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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
O Futuro Dura Muito Tempo
3/ 9/ 1993 - Rio de Janeiro/RJ
Teatro Glaucio Gill

O espetáculo de Márcio Vianna sobre a vida e obra de Louis Althusser faz do espaço cênico a arena da intimidade psíquica do filósofo. Rubens Corrêa interpreta Althusser e Vanda Lacerda, Helène, a esposa assassinada por ele aos 70 anos.

No programa do espetáculo, cita-se um trecho de Althusser que sintetiza as intenções da montagem: "Imaginem aquele encontro: duas pessoas no limite de sua solidão e do desespero, que por acaso se encontram cara a cara e reconhecem um no outro a fraternidade de uma mesma angústia, de um mesmo sofrimento, de uma mesma solidão".

No teatro Gláucio Gill - na época, com platéia e área cênica móveis por meio de arquibancadas - o diretor coloca o público diante e acima do protagonista, como que formando um grupo de juízes a quem o réu procura justificar o assassinato por meio de sua trajetória pessoal. O palco, ambientado com luz baixa e fumaça, tem um fosso fechado que, enchido de areia, funciona como o próprio psiquismo de Althusser, de onde ele desenterra troncos humanos e alfarrábios, como pedaços fossilizados do passado. Memória e alucinação se misturam.

A platéia tem contato com algumas das idéias do filósofo, aspectos de seu passado traumático e seus problemas afetivos, como sua aversão ao contato físico.

Os atores permanecem todo o tempo em cena. Na maior parte do tempo o foco está centrado em Rubens Corrêa, cuja personagem monologa, e apenas em um momento a mulher ocupa o primeiro plano da cena, discorrendo sobre suas convicções. Vanda Lacerda, com magreza incomum, aparentando fragilidade física e emocional, chama a atenção por seu trabalho silencioso, econômico e constante.

Uma das críticas recebidas pela montagem foi o envolvimento do diretor com a personagem, de tal modo que procura justificar seus atos. Sob o titulo Defesa de Althusser - Filósofo que matou a mulher vai para o céu, o jornalista da revista Veja Rio afirma que o espetáculo se perde por "defender a inocência ou a irresponsabilidade do homicídio".1

Jefferson Del Rios, em O Estado de S. Paulo, conceitua o espetáculo como "belo e estranho" e avalia: "Rubens Corrêa, um dos mais impressionantes atores brasileiros, insinua sempre o lado ritual da sua arte. Um mago acima das racionalizações. Ao seu lado, a grande Vanda Lacerda, em rara aparição em São Paulo, usa um fio de melancolia e a própria fragilidade para impor a enigmática mulher-vítima de Althusser. Graças a eles, a emoção do espetáculo também dura muito tempo".2

O Futuro Dura Muito Tempo é o último espetáculo encenado por Márcio Vianna antes de sua morte, aos 45 anos. Em sua trajetória como diretor, que o firma como o encenador mais fiel ao experimentalismo teatral no Rio de Janeiro dos anos 80, a montagem representa a primeira incursão a um teatro de narrativa e fruição lineares.

Notas

1. TRINDADE, Mauro. Defesa de Althusser - Filósofo que matou a mulher vai para o céu. Veja Rio, Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1993.

2. DEL RIO, Jefferson. A peça sobre Althusser vê loucura sem cair no óbvio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 de janeiro de 1994.



Atualizado em 15/09/2005