lista alfabética
busca

 
       
 
 
  histórico
  cronologia
  fontes de pesquisa

    espetáculos

    sugestões

 

 
Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Teatro Jovem
Data/Local

1960/1966 - Rio de Janeiro RJ

Histórico

O grupo estréia, em 1960, com A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho. Encenado no Teatro de Arena da Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro, o espetáculo propicia um intercâmbio entre artistas e estudantes que dará origem ao Centro Popular de Cultura da UNE - CPC.

No programa do espetáculo de estréia, Kleber Santos, estudante de arquitetura e diretor artístico do grupo, escreve que, para que o país passe por uma transformação social, é preciso haver um entendimento entre estudantes e operários através do teatro, o qual necessitaria de uma nova dramaturgia, capaz de refletir a realidade brasileira. "E para o Teatro Jovem significará a primeira prática de uma de nossas diretrizes teóricas: o teatro popular".1

Com exceção do primeiro e do último espetáculo do grupo, todos os trabalhos são dirigidos por Kleber Santos. Sediado em uma casa no Mourisco, na Praia de Botafogo, o Teatro Jovem funciona com poucos recursos. Entre A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar e as outras peças que o grupo encena há muito pouco em comum. Espetáculo Ionesco, de 1960, reunindo três peças curtas do dramaturgo romeno ligado ao teatro do absurdo e, no ano seguinte, Aconteceu em Irkutsk, do russo Aleksei Arbuzov, apagam qualquer vestígio de uma proposta didática ou ideológica.

Nos espetáculos seguintes, o grupo opta pela dramaturgia nacional contemporânea: Chapéu de Sebo, de Francisco Pereira da Silva, 1962; Aonde Vais, Isabel?, de Maria Inês Barros de Almeida, 1963, não merecem maior atenção da crítica. Em Todo Mundo Ri, unindo uma comédia de Flávio Migliaccio e outra de Francisco Pereira da Silva, Kleber Santos consegue êxito de público. Com A Moratória, de Jorge Andrade, 1964, o Teatro Jovem lança Isabel Ribeiro e conquista respeito junto ao público e à crítica. O espetáculo permanece em cartaz por seis meses, fazendo mais de 200 apresentações.

Em 1965, o Teatro Jovem estréia um ambicioso texto de Francisco Pereira da Silva sobre a saga do Padre Cícero, no Ceará, e a luta dos camponeses da região de Juazeiro e Crato pela terra, que culmina com o massacre do Caldeirão, na serra do Araripe. Chão dos Penitentes é a primeira peça brasileira encenada que se propõe a interpretar cenicamente um fenômeno histórico-social através de meios formais inspirados no teatro épico moderno. O autor opta pelo despojamento e pela rígida economia de meios para solicitar do espectador sua participação intelectual e não emocional. Segundo o crítico Yan Michalski, a maior qualidade do texto é sua "linguagem densa, simples, enérgica e esclarecedora, de uma força dramática raramente encontrada na nossa literatura".2 Por outro lado, a excessiva fragmentação da peça, em que predominam cenas curtas e de ação dispersa, dificulta o encadeamento narrativo, impede que o texto se concretize em uma unidade temática e que, portanto, a pretendida função crítica seja alcançada. A direção de Kleber Santos escolhe apenas algumas cenas para construir plasticamente, e se, por um lado, consegue unidade estilística por meio da neutralidade e da secura, por outro, unifica as interpretações na composição caricata. Segundo o crítico Yan Michalski, esta linha "transforma o Padre num pobre coitado, por vezes quase um débil mental, sem o menor magnetismo pessoal, sem a menor inspiração mística".3 A música ao vivo, executada e cantada pelos atores, ambienta o espetáculo no Nordeste popular e lança mão da projeção de slides com documentos de época para dar a dimensão de realidade histórica.

O maior sucesso do grupo acontece ainda em 1965, com Rosa de Ouro, um espetáculo em que, curiosamente, Kleber Santos abandona o texto teatral para realizar um show escrito por Hermínio Bello de Carvalho.

Em 1966, o diretor Kleber Santos anuncia que a diretoria do Teatro Jovem passa a contar com três novos integrantes: Nelson Xavier, Sérgio Sanz e Cecil Thiré, que apresentam diferentes projetos de espetáculos para o ano. Mas um único espetáculo é realizado e marca o encerramento das atividades do Teatro Jovem. América Injusta, de M. B. Duberman, com direção de Nelson Xavier e Sérgio Sanz, conta a história do preconceito racial nos Estados Unidos. Numa linha de encenação semelhante à de Chão dos Penitentes, os diretores deixam falar, sem teatralidade, os documentos - mas o texto, enraizado em referências econômicas e políticas do país de origem, não encontra correspondente na realidade brasileira. Também nesse espetáculo a música é um elemento forte, com spirituals e freedom songs executadas pelos atores. O elenco volta a ser criticado: "No elenco do Teatro Jovem apenas Milton Gonçalves, excelente em todas as cenas em que intervém, consegue aliar uma perfeita e simples sinceridade de sentimentos a uma personalidade de ator já cristalizada",4 diz o crítico Yan Michalski, seguido por Martim Gonçalves que, no jornal O Globo, escreve: "Bisonhos são os atores, à exceção desse admirável ator negro chamado Milton Gonçalves".5

Não há aparentemente, no histórico do Teatro Jovem e nas observações que a crítica especializada faz a respeito de seu trabalho, a marca de uma linguagem. Mas o grupo e sua sede se mantiveram como local de encontro de jovens insatisfeitos com o país e com o teatro convencional. Perguntado, em 1964, sobre as intenções do Teatro Jovem, Kleber Santos responde: "A da renovação do teatro no Brasil e o do inconformismo com o nosso ambiente social e cultural".6 Na mesma entrevista, a atriz Maria Gladys afirma: "O Teatro Jovem é para mim o que há mais tempo se dedica, no Rio, aos textos de qualidade e prefiro trabalhar num papel que me realize como atriz, participando da realidade brasileira do que prostituir-me com textos idiotas".7

Notas

1. SANTOS, Kleber. Teatro jovem. In: A MAIS VALIA VAI ACABAR, SEU EDGAR. Direção Francisco de Assis. Rio de Janeiro, 1960. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado em 1960.

2. MICHALSKI, Yan. O chão dos penitentes (II). Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 jul. 1965.

3. Ibid.

4. MICHALSKI, Yan. 'América Injusta'. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 mar. 1966.

5. GONÇALVES, Martim. 'América Injusta' (In White America). O Globo, Rio de Janeiro, 7 mar. 1966.

6. SANTOS, Kleber. A off-Broadway no teatro carioca (II): Teatro Jovem mostra-se inconformista com a situação teatral brasileira. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 8 set. 1964. Depoimento.

7. GLADYS, Maria. A off-Broadway no teatro carioca (II): Teatro Jovem mostra-se inconformista com a situação teatral brasileira. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 8 set. 1964. Depoimento.



Atualizado em 05/09/2008