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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
A Viagem
4/ 9/ 1972 - São Paulo/SP
Teatro Ruth Escobar (São Paulo, SP)

Histórico
Montagem baseada na epopéia Os Lusíadas, de Luís de Camões, adaptada por Carlos Queiroz Telles num ousado empreendimento de Ruth Escobar, com encenação de Celso Nunes.

A produção aproveita o fato de o interior do Teatro Ruth Escobar estar destruído em consequência da cenografia criada para a encenação de O Balcão, de Jean Genet, direção do argentino Victor García, em 1969, para propor uma nova e inusitada montagem, ligada às comemorações do sesquicentenário da independência do Brasil.

Carlos Queiroz Telles realiza uma primeira roteirização do poema de Luís de Camões que é testada durante um curto período de ensaios, a partir do qual é elaborada a forma final das cenas, que integram, em íntima conexão, soluções coreográficas e cenográficas, além da contribuição dos atores. A ambientação cênica criada por Helio Eichbauer mostra grande poder simbólico: no porão está localizada a partida das naus, recriando uma Lisboa habitada por jograis e saltimbancos medievais misturados às figuras renascentistas do cortejo de Vasco da Gama. Nos espaços intermediários surgem o Velho do Restelo, os episódios do Cabo da Boa Esperança, Melinde, Mombaça, Calecut, enquanto em trapézios altíssimos aparecem os deuses e deusas do Olimpo.

As cenas de batalhas de conquista sobre os nativos são marcantes: os soldados, munidos de metralhadoras, comportam-se como máquinas de guerra, repetindo frases como "rompe-corta-arrasa-talha". A chegada à Índia desvenda um inesperado ambiente, multicolorido e habitado por seres andróginos, criando um clima nirvânico: uma Índia totalmente imaginária, sensual e mística, projeção de sonho de uma civilização cristã cujos estreitos horizontes começam a se alargar. Ao final de sua aventura, Vasco da Gama é aprisionado por Vênus num globo metálico - reprodução tridimensional da ilustração de Da Vinci para a escala estabelecida por Vitrúvio - içado para o espaço infinito.

A crítica Ilka Marinho Zanotto escreve um longo comentário sobre a encenação, publicado no Brasil e na revista nova-iorquina The Drama Review: "O elogio máximo que se pode fazer ao espetáculo é dizer que ele consegue transpor de modo admirável a maior concepção literária da língua portuguesa, sem traí-la; a partir de uma visão crítica contemporânea, que resulta de uma leitura aguçadíssima do próprio texto camoniano, ele recria o complexo universo renascentista através da interação em proporções áureas do texto, interpretações, cores, luzes, espaços cênicos, sons e ritmos; elementos que confluem para a síntese harmônica de um movimento extraordinariamente amplo e majestoso que perpassa o todo e a tudo envolve como uma grande sinfonia".1

Notas

1. ZANOTTO, Ilka Marinho. A Viagem. In: ANUÁRIO das Artes São Paulo, 1972. São Paulo: Associação Paulista de Críticos de Artes, 1973. p. 57-60. Republicado em inglês no The Drama Review, New York, v. 17, n. 2, p. 66-72, jun. 1973.



Atualizado em 16/09/2009