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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
  Centro Popular de Cultura da UNE - CPC
   
 

Data/Local

1961/1964 - Rio de Janeiro RJ

Histórico

Artistas, estudantes e intelectuais, unidos pelo objetivo de transformar o Brasil a partir da ação cultural capaz de conscientizar as classes trabalhadoras, fundam o CPC. Inspirado no pernambucano Movimento de Cultura Popular - MCP, de Miguel Arraes, o CPC, multiplicado em inúmeros grupos espalhados pelo país, leva ao povo diversas manifestações artísticas cujo o objetivo é usar formas da cultura popular para promover a revolução social.

Insatisfeito com a atuação restrita do Teatro de Arena em um tempo de grande efervescência político-cultural no país, Oduvaldo Vianna Filho propõe a criação de um elenco que vá em busca de um público popular. Didatiza a teoria marxista da mais-valia em um texto teatral e, com o Teatro Jovem, monta A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar. O êxito da iniciativa e ao mesmo tempo a necessidade de uma organização maior e mais abrangente, aproximam o grupo da União Nacional dos Estudantes - UNE. Surge o primeiro Centro Popular de Cultura - CPC.

Em 1961 o primeiro núcleo se instala no prédio da UNE, na Praia do Flamengo, 132, no Rio de Janeiro, com uma diretoria composta por Oduvaldo Vianna Filho, o cineasta Leon Hirszman e o sociólogo Carlos Estevam Martins. O objetivo do CPC é a propaganda política: definir estratégias para fazer da atividade cultural um instrumento de conscientização do operário e do homem do campo. Os jovens intelectuais que se organizam em torno de um novo papel da arte e do artista pretendem interferir no processo político do país.

O CPC nasce estimulado pelo contexto de um Brasil progressista em que o crescimento do sindicalismo, do movimento dos trabalhadores rurais, da discussão da Reforma Agrária, e da educação conscientizadora de Paulo Freire leva a crer que uma mudança profunda está em curso. O CPC impulsiona essa transformação atuando na construção de uma cultura definida como "nacional, popular e democrática". Nesse contexto, toda arte que foge ao compromisso de atuar junto ao povo em prol da revolução social seria desprovida de conteúdo. Os CPCs, que aos poucos se espalham por todo o país, defendem a opção pela "arte popular revolucionária", que deve abandonar os edifícios teatrais e os circuitos de exibição "burgueses", para se voltar aos excluídos.

Os espetáculos produzidos pelos CPCs são apresentados em portas de fábricas, favelas, sindicatos, escolas, associações de bairro etc. As peças são didáticas na medida em que pretendem devolver ao povo "a consciência de si mesmo". Muitas dessas peças são assinadas pela equipe com um todo, evidenciando a valorização do trabalho coletivo. No primeiro ano de existência, além de criar e produzir peças de teatro - Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, e A Vez da Recusa, de Carlos Estevam - , o filme Cinco Vezes Favela, de Leon Hirszman, e as publicações Cadernos do Povo e Violão de Rua, os CPCs promovem cursos e excursões para aproximar as bases - estudantes, operários e camponeses. Nesse primeiro ano, a circulação dos espetáculos é ainda restrita, limitando-se a um pequeno circuito universitário e sindical. Por meio de um convênio com o MEC, a organização reúne em pouco tempo seus meios de produção: uma editora de livros, uma gravadora de discos, uma agência de distribuição, ateliês e oficinas próprias de artes gráficas, artes plásticas, fotografia, além de um caminhão adaptado para oferecer um palco e equipado com dispositivos cênicos que proporciona autonomia para a realização de shows e espetáculos teatrais.

Oduvaldo Vianna Filho é um dos principais idealizadores dessas atividades e o mais importante dramaturgo que atua junto ao CPC. Ele sai do Teatro de Arena convencido de que nesse teatro seu trabalho é limitado - fala para uma classe social restrita e para um número reduzido de espectadores - , ao passo que no CPC o artista entra em contato direto com as massas. Além de A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, Vianinha escreve para o CPC: Brasil, Versão Brasileira, Auto dos 99% e Filho da Besta Torta do Pajeú.

Entre março e maio de 1962 o CPC inaugura a primeira UNE volante apresentando Brasil, Versão Brasileira, de Vianinha, e Miséria ao Alcance de Todos, coletânea de textos de Augusto Boal, Chico de Assis, Carlos Lyra, Arnaldo Jabor (1940) e Bertolt Brecht. Os espetáculos fazem 45 apresentações para cerca de 16 mil espectadores em quase todas as capitais brasileiras (exceto São Paulo e Cuiabá). A peça Auto dos 99%, de Vianinha, com a colaboração de Armando Costa, Antônio Carlos Fontoura, Cecil Thiré e Marco Aurélio Garcia, é apresentada em universidades nas capitais percorridas pela UNE volante e, de maio a julho, faz apresentações em todas as faculdades do Rio de Janeiro e em concentrações populares em praças públicas. Em julho apresentam-se o Auto do Cassetete, em praças da cidade, o Auto do Relatório, no Congresso da UNE, e o Auto do Tutu Está no Fim, em ato público do Sindicato dos Metalúrgicos, todas as peças assinadas pela equipe de redação do CPC.

Nos meses que antecedem as eleições de 1962, criam-se esquetes e números musicais para serem apresentados em todos os lugares de concentração popular. Em dezembro estréia o Auto do Não, da equipe de redação, com a exibição de cantores da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, inaugurando a carreta do CPC. Durante o ano de 1963, o CPC apresenta Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, Filho da Besta Torta do Pajeú, de Vianinha, e a remontagem do Auto dos 99% pelo Grupo de Espetáculos Populares do CPC.

Além de criar, produzir e distribuir seus próprios espetáculos, o CPC incentiva a criação de grupos de teatro popular nas faculdades, formados por estudantes que escrevem, dirigem e interpretam os espetáculos, apresentando-os nas universidades e por vezes entrando no circuito do CPC. A iniciativa fracassa quando aplicada aos grupos de operários, segundo relatório da organização, porque "limitados pela condição econômica que os sufoca, não têm atração por uma atividade que lhes parece lúdica".1 Segundo o relatório, seria preciso associar o teatro a necessidades mais imediatas do operário, como a alfabetização ou a formação técnica. O Golpe Militar de 1964 interrompe os projetos da organização.

Os Centros de Cultura Popular pertencem a uma época em que intelectuais e artistas oriundos da classe média uniram-se ao operariado e ao campesinato no projeto de luta por uma distribuição de renda e riquezas mais igualitária no país. Muito criticado pelas limitações estéticas de suas obras e produtos e principalmente pela pretensão de fazer com que uma classe dê lições a outra sobre a natureza de problemas que só esta última vive, os CPCs foram, no campo teórico, um abrangente e ambicioso projeto de ação política e popularização cultural.

Notas

1. RELATÓRIO do Centro Popular de Cultura. In: BARCELOS, Jalusa. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,  1994. p. 449.



Atualizado em 26/06/2008