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  Ateliê Coletivo        

Histórico
"Não se poderia imaginar a arte em Pernambuco se retirássemos dela os artistas saídos do Ateliê Coletivo, sem falar nos descendentes", afirma o pintor José Cláudio, um dos integrantes do grupo. Criado e dirigido pelo escultor Abelardo da Hora, entre 1952 e 1957, o Ateliê nasce como resultado direto da Sociedade de Arte Moderna do Recife - SAMR, fundada quatro anos antes por iniciativa do próprio Abelardo e do arquiteto, pintor e desenhista Hélio Feijó. A criação da SAMR, em 1948, marca o rompimento com o sistema acadêmico de ensino implantado pela Escola de Belas Artes local. Trata-se de um dos primeiros movimentos de artistas organizados na capital pernambucana, responsável, entre outros, pelos 3º e 4º Salões de Arte Moderna, como continuação dos 1º e 2º Salões dos Independentes da década anterior. No Ateliê Coletivo, o objetivo central é "valorizar a arte e revigorar o caráter brasileiro de nossa criação artística", indica seu diretor. A despeito da diversidade do grupo - Ladjane Bandeira, Gilvan Samico, Ionaldo, Wilton de Souza, Ivan Carneiro, Wellington Virgolino, Reynaldo Fonseca, Mário Lauritz, entre outros -, é possível apontar alguns de seus traços comuns: o trabalho com a figuração, a adesão aos cânones do realismo social, o diálogo entre arte e artesanato (o artista é pensado como um artesão que trabalha coletivamente), a temática regional e a preocupação em levar a arte para o povo.

Desenho com modelo vivo, pintura, escultura e gravura - principalmente linoleogravura - são as modalidades artísticas praticadas pelo grupo. O privilégio da gravura se relaciona à inspiração tomada nos Clubes de Gravura, como o de Porto Alegre, dirigido por Carlos Scliar - em que a técnica é exercitada com base em temáticas sociais e políticas -, mas tem a ver diretamente com a cultura popular nordestina e com as xilogravuras que ilustram os folhetos de cordel, que os artistas visam retomar. Nesse sentido, a arte proposta pelo grupo dialoga com as conquistas técnicas da arte contemporânea mas possui forte enraizamento regional. Descrever a paisagem social e a realidade, ensinam os cancioneiros populares, os artistas mexicanos ligados ao muralismo e também à literatura latino-americana, não significa abrir mão da imaginação e dos elementos fantásticos. Ao contrário, o recurso ao absurdo, ao mundo da fábula e dos mitos é parte constitutiva do universo temático do grupo.

A combinação entre realismo social e fantasia se explicita de modo evidente nas xilogravuras de Samico. Sua obra tem clara inspiração nas xilogravuras nordestinas que ilustram os folhetos de cordel, em que os elementos fantásticos - caboclos, santos, anjos, monstros, diabos e bichos - são acionados para narrar a vida do povo. A poesia popular dos cancioneiros é recriada pelo artista por meio dos espaços brancos contornados pelas linhas negras, das tramas interpostas, dos toques de cor: vermelho, verde, amarelo e azul. Os críticos mencionam freqüentemente a "gravura limpa, precisa, sucinta, clara, direta e despojada" de Samico, que se beneficia dos ensinamentos de Lívio Abramo e de Oswaldo Goeldi, seus professores em 1957 e 1958, respectivamente.

A obra de Abelardo da Hora parte de princípios semelhantes, mas encontra outros rendimentos. A combinação de materiais diferentes - pedra, cimento, areia, barro e gesso - é mobilizada para reconstruir a vida cotidiana do povo: os ambulantes nas cidades, o trabalho na terra, as festas populares. O intenso contato com a obra de Lasar Segall em sua estada paulistana (1943) confere a figuras e desenhos de Abelardo conotação expressionista, como ele próprio gosta de afirmar. No início da carreira, realiza séries de pratos reproduzindo a temática popular: Bangüê (ciclo da cana-de-açúcar), Casa de Farinha (ciclo da mandioca). Executa também jarros desenhados com elementos da flora e da fauna. Ao lado de um eixo mais propriamente social e político de seu trabalho, encontra-se uma veia mais erótica e impregnada de sensualidade, que ele explora nas figuras e corpos femininos. Membro do Partido Comunista Brasileiro - PCB até 1964, Abelardo da Hora teve participação intensa no governo de Miguel Arraes, com o Movimento de Cultura Popular. Aí, trabalha na integração das artes plásticas com o teatro, a música e o artesanato, que já está em pauta quando atua no Ateliê Coletivo. O muralismo mexicano marca de perto a obra de Abelardo da Hora, sobretudo na ambição à monumentalidade que impregna o seu registro da cena social. Isso fica particularmente claro em suas tapeçarias e painéis.

Hélio Feijó, embora na origem do Ateliê Coletivo e compartilhando com o grupo uma série de pressupostos comuns, encaminha sua produção em direção um pouco diversa. Sua experiência como arquiteto, integrante da equipe de Luiz Nunes e Joaquim Cardozo, à frente da renovação urbanística da cidade do Recife na década de 1930, aproxima-o dos debates da arquitetura moderna empreendidos pelo grupo de Lucio Costa, no Rio de Janeiro, ao qual Nunes era ligado. Não por acaso Feijó participa do salão de 1931, na curta gestão de Lucio Costa na direção da Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Se a obra de Hélio Feijó sofre de perto as influências de Candido Portinari, com quem convive no Rio de Janeiro em 1931, aproximando-se dos temas sociais e da dicção realista do Ateliê Coletivo, ele parece atraído desde cedo pela abstração geométrica, como indicam seus desenhos e ilustrações.



Atualizado em 13/05/2009
 
 
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  Cardozo, Joaquim (1897 - 1978)