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Como Vai Você, Geração 80?
Histórico "Como vai você, Geração 80?". A pergunta, em tom casual, dá título a uma grande exposição realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, aberta em 14 de julho de 1984. Os curadores da mostra, Marcus de Lontra Costa (1954), Paulo Roberto Leal (1946 - 1991) e Sandra Magger, afirmam o caráter de sondagem do empreendimento, que visa trazer à tona a produção variada que tem lugar na década de 1980. Não se trata de lançar manifestos, determinar modelos e/ou posturas unívocas, mas de aferir algumas tendências artísticas que se manifestam no momento. "Está tudo aí", afirmam Lontra e Leal, "todas as cores, todas as formas, quadrados, transparências, matéria, massa pintada, massa humana, suor, aviãozinho, geração serrote, radicais e liberais, transvanguarda, punks, panquecas, pós-modernos, neo-expressionistas (...)." Espécie de balanço realizado no calor da hora, a exposição reúne 123 artistas de idades e formações distintas. Alex Vallauri (1949 - 1987), Ana Maria Tavares (1958), Beatriz Milhazes (1960), Cristina Canale (1961), Daniel Senise (1955), Ester Grinspum (1955), Frida Baranek (1961), Gonçalo Ivo (1958), Jorge Guinle (1947 - 1987), Karin Lambrecht (1957), Leda Catunda (1961), Leonilson (1957 - 1993), Luiz Zerbini (1959), Luiz Pizarro (1958), Mônica Nador (1955), Sérgio Romagnolo (1957), Nelson Felix (1954) e Elizabeth Jobim (1957) são alguns dos participantes. Ainda que o título da exposição faça menção a uma "geração 80" genérica, o fato é que dela participam majoritariamente artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Boa parte dos cariocas tem ligação com a EAV/Parque Lage, na época coordenada por Luiz Áquila (1943). Os paulistas, em sua maioria, formam um grupo oriundo dos cursos de artes da Fundação Armando Álvares Penteado - Faap. Tal evidência leva a que alguns perguntem se essa seria mesmo uma mostra representativa da nova geração, já que se trata de uma exposição "carioca com apêndice paulista". Reparos à parte, a exposição torna-se uma referência importante para a compreensão de algumas direções tomadas pelas artes visuais na década de 1980. Nos textos de apresentação para o catálogo (editado em número especial da revista Módulo, de julho de 1984), os curadores e críticos são unânimes em apontar a marca diferencial da nova geração, a despeito de sua diversidade evidente. Diz Sandra Magger: "A nova arte reflete os novos caminhos da pintura da geração 80, distante da racionalidade da arte dos anos 70 - conceitual". Em outros termos, Frederico Morais indica direção semelhante: "Diferentemente das vanguardas dos anos 60 (artísticas ou políticas), que sonhavam em colocar a imaginação no poder, que acreditavam ser a arte capaz de transformar o mundo, que se iludiam com as utopias sociais, os jovens artistas de hoje descrêem da política e do futuro (...). E, na medida em que não estão preocupados com o futuro, investem no presente, no prazer, nos materiais precários, realizam obras que não querem a eternidade dos museus nem a glória póstuma". Sem desconsiderar as diferenças entre as obras e artistas - talvez o aspecto mais interessante da coletiva -, é possível localizar alguns traços distintivos na produção dos jovens artistas em atividade na década de 1980. Parte considerável dos integrantes da mostra do Parque Lage parece compartilhar a produção dos ateliês coletivos que se sucedem na época - Casa 7 e o Ateliê da Lapa, por exemplo -, o compromisso forte com a retomada da pintura. As grandes dimensões dos trabalhos, quase sempre livres dos chassis, e a ênfase no gesto pictórico são marcas dessa produção, o que leva alguns estudiosos a falar em um novo informalismo experimentado por toda a geração. O uso de cores tradicionalmente incompatíveis, a pesquisa de novos materiais e o acabamento bruto parecem ser outros elementos a aproximar parte significativa da produção da década. Alguns artistas e grupos dialogam mais diretamente tanto com o neo-expressionismo - uma tendência contemporânea - quanto com tendências modernas, como o expressionismo abstrato, como aqueles reunidos na Casa 7, explorando as trilhas abertas pela arte abstrata do período posterior à Segunda Guerra, em suas vertentes européia e norte-americana. Outros, como diversos artistas presentes na Como vai você, Geração 80?, se beneficiam mais diretamente da produção com as novas figurações, com o pop e a transvanguarda. A localização de algumas inspirações comuns não é suficiente para empreender uma classificação tranqüila das obras reunidas na mostra de 1984. Com base em matrizes assemelhadas, os trabalhos chegam posteriormente a resultados muito diversos, que se relacionam também com a formação diferenciada dos artistas. Daniel Senise e Luiz Pizarro, alunos de John Nicholson (1951) e Luiz Áquila, estão diretamente envolvidos com o registro de paisagens, objetos e formas volumosas que ocupam a quase totalidade das telas. As obras de Beatriz Milhazes, por sua vez, chamam a atenção pelo apreço à ornamentação e à art deco. Elementos decorativos também se fazem presentes nas composições de Mônica Nador. Só que aí se destaca um compromisso com a transcendência e com a abstração meditativa, indica a crítica de arte Aracy Amaral, pela incursão na pintura de mandalas e nas imagens repletas de sugestões religiosas. Leonilson explora a figuração desde os desenhos e pinturas da primeira fase de sua obra. O humor, a crítica social e o interesse pelo poder narrativo das imagens são marcas fortes de seu trabalho. A recuperação da idéia de artesanato, da costura e da tecelagem - que as obras de Leonilson empreendem - se faz presente, de outro modo, nas telas de Leda Catunda. E chama a atenção a multiplicidade de materiais empregados - toalhas, couros, plásticos, peças de vestuário, pelúcia etc. -, que se transfiguram quando colocados lado a lado. Sérgio Romagnolo prefere os materiais industrializados para compor obras escultóricas que remetem simultaneamente à tradição barroca e ao neopop. Os objetos e peças de Ana Maria Tavares, que primam pela qualidade da execução, transitam entre a escultura e o design, entre os modelos industriais e aqueles fornecidos pela natureza. Longe das construções precárias, dos "bolos" e "emaranhados" de Frida Baranek. As repercussões da coletiva de julho de 1984 podem ser aferidas pela consagração e reconhecimento alcançados por boa parte dos artistas participantes. De grande impacto no momento, a mostra entra para a história das artes plásticas brasileiras contemporâneas como marco significativo da nova pintura. É o que atesta sua reedição modificada, realizada de julho a setembro de 2004, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Rio de Janeiro. Atualizado em 03/01/2006 |