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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Cemitério de Automóveis
10/ 9/ 1968 - São Paulo/SP
Teatro 13 de Maio

Histórico

Primeira encenação do franco-argentino Victor García no Brasil, espetáculo já montado por ele em Paris, em 1967. Utiliza quatro textos do espanhol Fernando Arrabal, criador do chamado Teatro Pânico, importante corrente de vanguarda da década de 1960.

García toma o grotesco e inusual universo das personagens de Arrabal como eixo e alcança a densidade de um espetáculo perturbador, pontilhado de personagens alegóricos, envoltos em situações ao mesmo tempo estranhas, poéticas e grotescas. Numa peça, Emanu, que vive entre as carcaças de automóveis, é traído por um e renegado por outro dos seus amigos; acaba crucificado na bicicleta de um policial, repetindo de certo modo a paixão de Cristo.

Noutro texto, uma insólita e grotesca cerimônia de iniciação religiosa e sexual é empreendida, preparando-se uma jovem para a vida adulta. Tangenciando os limites da amoralidade, do lirismo, do absurdo e da violência, as personagens exigem intérpretes corajosos, sem pudor, decididos a levar a cena aos extremos. Os papéis centrais cabem a Stênio Garcia e Stênio Garcia, que se mostram à vontade em meio a máquinas, carcaças de veículos, motores, guindastes e demais apetrechos mecânicos que, adaptados, compõem a ambientação cênica do espetáculo.

Uma antiga garagem de automóveis é transformada e adaptada para receber a encenação. A platéia é acomodada em assentos giratórios individuais, o que permite uma visão em 360º de toda a sala. Motocicletas desabaladas, uma adestradora de cobras, sons metálicos, roupas exóticas de couro e peles naturais, além de muita nudez, encarregam-se de causar o forte impacto almejado pela montagem.

A realização recebe elogiosos comentários do crítico Sábato Magaldi: "O desempenho liberto da dicção realista, o desenvolvimento antipsicológico dos conflitos, a violência física e as evoluções acrobáticas punham diante de nós um universo inédito, cujos paralelos teóricos parecem irmanar-se ao ritual artaudiano ou mesmo grotowskiano. (...) Momento de suprema beleza visual, sintetizando simbolicamente o significado de A Primeira Comunhão: enquanto a avó solene e majestosa dava conselhos, a neta, respondendo apenas um 'sim mamãe', era paramentada em círculos concêntricos de diferentes tamanhos, até transformar-se em verdadeiro bolo de noiva. Era a primeira vez que se construía, à nossa frente, metáfora tão poderosa".1

Esta exótica mistura entre celebração da fé e festa pagã dos sentidos converge para a estética artaudiana, como também cria conexões com a obra do autor maldito francês Jean Genet. No ano seguinte o espetáculo é remontado no Rio de Janeiro e, em 1969, Victor García estréia em São Paulo uma nova produção de Ruth Escobar: O Balcão, agora do próprio Jean Genet.

Notas

1. MAGALDI, Sábato. Victor Garcia. In: ______. Depois do espetáculo. São Paulo: Perspectiva, 2003, p.217-218.



Atualizado em 19/06/2008