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  Grupo CoBrA  

Definição
Apesar do curto período de existência, de 1948 a 1951, o Grupo CoBrA deixa rastros evidentes na história das artes visuais. A defesa da livre expressão e do gesto espontâneo associados à retomada dos imaginários mágico e folclórico transparecem na explosão de cores, no vaivém de linhas que definem contornos e imagens, nos quais o observador se detém numa espécie de jogo lúdico. Bichos e figuras que parecem retirados de um caderno de desenhos infantil - ou seriam totens e/ou imagens religiosas de povos primitivos? - povoam os quadros, que chamam atenção pelo vigor expressivo e pelo universo de sugestões que trazem à tona. A origem do movimento remonta a Paris, quando artistas dinamarqueses, belgas e holandeses se retiram de uma conferência internacional sobre arte de vanguarda e redigem um texto propondo um trabalho artístico partilhado, alimentado por suas distintas experiências nacionais. Assinam o manifesto Christian Dotremont (1922 - 1979), Asger Oluf Jorn (1914 - 1973), Joseph Noiret (1927), o pintor, escultor e artista gráfico Karel Appel (1921), Constant (1920 - 2005) e Corneille Guillaume Beverloo (1922), na qualidade de representantes de grupos de arte experimental de seus países de origem.

A convergência de tradições artísticas heterogêneas e, ao mesmo tempo, o impacto da guerra e do nazismo por toda a Europa dão o tom geral do grupo, que ambiciona propor um novo estilo pictórico, além de destinar aos artistas um papel ativo na reconstrução européia. As convicções políticas do grupo são evidentes desde o início, como indica Dotremont: "Aquele que tem espírito experimentalista deve necessariamente ser um comunista". São explícitas as ligações de vários artistas do CoBrA com o Partido Comunista (PC), assim como a ruptura empreendida posteriormente com o PC em virtude do realismo socialista. A aproximação com a Internacional Situacionista, em 1949, se dá sobretudo em função das teses sobre "o desejo, o desconhecido, a liberdade e a revolução" defendidas por Constant na quarta edição da revista Cobra, que se tornariam centrais para o movimento situacionista.

Os dinamarqueses trazem para o grupo a experiência de um país que teve papel ativo na resistência ao nazismo ao abrigar artistas e intelectuais refugiados. O expressionismo peculiar de Edvard Munch (1863 - 1944), além do imaginário fantástico do folclore nórdico, interessa de perto Jorn, Richard Mortesen e Egill Jacobsen (1910), que realizam pinturas de cores vibrantes e pinceladas expressivas. Jorn é responsável, com Enrico Baj (1924), pelo movimento internacional por uma "Bauhaus imaginativa", o que revela a disposição anticonstrutivista de sua arte. Jacobsen, por seu turno, torna-se conhecido por ter explorado a máscara como elemento iconográfico central em suas composições. Na Holanda, a experiência mais próxima da guerra rebate decisivamente nos trabalhos que  a tomam como motivo forte. Os artistas militam contra a tradição construtiva do De Stijl  [O Estilo] de Piet Mondrian (1872 - 1944) e Theo van Doesburg (1883 - 1931) que representa, nesse contexto, uma recusa às matrizes expressionista e surrealista que o grupo experimental de Appel, Constant e Corneille almeja retomar.

Appel, talvez o nome mais conhecido do grupo, torna-se célebre pelas imagens abstratas que sugerem máscaras humanas e animais fantásticos, paradoxalmente aterrorizadoras e dotadas de ingenuidade quase infantil. Da Bélgica sai uma contribuição mais claramente literária e crítica, por meio Dotremont e sua proximidade com o debate francês. É dele a iniciativa de criação do grupo Surréalistes-Révolutionnaires, espécie de precursor do CoBrA. O belga Pierre Alechinsky (1927) se liga ao núcleo primeiro um ano depois, tornando-se um de seus maiores expoentes. A tradição francesa ecoa na arte experimental do Grupo CoBrA, em distintas ramificações, seja a gestualidade da pintura de Pierre Jean Louis Soulages (1919), Georges Mathieu (1921) e Hans Hartung (1904 - 1989), seja o tachismo de Jean Dubuffet (1901 - 1985)  seja e os empastes de Jean Fautrier (1898 - 1964). Do surrealismo vêm inspirações fundamentais, pricipalmente a escrita automática e a defesa do inconsciente como fonte de criação artística, referências explícitas da espontaneidade e do gesto não intencional defendidas pelos artistas ligados ao movimento. O expressionismo alemão, sobretudo Wols (1913 - 1951), além da action paiting de Jackson Pollock (1912 - 1956) aparece como fonte decisiva para o trabalho dos artistas relacionado ao CoBrA.

A profícua produção do grupo combina artes visuais - pintura, escultura, desenho e cerâmica - com música, cinema e literatura. Ao lado dos encontros internacionais que promovem, cabe destacar a publicação de livros - como La Bibliothèque de Cobra, e a edição de revistas como a Revue Cobra, a Petit Cobra e a Tout Petit Cobra. No Museu Cobra, criado em 1995, em Amstelsveen, Holanda, está depositado grande parte do acervo do grupo. O Brasil vê a produção do grupo na 18ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1985, quando são expostos trabalhos de 32 artistas ligados ao movimento, entre eles, Appel, Jorn e Dotremont. Um ano depois, uma exposição de Appel é apresentado no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). Em 1991/1992, uma mostra organizada por Jens Olesen percorre as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Brasília. As obras de Rubens Gerchman (1942 - 2008) e alguns trabalhos de Antonio Dias (1944) e Carlos Vergara (1941), mesmo que muito distintos entre si, são vistos como exemplos de leituras realizadas do movimento no Brasil. Algumas fontes apontam ainda afinidades entre as obras de José Roberto Aguilar (1941) e Roberto Magalhães (1940) - seu lirismo e humor infantil - e o Grupo CoBrA.



Atualizado em 27/10/2010