similar e pelo qual se nutre uma radical indiferença). (...) se o primeiro contempla o gosto do artista (não o bom gosto, convém destacar), o segundo tende a anulá-lo. A coexistência entre ambos é possível, como vem comprovando Leirner, graças a um raciocínio que permeará todo o conjunto de seu trabalho e que consiste na realização de um encontro (poderíamos chamá-lo de cópula, o artista chama-o de Xeque-Mate) entre dois objetos e termina gerando um terceiro. Essa fórmula remonta ao célebre aforismo de Lautréamont: 'Belo como o encontro fortuito de um guarda-chuva com uma máquina de costura, numa mesa de dissecação'".

Agnaldo Farias

FARIAS, Agnaldo. NELSON Leirner. In: TRIDIMENSIONALIDADE na arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural, 1997.


"A cena internacional, nos anos 60, estava tomada pelas performances. Mais precisamente, Leirner mostra-se afinado com o tema da comercialização da arte, dos trâmites da produção até a recepção crítica da arte. Qual o 'negócio' subjacente à assinatura do artista, os vários certificados e documentos que legitimam a fabricação de uma autenticidade, eram indagações recorrentes em Yves Klein, Ben Vautier (do Grupo Fluxus) e Claes Oldenburg. Buscavam cercear uma garantia de verdade da arte. Le Magasin (início dos anos 60) e The Store (1961-62), dos dois últimos respectivamente, envolveram procedimentos familiares a Leirner. Cada qual à sua maneira procurou estabelecer uma paridade entre o objeto da arte e um produto de consumo na sociedade capitalista. Pertence a essa linhagem de happenings o convite de Leirner em oferecer gratuitamente suas obras ao público que foi ao evento Exposição-Não-Exposição, no encerramento da Rex Gallery & Sons.
A necessidade de desmistificar o objeto artístico prosseguiu na série Homenagem a Fontana (1967), grandes lonas coloridas em que o zíper ironiza o rasgo já canonizado: qualquer um passa a poder abrir ou fechar o plano pictórico. Para conceituar o valor da arte (território do 'nome próprio'), Leirner pôs à venda os seus 'fontanas'  ('nome comum') conforme a crítica resultante de sua planilha de custos, submetendo, portanto, a obra a uma aula doméstica de economia. Assim, deslocou a discussão da arte como gesto inaugural (o nostálgico mito do original)  para o gesto repetido, serial. Anos depois, seguindo a mesma esteira, fez uso de um jornal de grande circulação para transmitir o modo de fazer múltiplos de seus múltiplos. Tratava-se de extrair o processo aurático da criação e aproximar a arte da simplicidade da 'tecnologia do cotidiano'. Democratizar o produto do artista merece um espetáculo. Nesse sentido, é preciso cotejar o slogan de Leirner com méta-matics de Jean Tinguely, de 1959, ao proclamar 'faça você mesmo e crie sua própria pintura abstrata'. À pergunta de Michel Foucault, 'O que é um autor?', Leirner rebateu com uma reflexão prática, que inclui uma densa experiência como professor, e iniciou uma conturbada relação com o aparato ideológico responsável pela institucionalização da arte (a crítica, o museu, a galeria, o mercado)".

Lisette Lagnado

LAGNADO, Lisette. O combate entre a natureza fetichista da arte e sua historização. In: PEDROSA, Adriano (Org. ). Nelson Leirner e [and]) Iran do Espírito Santo: 48. Biennale di Venezia - Padiglione Brasile. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1999. p. 42-43.


"Para uma análise da questão da autoria da obra e da autoridade, do gesto eleitor do artista, é necessário ressaltar que apesar de apropriar-se de imagens e objetos preexistentes, Leirner não tem interesse no silêncio e na neutralidade dos readymades originais. Exemplo flagrante dessa intenção é fornecido pelas três instalações realizadas entre 1984 e 1986, reunindo centenas de objetos que iam desde anões de jardim, brinquedos baratos, insetos de borracha, santos de gesso até animais de plástico, organizada por categorias como procissão sinuosa espalhada pelo espaço expositivo. Objetos artesanais e industrializados, de colorido intenso e apelo kitsch, dispostos com solenidade, evocavam senso de humor distanciado da frieza do racionalismo de Duchamp. Cada um dos objetos escolhidos o foi por estar investido de carga emocional, quer pela alusão à piedade religiosa (entendida no sentido mais ecumênico possível), quer pela ingênua aspiração ao pseudo-requinte, pelo sentido lúdico ou pelo realismo caricato. Dessa forma, as mesmas peças podem repetir-se em momentos diferentes, mas passam a compor em O Grande Desfile, 1984, os fetiches de uma marcha triunfal; em O Grande Combate, 1985, transformam-se em épico com bombardeios plásticos na vanguarda, e o gesso dos anjos guardiões na retaguarda, que em O Grande Enterro, 1986, viraram integrantes de cortejo compungido. (...)
A dessacralização da arte aparece em seu percurso como uma das formas de viabilizar a existência da própria arte. Alterações e referências satíricas a uma obra considerada marco indiscutível da história da arte sempre são acompanhadas de manipulações com exclusão e adição de elementos, configurando uma situação de xeque-mate. Se a situação limite deixa entrever a aniquilação de seu alvo, de acordo com a teoria de Leirner, a união de dois elementos deve gerar um terceiro que tem até significado próprio quando a operação chega a bom termo".

Maria Isabel Branco Ribeiro

RIBEIRO, Maria Isabel Branco. Nelson Leirner. In: POR que Duchamp? Leituras duchampianas por artistas e críticos brasileiros. São Paulo: Itaú Cultural: Paço das Artes, 1999. p. 60-61.


 
 
Veja nas
Enciclopédias
 
  artes visuais - artistas
  Leirner, Giselda (1928)

 

 
Veja na Web
 
  Panorama do Super 8 Cinema e Vídeo - Nelson Leirner

Percurso Educativo - Arte Efêmera

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Ocupação - Nelson Leirner