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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Massacre
25/ 9/ 1951 - Rio de Janeiro/RJ
Teatro Regina

Histórico

Espetáculo de 1951, realização da companhia Graça Mello, Massacre tematiza a violência no confronto entre um representante do poder opressor e um líder popular.

Autor dos romances L'Action, La Vallée du Paradis, Les Hauters de la Ville e La Mort en Face, entre outros, o argelino Emmanuel Roblès se volta repetidamente para os problemas da violência e da morte, com uma tendência para a visão trágica. Oran, sua cidade natal, colônia francesa, foi tomada e reconquistada por vários povos, destruída e reconstruída, ressurgindo entre ruínas, depois de quase desaparecer do mapa, reunindo pessoas de várias raças. Em Massacre, o autor retoma a discussão de "o fim justifica os meios" e cria, no antagonista Isquierdo, um personagem marcado pelo senso do dever, capaz de cometer todas as violências. Do outro lado, o herói trágico Montserrat é o homem que resiste, que sofre por um ideal, que se enrijece em sua posição de enfrentamento. O texto recebe, em 1948, o Prêmio Potique, em Paris, e é considerado uma das obras mais importantes do teatro francês no pós-guerra.

A ação se passa na Venezuela, durante as guerras de libertação das jovens repúblicas sul-americanas, tendo à frente Simon Bolivar, o Libertador. O título original, com o nome do protagonista, Montserrat, é alterado por Miroel Silveira, que procura sintetizar o tema da peça. Segundo ele, Emmanoel Roblès escolhe ambientar sua ação no período das guerras independência sul-americanas apenas porque a recorrência de outros autores a este contexto o colocava na ordem do dia, permitindo maior comunicabilidade da trama. "O autor preocupou-se menos em respeitar essa verdade histórica do que em tornar perceptível o que seu tema tem de universal".1

Ao estrear Massacre, a companhia de Graça Mello já tem um repertório de nove espetáculos, entre os quais A Máquina de Escrever, de Jean Cocteau, A Mulher Sem Pecado, de Nelson Rodrigues, Otelo, de William Shakespeare, além de peças de Paschoal Carlos Magno, Helena Silveira e Miroel Silveira. A equipe permanente é composta pelos fundadores Graça Mello e Labanca, ambos egressos de Os Comediantes; Tomás Santa Rosa, como supervisor de montagens, os colaboradores literários Miroel Silveira e Brutus Pedreira, e o compositor Radamés Gnattali. O crítico Jota Efegê avalia o espetáculo com entusiasmo:

"E, já ao fim do primeiro ato, aplaudíamos com calor, vibrando, a magnífica representação que se estava fazendo de uma grandiosa peça. Montserrat, de Emmanuel Roblès, era, de fato, um original vigoroso, impressionante, constatávamos, e a sua interpretação por um elenco sem 'medalhões', onde até predominavam muitos novos, nos encantava. Graça Mello pode envaidecer-se, e justamente, de ter realizado uma das melhores exibições de teatro destes últimos anos. Isto porque, desde a eleição da peça ao menor detalhe da contra-regra, tudo foi feito com escopo da perfeição - natural e convincente".2

Décio de Almeida Prado sublinha o diferencial do espetáculo em relação ao panorama teatral da época: "(...) é impossível não reconhecer que o espetáculo traz a marca de uma perso¬nalidade, um ponto de vista artístico que consagra e unifica a peça. Sentimos de maneira fortíssima a presença de alguém que pensou e cuidou de cada um dos elementos da representação, fazendo reinar entre os atores, entre os cenários e as marcações, entre os gestos, as atitudes, os acessórios, os efeitos de luz, aquela harmonia, aquele nexo, aquela 'misteriosa correspondência de relações' que para Copeau era o próprio sinal da existência de uma encenação digna desse nome. Bastaria esta qualidade para conferir a Massacre uma classe à parte no nosso teatro, onde a maioria dos espetáculos são ainda o produto aci¬dental da reunião de atores mais ou menos em liberdade.

Como tendência artística, Massacre lembra o grande período de Os Comediantes, sob a direção de Ziembinski: a mesma ênfase, a mesma predileção pelas marcações nítidas, escultóricas - formando por vezes quase uma dança hierática; o mesmo senso do ritmo e do silêncio que galvaniza, o mesmo colorido gritantemente teatral, a mesma preocupação, talvez excessiva, talvez já não tão moderna como há vinte anos atrás, com os valores puramente de direção".3

Notas

1. SILVEIRA, Miroel. Massacre. IN: MASSACRE. Direção Graça Mello; texto Miroel Silveira. Rio de Janeiro, 1951. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Regina em setembro de 1951.

2. EFEGÊ, Jota. Uma história de todas as independências. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 9 out. 1951.

3. PRADO, Décio de Almeida. Apresentação do teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 2001, p.178.



Atualizado em 05/09/2008