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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Companhia Tônia-Celi-Autran - CTCA

Data/Local

1956/1962 - Rio de Janeiro RJ

Histórico

Fundada pelos atores Tônia Carrero e Paulo Autran, e pelo diretor Adolfo Celi, em 1956. A companhia é o primeiro conjunto a ser formado por ex-integrantes do Teatro Brasileiro de Comédia - TBC. Sua estréia, com a histórica montagem de Otelo, se constitui no acontecimento teatral mais importante da temporada desse ano no Rio de Janeiro.

Com orientação artística baseada na montagem de textos clássicos e modernos da dramaturgia universal, a Companhia Tônia-Celi-Autran - CTCA, tem, além das três figuras centrais que dão nome à empresa, a participação da atriz Margarida Rey, também proveniente do TBC, Geraldo Mateus e Benedito Corsi, respectivamente vice-diretor artístico e vice-diretor administrativo, ambos formados pela Escola de Arte Dramática - EAD.

Antes da estréia, Adolfo Celi divulga um documento de 52 páginas, com o repertório a ser constituído pela companhia nos anos seguintes e suas diretrizes artísticas. Lembrando ter colaborado na construção das técnicas e dos princípios artísticos do TBC - como o "horror à improvisação" -, Celi pretende diferenciar a CTCA qualitativamente por meio da atenção dispensada ao trabalho do ator, cuja função deve transcender o aspecto técnico para se tornar um instrumento de emoções. Na nova companhia, Celi mantém a prática da escrita como instrumento de descrição, análise e opinião tanto em relação ao processo dos ensaios e às propostas da direção como à inserção da companhia no panorama teatral brasileiro.

Em 1956, no espetáculo de estréia, Otelo, de William Shakespeare, a CTCA coloca em prática seus princípios: a interpretação isenta de estrelismo, a importância preponderante do texto como fonte de pesquisa e busca de linguagem, a regularidade e a homogeneidade estética.

A temporada inaugural tem seqüência com a comédia A Viúva Astuciosa, de Carlo Goldoni, e o contemporâneo Entre Quatro Paredes (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre, seguidos de Dois a Dois, de Georges Neveux. Com esse repertório inicial de quatro espetáculos, a CTCA vai para São Paulo, estreando com Otelo, seu carro-chefe, e conquista os prêmios mais importantes - Associação Paulista de Críticos Teatrais - APCT, para os atores titulares e para Sebastião Vasconcelos, e Governador do Estado, para os mesmos, além de Margarida Rey e Aldo Calvo, pela cenografia. A companhia viaja por quatro Estados brasileiros. Em Porto Alegre estréia outro texto programado por Adolfo Celi, Frankel, de Antônio Callado.

Tendo anunciado ao público o lançamento de novos diretores, Celi só cede seu posto, nos primeiros dois anos de companhia, para Benedito Corsi, que dirige Auto da Infância de Jesus ou Natal na Praça, de Henri Ghéon, em 1957. O espetáculo, patrocinado pela Comissão Estadual de Teatro de São Paulo, excursiona por 14 cidades por ocasião das comemorações de fim de ano. Em 1958, a CTCA tem dois jovens diretores convidados, que chamam a atenção por seu trabalho no Teatro do Rio: Ivan de Albuquerque e Rubens Corrêa, que dirigem respectivamente Escorial e Os Cegos, duas peças de Michel de Ghelderode. No mesmo ano, Adolfo Celi assina Calúnia, de Lillian Hellman, sucesso de público que fica cinco meses em cena. Segundo os pesquisadores Sábato Magaldi e Maria Thereza Vargas, o espetáculo evidencia o resultado do cuidadoso processo de elaboração da encenação, do estudo do texto e da interpretação: "O perfeito entrosamento conseguido por meio da estabilidade do elenco, os exercícios contínuos, a excelente adequação do drama de Lillian Hellman à melhor forma de interpretá-lo fazem da representação um primoroso exercício de verdade cênica (...)".1

A busca de novos autores faz a CTCA criar um concurso de dramaturgia. O prêmio, além de uma verba como adiantamento de direitos autorais, é a montagem da obra pela companhia. Do primeiro concurso surgem Olho Mecânico, de A. C. Carvalho, encenada em 1958, e A Torre de Marfim, de Cléber Ribeiro Fernandes, que sobe à cena no ano seguinte. A obra vencedora do segundo concurso, Lisbela e o Prisioneiro, de Osman Lins, é dirigida por Celi e Carlos Kroeber, em 1961. Celi, que mantém o exercício da reflexão em artigos publicados no programa dos espetáculos, identifica três correntes na dramaturgia nacional: uma de inspiração mística, baseada em aspectos folclóricos, outra filosófica, ligada à história, e uma terceira que, por meio do realismo, faz uma crítica social. Os textos nitidamente políticos, que começam a surgir no período com grande aceitação, nos grupos Arena e Oficina, não interessam ao italiano que fugira de Mussolini e que recusa qualquer vínculo entre teatro e política.

Em 1959, Celi retoma um texto já encenado por ele no TBC: Seis Personagens à Procura de Um Autor, de Luigi Pirandello. Segundo o crítico Décio de Almeida Prado, a remontagem revela um aprimoramento do diretor: "Agora, mais velho, mais seguro, procurando antes compreender do que impressionar, Celi já não sente necessidade de trazer ao primeiro plano o seu trabalho de encenador. Há uma naturalidade, uma facilidade nas suas marcações, que põe o espectador igualmente à vontade, predispondo-o a aceitar o insólito das situações".2

O ano de 1960 é dedicado a viagens, que incluem Belo Horizonte e uma longa temporada em São Paulo, onde a companhia encena três peças de seu repertório. A CTCA, implanta o Teatro das Segundas-Feiras, em São Paulo, mostrando seu repertório de autores de vanguarda (Michel de Ghelderode, Jean Tardieu) e estreando dois novos espetáculos: Hoje Comemos Rosas, de Walmir Ayala, com direção de Paulo Autran; e Fim de Jogo, de Samuel Beckett, dirigido por Carlos Kroeber. São cerca de 20 pessoas na equipe, que se apresenta também na Argentina e no Uruguai.

A partir de 1961, a CTCA começa a se dissolver, enfraquecida por dissidências internas, pelas remontagens que tentam preencher as lacunas de seu planejamento e pelo descompasso de seu projeto em relação ao gosto do público e à situação política e social brasileira na década de 1960.

A CTCA inicia o percurso - que será traçado também pelo Teatro Cacilda Becker - TCB, e pelo Teatro dos Sete - de cultivar no público o gosto pela dramaturgia, seja ela clássica ou moderna, por meio de espetáculos cuidadosamente elaborados e bem-acabados, em que a interpretação do ator precisa corresponder à linguagem do autor e às sutilezas da personagem e nos quais os elementos estéticos devem compor, pelas mãos do diretor, uma obra coerente.


Notas

1 MAGALDI, Sábato; VARGAS, Maria Thereza. Cem anos de teatro em São Paulo: 1875-1974. São Paulo: Senac, 2000. p. 275.

2 PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. Crítica teatral (1955 - 1964). São Paulo: Martins, s.d. p. 144.



Atualizado em 10/06/2008