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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
  Liberdade, Liberdade
20/ 4/ 1965 - Rio de Janeiro/RJ
Teatro de Arena
   
 

Histórico

No ano seguinte ao golpe militar, o Grupo Opinião estréia uma das obras pioneiras do teatro de resistência. A peça Liberdade, Liberdade, escrita por Millôr Fernandes e Flávio Rangel, reúne textos de diferentes épocas e estilos para falar de um direito inalienável.

Como lembra, na época, o crítico Décio de Almeida Prado, ninguém clama por liberdade se não se sente ameaçado de perdê-la. Essa premissa é a idéia que permanece nas entrelinhas do espetáculo e que dá sentido e contundência a cada palavra proferida em cena. O texto que Millôr Fernandes escreve no programa do espetáculo aborda com bom humor a dificuldade de falar de uma coisa que falta e que não se pode reivindicar:

"Uma pitadinha de liberdade aqui, uma lasquinha de liberdade ali (...) e a turma vai vivendo que afinal também o pessoal não é tão voraz assim. Já está mais ou menos acostumado. Por isso o texto que escrevemos e selecionamos para Liberdade, Liberdade é bem ameno. Lírico, pungente, uma gracinha leve, uma coisinha, assim, delicadinha. Não é por nada não - só medo. (...) Porque, senão, vão dizer por aí, mais uma vez, que eu sou um cara perigoso. E eu tenho que responder mais um vez, com lágrimas nos olhos: Triste país em que um cara como eu é perigoso. (...)" 1

Em outro texto, o Grupo Opinião assina coletivamente um quase manifesto em que diz:
"Muitos acharão que Liberdade, Liberdade é excessivamente circunstancial. O ato cultural muito submetido ao ato político. Para nós, essa é a sua principal qualidade. (...) Consciente de si, do seu mundo, [o artista brasileiro] marca a sua liberdade, inclusive, realizando obras que são necessárias só por um instante. E que, para serem boas, necessariamente terão que ser feitas para desaparecer; deixando na história não a obra, mas, a posição. (...) muitas vezes a circunstância é tão clara, tão imperiosa, que sobe à realidade (...). Afirmamos que nesse instante a realidade mais profunda é a própria circunstância - e nesse momento não ser circunstancial é não ser real".2

Os princípios do teatro de resistência encontram no espetáculo do Grupo Opinião talvez a primeira das inúmeras formas que assumirá durante os anos de silêncio para denunciar o esquema opressor que domina o país. Os autores constroem o texto por meio de pesquisa, tradução e síntese de textos de outros autores. Conseguem obter uma coerente e sagaz estrutura dramatúrgica com fragmentos da literatura universal dedicados ao tema da liberdade, costurados com canções sobre o mesmo assunto e com corrosivas piadas. Criam assim uma aproximação entre as tomadas de posição de autores de outros tempos e outros países e a situação brasileira de 1965. Paulo Autran é o ator a quem cabe a condução do espetáculo e os melhores papéis. O crítico Yan Michalski, que dedica quase metade de sua coluna no Jornal do Brasil à apreciação do ator, afirma que "a versatilidade demonstrada por Paulo Autran é impressionante: em duas horas de espetáculo ele esboça umas dez ou quinze composições diferentes, sempre adequadas e inteligentes, sempre livres de quaisquer recursos de gosto fácil" - e considera que este virtuosismo é resultado do "domínio dos problemas técnicos" e "de todos os meios de expressão do ofício de ator".3

Embora bastante questionado na época, por ser mais um show do que propriamente uma peça de teatro, Liberdade, Liberdade revela-se uma iniciativa pioneira, que influencia fortemente a dramaturgia da década. O espetáculo faz enorme sucesso no Rio de Janeiro e em longa turnê pelo país, tendo tido desde então muitas novas montagens no Brasil e no exterior.

Notas

1. LIBERDADE, LILBERDADE. Direção Flávio Rangel. Texto Millôr Fernandes. Rio de Janeiro, 1965. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro de Arena de Copacabana em abril de 1965. 

2. GRUPO OPINIÃO. Idem.

3. MICHALSKI, Yan. Liberdade, Liberdade (II). Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 abr. 1965.



Atualizado em 19/06/2008