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  Multiculturalismo  

Definição
Hibridismo, diversidade étnica e racial, novas identidades políticas e culturais: estes são termos diretamente relacionados ao multiculturalismo. Se a diversidade cultural acompanha a história da humanidade, o acento político nas diferenças culturais data da intensificação dos processos de globalização econômica que anunciam, segundo os analistas, uma nova fase do capitalismo, denominada por autores como Ernest Mandel de "capitalismo tardio" e por outros, como Daniel Bell, de "sociedade pós-industrial". A despeito das querelas acerca das origens dessa nova fase, o fato é que as discussões acerca do multiculturalismo acompanham os debates sobre o pós-modernismo e sobre os efeitos da pós-colonização na cena contemporânea, o que se verifica de forma mais evidente a partir dos anos 1970, sobretudo nos Estados Unidos. A globalização do capital e a circulação intensificada de informações, com a ajuda de novas tecnologias, longe de uniformizar o planeta (como propalado por certas interpretações fatalistas), trazem a afirmação de identidades locais e regionais, assim como a formação de sujeitos políticos que reivindicam, com base em garantias igualitárias, o direito à diferença. Mulheres, negros (ou afro-americanos), homossexuais, populações latino-americanas ("hispanos" ou chicanos) e migrantes em geral se fazem presentes como atores políticos com a marcação de diferenças de gênero, culturais e étnicas. A cultura torna-se instrumento de definição de políticas de inclusão social - as "políticas compensatórias" ou as "ações afirmativas" - que tomam os diversos setores da vida social. Cotas para minorias, educação bilingüe, programas de apoio aos grupos marginalizados, ações anti-racistas e antidiscriminatórias são experimentadas em toda parte.

No campo das artes, o multiculturalismo assume formas variadas, ainda que tenha sempre caráter engajado e intervencionista, definido em função da experiência social do artista: sua origem, pertencimento de classe, opção sexual etc. Arte e vida, imbricadas desde as vanguardas históricas - no dadaísmo, por exemplo - tornam-se agora termos inseparáveis: a vida é que dita os contornos da arte, que pode ser negra, gay, feminista, chicana etc. Os artistas falam de um lugar, que é o dos não-wasp [white anglo-saxon protestant/anglo-saxão branco protestante]: as mulheres falam da condição feminina, assim como os afro-descendentes, os hispânicos, os índios etc. Nos Estados Unidos - onde o multiculturalismo é definido e teorizado por intelectuais de origem terceiro-mundista, atuantes nas universidades norte-americanas -, as relações entre produção artística e política se estreitam na década de 1970, basta lembrar a criação, em 1969, da Art Workers Coalition - AWC [Coalizão dos Trabalhadores de Arte], em Nova York, e do simpósio organizado pela revista Artforum, "O artista e a política". Protestos contra a Guerra do Vietnã, defesa dos direitos civis e do direito do artista em relação ao modo de exibição dos seus trabalhos são tópicos de uma pauta mais extensa formulada pela AWC. Uma das exigências dos membros da coalizão - entre eles, a crítica Lucy Lippard e os artistas Takis (1925), Hans Haacke (1935) e Carl Andre (1935) - é a presença de um porto-riquenho no conselho de qualquer museu e galeria que exiba arte porto-riquenha.

Esse cenário sofre reconfigurações significativas sob o impacto do movimento feminista, que redesenha os contornos de parte da produção artística e da crítica de arte. A Women Artists in Revolution (WAR), formado com base na AWC, e o Conselho de Artistas Mulheres de Los Angeles, 1971, a defesa de uma crítica feminista da história da arte, entre outros, introduzem questões nos debates sobre arte, que influenciam novas produções. A instalação O Jantar, 1974 - 1979, de Judy Chicago (1939), por exemplo, tenta recuperar "uma história simbólica das realizações e lutas das mulheres". Tentativas de tematizar as necessidades e desejos das mulheres, aparecem em obras como Deus Dando à Luz ,1968,  de Monica Sjoo, 1942. Críticas às ortodoxias de críticos, curadores, museus e galerias se fazem visíveis em trabalhos como A Morte do Patriarcado/A Lição de Anatomia de A.I.R., 1976, de Mary Beth Edelson, também autora da série Grandes Deusas, 1975. O cruzamento das identidades feminina e negra é explorado em diversas obras. Nas performances de Adrian Piper (1948), por exemplo, a artista adota uma identidade andrógina e culturalmente ambígua, como em Eu Sou a Localização #2, de 1975, inspirada nas discussões levadas pelo feminismo e pelo movimento negro, este também muito presente na arte contemporânea, sobretudo na literatura (Toni Morrison e Cornel West por exemplo) e na música (o hip hop e o rap). No campo das artes visuais, o graffiti surge como meio privilegiado de expressão dos jovens pobres, em geral negros, das periferias de Nova York. Se boa parte dessa produção não tem autoria definida, alguns nomes se notabilizam no gênero, por exemplo, o de Jean-Michel Basquiat (1960 - 1988). Original de uma família haitiana, Basquiat enraíza sua arte na experiência da exclusão social, no universo dos migrantes e no repertório cultural dos afro-americanos. Sua arte enfatiza as ligações do graffiti com o hip hop e com o mundo underground dos pichadores.

O Movimento Chicano, 1965 - 1975, originário da luta contra a discriminação dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, deve ser lembrado oelo seu ativismo artístico, revelando novos artistas e promovendo a criação de centros culturais "mexicano-americanos" e hispânicos. Diversos artistas - norte-americanos de origem hispânica ou migrantes radicados nos Estados Unidos - trazem os debates sobre a diversidade cultural e produção de identidades para as obras que realizam. A chamada arte gay conhece maior notoriedade em função do impacto da Aids no mundo artístico de Nova York e da atuação de grupos como o Act-Up e o Gran Fury, nas décadas de 1980 e 1990.

Os efeitos dos debates sobre o multiculturalismo no Brasil mereceriam uma discussão à parte, dada a sua complexidade. País de raízes mestiças, e que não constitui historicamente minorias que se organizam como comunidades apartadas do conjunto - os migrantes assimilam à sociedade nacional -, o Brasil parece ficar à margem dessas discussões até a década de 1980, data do fortalecimento e visibilidade das chamadas minorias étnicas, raciais e culturais. A pressão dos novos atores sociais reverbera diretamente no texto da Constituição de 1988, considerada um marco em termos da admissão do nosso pluralismo étnico. Os efeitos dessas formas renovadas de engajamento podem ser observados no campo da produção artística, sobretudo da literatura fala-se em "escrita feminina", em "vozes negras", homoerótico etc.). Na música jovem, das periferias urbanas, define-se o espaço de uma cultura negra: o funk, o rap, o hip hop. O campo das artes visuais recebe o impacto dessas problemáticas - a experiência das minorias aparece tematizada em um ou outro artista -, ainda que pareça difícil localizar aí uma produção de cunho multicultural com contornos definidos.



Atualizado em 21/07/2011