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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
  Arena Conta Zumbi
1/ 5/ 1965 - São Paulo/SP
Teatro de Arena
   
 

Histórico

Marco da trajetória do Teatro de Arena, o espetáculo inaugura o Sistema Coringa, modelo dramatúrgico criado por Augusto Boal, para viabilizar a encenação de qualquer peça com elencos reduzidos. Alterando a estrutura tradicional do gênero dramático, com suporte em uma proposta épica e crítica, Boal e Gianfrancesco Guarnieri dividem a autoria do texto e Edu Lobo assina a música.

A classe teatral se vê num contexto em que as peças existentes não dão conta de refletir as densas mudanças ocorridas no Brasil após o golpe militar de 1964. Nesse ano, Boal dirige, no Rio de Janeiro, Opinião, realização que reúne as experiências de ex-integrantes do Centro Popular de Cultura da UNE - CPC, apoiados fundamentalmente nos esquemas dramatúrgicos propostos pelo agit-prop, ferramenta que agrupa militância, propaganda e arte. Opinião é uma colagem de fontes diversas: músicas, notícias de jornal, citações de livros, cenas esquemáticas e depoimentos pessoais contextualizando três realidades na cena: a classe média intelectualizada (representada por Nara Leão), o migrante nordestino (por João do Vale) e o sambista de morro (por Zé Kéti).

Com essa experiência dramatúrgica na bagagem, Boal integra o coletivo de artistas que cria Arena Conta Zumbi. Trata-se de colocar em cena um episódio complexo da história brasileira: a luta dos quilombolas de Palmares e sua resistência ao jugo português. Mas o Arena enfrenta dificuldades materiais: o palco e espaço cênico são pequenos e o elenco é reduzido. Escolhidos o tema, os locais de ação e as principais personagens, a criação cênica toma o aspecto de uma narrativa dramatizada, com oito atores representando todas as personagens, revezando-se no desempenho das pequenas cenas focadas sobre os pontos fortes da trama, deixando a um ator coringa a função de fazer as interligações entre os fatos, pessoas e processos, como um professor de história organizando uma aula e expondo seu ponto de vista sobre os acontecimentos. O emprego da música ajuda as passagens de cena, acrescentando tons líricos ou exortativos de grande efeito.

O crítico Décio de Almeida Prado explica os aspectos narrativos do espetáculo: "(...) o título é perfeito: a história não é vivida mas apenas narrada pelos atores. Estes não se apresentam como personagens, mas como narradores, atuando sempre coletivamente. A mesma pessoa - Zumbi, por exemplo - é representada por este ou aquele intérprete, dependendo das circunstâncias e sem nenhum prejuízo para a clareza do espetáculo. É uma técnica original e bastante efetiva dramaticamente. O cenário compõe-se somente de dois ou três acessórios e um opulento tapete vermelho, que faz as vezes de pano de fundo; Boal, como encenador, tende cada vez mais a projetar os atores sobre o chão. Não há nomes a destacar no elenco, a não ser o de Dina Sfat, entre as mulheres, todas elas particularmente jovens e bonitas, e, entre os homens, Gianfrancesco Guarnieri, um prodigioso ator de farsa que, neste terreno, ainda não foi devidamente explorado. (...)". E completa fazendo uma provocação ao conjunto de artistas e à tendência político-teatral do momento: "Arena Conta Zumbi lembra freqüentemente um comício político cantado e dançado: um frenesi de movimentos, de rumor, com muito poucas perspectivas realmente novas, Sound and fury - será esse por acaso o novo ideal do nosso teatro de esquerda?" 1

A montagem de Arena Conta Tiradentes, em 1967, aprofunda a experiência de Arena Conta Zumbi e surge explicada teoricamente em O Sistema Coringa, redigido por Boal. O sistema evolui conceitualmente e sua aplicação permite tanto o barateamento da produção quanto a implantação de proposições estéticas, ligadas a um modo épico e dialético de expor a trama.

Notas

1. PRADO, Décio de Almeida: Exercício Findo, São Paulo: Perspectiva, 1987, p. 68.



Atualizado em 19/06/2008