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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Artaud, O Espírito do Teatro
22/ 9/ 1984 - São Paulo/SP
Teatro João Caetano (São Paulo, SP)

Montagem de Francisco Medeiros em torno da figura de Antonin Artaud, num espetáculo celebrado como uma homenagem à teatralidade e a um de seus mais célebres criadores do século XX.

A montagem nasce de uma oficina teatral reunindo técnicos e artistas ligados à Cooperativa Paulista de Teatro. Propondo-se a estudar a obra de Antonin Artaud, o encenador Francisco Medeiros e o dramaturgo José Rubens Siqueira capitaneiam este empreendimento cheio de méritos. O resultado final é a realização de um espetáculo centrado sobre a vida e a obra do genial criador francês que, nos anos 30, luta pela renovação do teatro. A personagem é vivida por quatro ou cinco diferentes intérpretes, cada um conferindo à criatura a marca de uma fase de sua vida, conturbada não apenas pela Segunda Guerra como também pelos problemas de saúde, que o levam à internação manicomial.

O texto de José Rubens é elaborado como um grande painel. Insere cenas e situações diretamente retiradas de cartas, escritos, entrevistas e relatórios médicos que envolvem Artaud. Cenas de alguns de seus espetáculos são recriadas, com o objetivo de uma exploração de seus pressupostos estéticos e artísticos.

A montagem é proibida pela censura antes da estréia com a alegação de que o texto faz propaganda de drogas e ofensas à religião. A partir de protestos de diversas personalidades e entidades, entre elas a Comissão de Justiça e Paz, a peça é liberada para maiores de 18 anos.

O crítico Sábato Magaldi não poupa elogios à realização: " (...) Trata-se do mais profundo mergulho na figura e na obra do grande visionário do palco moderno realizado entre nós e, ao que sei, provavelmente em todo o mundo. (...) A pureza, a simplicidade e o rigor da direção de Francisco Medeiros e o clima ritualístico vivido pelo elenco transformaram o palco em iluminações sucessivas, que inscrevem o público num raro clima emocional. É preciso conter-se para não cair em pranto diante dessa vida íntegra, que não hesitou em experimentar todos os caminhos e até a aparente blasfêmia, para se gastar permanentemente em plena transcendência. (...) Elias Andreato, quase sempre junto a uma cama colocada sobre praticáveis, à direita do palco, e mais Ary França (na admirável cena, entre outras, do jantar com o casal Ferdière), Giuseppe Oristanio (o teórico mais inflamado, às vezes desafinando um pouco) e Haroldo Botta dividem a responsabilidade do papel de Artaud, enquanto José Rubens Siqueira, Gabriela Rabelo, Tania Bondezan e Ana Maria Braga se desdobram em várias personagens. Uma admirável unidade valoriza os desempenhos, inclusive na singela sugestão plástica do Balé de Bali ou no rito tarahumara. A precisa iluminação e a bonita escolha musical completam o acerto do espetáculo, que situa Francisco Medeiros na primeira linha dos nossos encenadores".1

Mariângela Alves de Lima, destaca em sua crítica: "Modestamente, o grupo desconsiderou a possibilidade de fazer um teatro artaudiano, porque para isso seria preciso recusar totalmente as aparências da arte. (...) Há uma narrativa implícita da vida e do pensamento do artista com o propósito de identificar esse homem para os que não tiveram a oportunidade de ler sua obra. (...) A direção de Francisco Medeiros utiliza apenas recursos essenciais. Todas as construções da cena são decantadas para representar uma paixão visceral e as forças que a contrariam. É um espetáculo rigoroso, limpo, visualmente bonito e sem vocação para o patético. Realiza a potencialidade de Artaud, a dos nossos artistas e a do próprio teatro".2

Notas

1. MAGALDI, Sábato. Artaud, vivenciado com brilho, vitalidade e beleza. Jornal da Tarde, São Paulo, 28 set. 1984. Divirta-se, p. 15. 

2. LIMA, Mariângela Alves de. Artaud, o direito de ser acessível e compreendido. O Estado de S. Paulo, São Paulo, p.43, 23 set. 1984.



Atualizado em 12/08/2005