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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
O Rei da Vela
29/ 9/ 1967 - São Paulo/SP
Teatro Oficina

Histórico

Uma das mais contundentes encenações de José Celso Martinez Corrêa com o Teatro Oficina, espetáculo-manifesto tornado emblema do movimento tropicalista.

Os ensaios ocorrem durante remontagens da companhia, motivadas pela necessidade de levantar fundos para a reconstrução da casa de espetáculos, destruída em incêndio no ano anterior. Com novo projeto arquitetônico, com cena à italiana e palco giratório, a linguagem da encenação vem, parcialmente, de laboratórios realizados no Rio de Janeiro sob a direção de Luiz Carlos Maciel; e, em parte, da aguda revisão da cultura brasileira empreendida pela equipe, especialmente filtrada pela crítica à sociedade de classes, tendo como alvo de ataque a pequena burguesia.

O texto de Oswald de Andrade, escrito em 1933, e considerado inviável em termos de encenação até então, fornece os ingredientes que o grupo busca para refletir sobre a crise do momento histórico e cultural. A fábula de um industrial de velas, arruinado sob o peso de empréstimos insaldáveis ao imperialismo norte-americano, retrata a condição subdesenvolvida do país, alvo de uma mentalidade tacanha, autoritária e erigida sobre aparências. Abelardo I casa-se com Heloísa de Lesbos na tentativa de juntar os interesses da burguesia com a falida aristocracia do café mas nem assim a economia é salva. Abelardo II trai o antigo patrão e torna-se herdeiro do decadente império.

Com visualidade forte e agressiva, criada por Hélio Eichbauer, e uma canção de Caetano Veloso, a montagem é dedicada a Glauber Rocha, que lançara pouco antes Terra em Transe. Convergem, assim, as propostas estéticas que estruturam o tropicalismo como movimento abrangente. A montagem apela para procedimentos paródicos, satiriza a ópera, a revista musical, os filmes da Atlântida, a comédia de costumes e abusa de signos que remetem a uma sexualidade explícita, ao mesmo tempo grotesca e farsesca.

A crítica francesa do Le Nouvel Observateur assim percebe as intenções da realização: "Do estilo de circo do primeiro ato, que se passa no escritório de um usurário, símbolo de todo o país vendido ao imperialismo norte-americano, ao estilo de ópera do terceiro ato, no qual morre um burguês fascista assassinado por um burguês socialista que tomará seu lugar, passando pelo estilo de variedades do segundo ato, o da Frente Única Sexual, símbolo de todos os pactos que a burguesia precisa fazer para se manter no poder, o espetáculo do Teatro Oficina procura reencontrar as formas de expressão popular do Brasil para comunicar 'a grosseira e vulgar realidade nacional' e exprimir toda a podridão do 'imenso cadáver gangrenado' que é o Brasil de hoje, onde a classe operária e camponesa é mantida, da mesma forma que nos anos 30, à margem da evolução política. A história não se fará senão pela Revolução; esta é a lição implícita em O Rei da Vela".1

Em 1968 o espetáculo se apresenta na Europa, em Florença, Itália, no 4º Rassegna Internacionale dei Teatri Stabili; em Nancy e em Paris, França, no 1º Festival Internacional des Jeunes Compagnies e no Théâtre de la Commune d'Aubervilliers. A montagem é filmada, nos anos subseqüentes, em co-direção de José Celso Martinez Corrêa com Noilton Nunes, mas não entra em circuito comercial.

A encenação do Oficina torna-se o epicentro de referência de muitos artistas que, em uníssono, dão corpo ao movimento tropicalista através de significativos desdobramentos na música, no cinema, nas artes plásticas e na literatura.

Notas

1. KOURISLKY, Françoise. Le nouvel observateur. Paris, 4 de maio de 1968.



Atualizado em 23/06/2008
 
 
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  Andrade, Oswald de (1890 - 1954)