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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
O Balcão
29/ 12/ 1969 - São Paulo/SP
Teatro Ruth Escobar. Sala Gil Vicente (São Paulo, SP)

Histórico
Após ter encenado Cemitério de Automóveis em 1968, reunião de quatro textos curtos de Fernando Arrabal, o encenador franco-argentino Victor García, envolvido com o vanguardismo e o teatralismo, monta O Balcão, numa ousada produção que remodela radicalmente a arquitetura interna do Teatro Ruth Escobar. São destruídos a platéia e o balcão, o que permite a obtenção de um vão livre de 20 metros de altura. Segundo o projeto arquitetônico de Wladimir Pereira Cardoso, um enorme cilindro em ferro é construído neste espaço, para acomodação circular do público e, no seu centro vazio, dá-se a movimentação dos atores. Estes utilizam passarelas, balancins e plataformas como suportes para ações.

A peça de Jean Genet é uma metáfora da sociedade contemporânea, que vive sob o signo da aparência. Um bordel, onde os clientes experimentam aventuras erótico-fantasiosas, torna-se o centro do enredo. Irma, a proprietária, envolvida com o chefe de polícia, recebe a visita de Roger, o líder de uma revolução que toma conta da cidade, levando-o à morte. Com a eclosão da revolução, sem chefe, Irma e os clientes passam por dignatários do país e conseguem reverter a ordem ameaçada. Peça alegórica, repleta de referências metateatrais, escrita em 1957, inscreve-se, ao lado de Os Negros, 1959, e Os Biombos, 1961, entre as maiores criações do autor, vinculando-o ao teatralismo, o metateatro e às idéias de Antonin Artaud, que insuflam o teatro de vanguarda dos anos 1950 e 1960.

A forte visualidade do espetáculo de Victor García é alcançada pela indumentária luxuosa e exagerada, fogos de artifício, complexos efeitos de iluminação; além da constante presença do som de castanholas e, em momentos solenes, da Missa da Coroação, de Mozart. A atriz Célia Helena, como Carmen, e Sérgio Mamberti, como o Juiz, destacam-se entre os intérpretes, nessa montagem que recebe vários prêmios.

"Este forte impacto visual, obtido pela profusão de recursos mecanizados, completava-se pela abertura, num momento em que os revoltosos se aproximam do bordel, de toda uma lateral da enorme estrutura metálica, conduzindo o público a um passeio pelo espaço. A sensação de insegurança física, reforçada neste deslocamento real, chegava a incomodar o espectador. Vinda à cena por complicadas rampas e pistões, uma cama ginecológica servia de plataforma para marcações variadas", observa o crítico Edelcio Mostaço num texto que reconstitui o espetáculo".1

A encenação de Victor García, pela ousadia e engenho, motiva a vinda de Jean Genet ao Brasil, que a considera a melhor montagem do seu texto, tornando-a uma referência internacional nos estudos genetianos.

Notas
1. MOSTAÇO, Edelcio. O BalcãoPalco e Platéia, São Paulo, ano 1, n. 4, p. 49-54, dez. 1986.



Atualizado em 15/01/2010