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  Salão Preto e Branco        

Histórico

"O Salão Preto e Branco significa nossa luta pela sobrevivência. No tocante a seus resultados, precisamos acreditar em alguma coisa, ainda que seja no absurdo. A vitória é essencial para a classe. Temos a maior bienal do mundo, o maior estádio do mundo. A realidade, como ninguém diz, é esta, e apenas esta: temos a maior miséria do mundo. Como pode ser grande um povo cujos artistas não têm sequer material para trabalhar?". Com este depoimento dado ao Correio da Manhã, em 16 de maio de 1954, o pintor Iberê Camargo (1914 - 1994) define o espírito que comandou a organização do Salão Preto e Branco, inaugurado no edifício do Ministério da Educação e Cultura, na cidade do Rio de Janeiro, no dia anterior. O nome da mostra deve-se ao fato de terem sido apresentadas obras exclusivamente em preto e branco, como forma de protesto contra a má qualidade das tintas nacionais - comprovada, por meio de testes, pela Comissão Nacional de Belas-Artes, presidida por Rodrigo Mello Franco de Andrade (1898 - 1969) e integrada por Iberê Camargo, Santa Rosa (1909 - 1956), Oswaldo Goeldi (1895 - 1961), entre outros - e pelo alto preço das tintas importadas.

Embora batizado de forma específica, em virtude da "greve das cores", o Salão Preto e Branco corresponde na realidade à 3ª edição do Salão Nacional de Arte Moderna - SNAM, instituído em 1951 após uma divisão no Salão Nacional de Belas Artes - SNBA, que passa a contar com uma mostra específica para a arte moderna. Diante das altas taxas para importação de materiais estrangeiros e da baixa oferta de produtos nacionais similares, o 3º Salão Nacional de Arte Moderna decide expor obras "em luto simbólico", nos termos de Rossini Perez (1932), funcionando como um marco na luta dos artistas brasileiros pelo acesso a materiais artísticos de qualidade. O anúncio da exposição se faz por meio de um manifesto com 600 assinaturas de artistas de todo o país, endereçado ao ministro da Educação, e datado de abril de 1954. Diz o texto: "Nós, artistas plásticos abaixo assinados, apresentaremos no próximo Salão Nacional de Arte Moderna, a se realizar de 15 de maio a 30 de junho deste ano, os nossos trabalhos executados exclusivamente em preto e branco. Essa atitude será um veemente protesto contra a determinação do governo de manter proibitiva a importação de tintas estrangeiras, materiais de gravura e de escultura, papéis e demais acessórios essenciais ao trabalho artístico; proibição esta que consideramos um grave atentado contra a vida profissional do artista e contra os altos interesses do patrimônio artístico nacional".

O Salão Preto e Branco abriga várias tendências da arte contemporânea nacional, além de distintas modalidades de expressão artística. A arquitetura está representada por Alcides da Rocha Miranda (1909 - 2001) e Flávio Leo Azeredo da Silveira. A escultura se faz presente através de Sérgio de Camargo (1930 - 1990), José Pedrosa (1915 - 2002), Margaret Spence (1914), Sonia Ebling (1928) e outros. No desenho e nas artes gráficas, obras de Zaluar (1924 - 1987), Aldemir Martins (1922 - 2006), Piza (1928), Candido Portinari (1903 - 1962), Carlos Scliar (1920 - 2001), Darel (1924), Lucia de Alencastro, Poty (1924 - 1998), Renina Katz (1926) entre outros. Pinturas de Bonadei (1906 - 1974), Aluísio Carvão (1920 - 2001), Antonio Bandeira (1922 - 1967), Décio Vieira (1922 - 1988), Djanira (1914 - 1979), Iberê Camargo, Francisco Rebolo (1902 - 1980), Maria Leontina (1917 - 1984), Noêmia Guerra (1920), Quirino Campofiorito (1902 - 1993), Vittorio Gobbis (1894 - 1968) e de muitos outros completam a mostra. O júri - formado por Geza Heller (1902 - 1992), Milton Dacosta (1915 - 1988) e Djanira - concede os prêmios de viagem ao exterior a Francisco Rebolo e a Sansão Castello Branco (1920 - 1956), respectivamente nas áreas de pintura e artes decorativas. Os prêmios de viagem ao país cabem ao pintor Aldo Bonadei e ao escultor José Pedrosa.

Os historiadores da arte brasileira indicam que o Salão Preto e Branco marca um ponto de inflexão na história do Salão Nacional de Arte Moderna. E isso não apenas pelo fato de a exposição funcionar como um canal de mobilização dos artistas, mas também porque ela representa uma rara oportunidade de dar a conhecer o amplo leque de tendências, estilos e pesquisas experimentados pelos artistas nacionais no período. Se os anos 1950 sinalizam uma inclinação crescente das artes plásticas brasileiras em direção à abstração, em função de um contato cada vez mais estreito com as vanguardas internacionais - por exemplo, as exposições e conferências de artistas estrangeiros, como as de Alexander Calder (1898 - 1976) no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, 1948, e no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, 1949; a mostra Do Figurativismo ao Abstracionismo, Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP, 1949; as Bienais Internacionais de São Paulo -, a produção nacional abre-se em múltiplas direções, da figuração à abstração, da arte social à conceitual, da arte naïf à abstração lírica. Assim, no Salão convivem, lado a lado, a Forma Abstrata, 1954, de Sérgio Camargo, e o Grupo, 1954, de José Pedrosa; o Estudo para Pintura, 1954, de Décio Vieira, e o Retrato, 1954, de Djanira; a Composição, 1953, de Bonadei, e Guindaste, 1954, cena de trabalho projetada por Sigaud (1899 - 1979).

O Salão Preto e Branco tem ampla repercussão na mídia e recebe apoio de diferentes órgãos. A revista Forma, por exemplo, lança seu primeiro número com a capa em preto-e-branco, em solidariedade ao evento. O Programa Clube da Crítica, da Rádio Difusão do Ministério da Educação, suspende a sua célebre cortina musical no dia da inauguração da mostra. Além da grande visibilidade, o sucesso do Salão pode ser atestado pela expressiva quantidade de obras apresentadas (323 contra 203 do ano anterior) e pela vitória parcial dos artistas diante da revisão da portaria governamental. Em junho, um pouco antes do término da mostra, o Ministério da Fazenda altera o regulamento para a importação de material de arte, que passa a ser considerada "importação necessária, mas não prioritária". Mesmo assim os artistas levam adiante a crítica à especulação e à instabilidade do preço das tintas, e organizam, em 1955, o Salão Miniatura. A cargo de artistas atuantes no Rio de Janeiro - Iberê Camargo, Zélia Salgado (1909), Vera Mindlin (1920 - 1985) -, este segundo Salão tem alcance mais restrito, embora receba também boa acolhida do público e da crítica.



Atualizado em 23/10/2006