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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Cia dos Atores

Data/Local

1990 - Rio de Janeiro RJ

Histórico

A companhia alia a linguagem autoral do diretor Enrique Diaz a uma equipe permanente de atores à qual se reúne eventualmente um dramaturgo, produzindo espetáculos em que a qualidade sustenta a experimentação. Grupo carioca que está no rol dos mais criativos a partir da década de 1990. 

Formada atualmente pelo diretor Enrique Diaz e pelos atores César Augusto, Marcelo Olinto (figurinista da companhia), Marcelo Valle, Gustavo Gasparini, Bel Garcia, Suzana Ribeiro e Drica Moraes, a Cia dos Atores tem, a cada novo projeto, participações de profissionais convidados. O embrião da companhia é o espetáculo Rua Cordelier, Tempo e Morte de Jean Paul Marat, 1988, uma colagem de textos com A Morte de Danton, de Georg Büchner; Mauser, de Heiner Müller; e Marat-Sade, de Peter Weiss. Dirigido por Enrique Diaz, é encenado em um espaço não comercial, voltado para iniciativas experimentais. Em 1990, os atores do grupo Cia dos Atores se reúnem, sob a liderança do diretor, para uma pesquisa cênica em torno de obras de Jorge Luis Borges e Malarmé, que resulta em A Bao A Qu (Um Lance de Dados). O espetáculo, desenvolvido a partir de um roteiro e construído dramaturgicamente durante os ensaios, faz temporada no Rio de Janeiro e em São Paulo, com sucesso de crítica e êxito junto a um público de iniciados. A Morta, de Oswald de Andrade, é encenada na Fundição Progresso que, em 1992, ainda está em obras. Na temporada paulista, os críticos Nelson de Sá, Alberto Guzik, Marcos Bragato e Aimar Labaki recomendam enfaticamente a montagem. O crítico da Folha de S.Paulo escreve que o espetáculo "não poderia ser mais apaixonado pelo teatro e pela arte" e que "a Cia dos Atores é toda ela impressionante: uma trupe que não dá fôlego".1

Em 1994, o conjunto, além de dar início a trabalhos voltados para o público infantil, encena Só Eles o Sabem, de Jean Tardieu, em que explora a linguagem do melodrama com uma construção cênica que prima pela precisão e pelo ritmo. Em 1995, estréia Melodrama, em que a companhia faz sua primeira experiência de criação com o acompanhamento de um dramaturgo. Filipe Miguez escreve o texto no processo dos ensaios, estabelecendo um diálogo criativo entre a cena e a palavra. A Associação Paulista de Críticos Teatrais - APCT, lhe confere o prêmio de melhor espetáculo do ano. O crítico da Folha de S.Paulo escreve: "... cria-se um pretexto, assim, para um grande virtuosismo dos atores, e para a maior delícia do público. É difícil encontrar uma companhia teatral tão homogênea, tão bem coordenada quanto esta Cia dos Atores".2 Em 1997, a companhia apresenta Tristão e Isolda, na versão de Filipe Miguez, parcialmente construída dentro do processo de ensaios, e O Enfermeiro, de Edgar Allan Poe, com adaptação e direção de César Augusto. Em 1998, num aprimoramento do universo obscuro do suspense e do terror, encena Cobaias de Satã, novamente de Filipe Miguez, montagem não muito bem sucedida pela imprecisão dramatúrgica.

Em seguida, a companhia apresenta sua versão para O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Tornando alguns trechos musicais, o espetáculo traz 46 minutos de trilha, incluindo de músicas populares antigas como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, a sucessos do momento e músicas compostas. O diretor musical Marcelo Neves mistura música gravada com música ao vivo. Os atores tocam instrumentos de percussão e são acompanhados por um acordeão e um cavaquinho. O figurinista Marcelo Olinto cria três trajes completos para cada ator a partir da reciclagem do acervo de 600 figurinos da companhia, dando ênfase ao gosto cafona dos personagens. Sua pesquisa se baseia em estilistas franceses dos anos 20 e 30, e recria a moda da elite misturando-a com materiais brasileiros e contemporâneos. Para o crítico Macksen Luiz, contudo, "a montagem não alcança a rebeldia desordenada da peça, mantendo-se no plano morno do deboche e do retrato da vulgarização do espetáculo da vida nacional".3 Protagonizado por Marcelo Olinto e Marcelo Valle, o espetáculo tem "linha interpretativa expansiva, na qual há uma tipificação das personagens quase como caricaturas de um humor popularesco".4

Em 2002, a companhia realiza seu primeiro espetáculo com um diretor convidado. Gilberto Gawronski encena Meu Destino É Pecar, uma novela escrita em crônicas assinadas por Suzana Flag, pseudônimo de Nelson Rodrigues em O Jornal. O crítico Macksen Luiz escreve: "A distribuição dos papéis por vários atores, que, de início, é um código que causa estranheza na platéia (...), contribui para a agitação do espetáculo e ajuda a aumentar o seu ritmo delirante. Os atores trocam de papel através de sutil movimento de corpo, encontrando uma nova dramática para situações que, de outra maneira, pareceriam somente risíveis. (...) a movimentação excessiva reforça o caráter derramado do entrecho (...) em uma dança que se apresenta às vezes debochada, outras vezes melodramática e umas poucas vezes lírica, encontrando uma real dramaturgia cênica para um folhetim circunstancial".5

Entre colaboradores da companhia constam, ainda, as atrizes Malu Galli e Thereza Piffer; o cenógrafo Gringo Cardia; o iluminador Maneco Quinderé; os músicos Carlos Cardoso, Mário Vaz de Mello e Marcelo Neves e a preparadora corporal Lucia Aratanha.

No programa do espetáculo Cobaias de Satã, escreve o crítico Alberto Guzik: "Mas sua contribuição [da Cia dos Atores] dá-se também no terreno da coerente e consistente investigação das linguagens teatrais. Os espetáculos mencionados acima e os demais produzidos pelo grupo recuperam idéias de escolas cênicas hoje desaparecidas ou em desuso. Para lembrar alguns exemplos, os procedimentos de teatro futurista, surrealista e modernista estavam presentes em A Bao A Qu e A Morta. A maior fábrica teatral de clichês jamais inventada era o tema de Melodrama. Essa adesão à história, no entanto, não se faz de maneira museológica. Não há intenção, no trabalho de Diaz e sua equipe de refazer cenicamente aquelas escolas. Trata-se, de isso sim, elaborar novas visões daqueles códigos, perceber de que serviam, como eram, e apresentar traduções contemporâneas de seus processos. É uma aproximação macunaímica do legado teatral, a que a companhia confere um tempo irreverente, vibrante. (...) A Cia dos Atores é uma ponte dinâmica entre o passado e o futuro. Longa vida a ela".6

Notas

1. SÁ, Nelson de. Enrique Diaz liberta Oswald do museu. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 out. 1992. Ilustrada, p. 4.

2. COELHO, Marcelo. Citado em CIA dos Atores. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc. Dossiê Grupos Artes Cênicas.

3. LUIZ, Macksen. Versão morna da iconoclastia. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 12 fev. 2000.

4. Ibid.

5. LUIZ, Macksen. Uma feliz adaptação de Nelson. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 jan. 2002.

6. GUZIK, Alberto. A Cia dos Atores. In: Programa do espetáculo Cobaias de Satã. Rio de Janeiro, 7 de junho de 1998.



Atualizado em 31/07/2009
 
 
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  Andrade, Oswald de (1890 - 1954)