lista alfabética
busca

 
       
 
 
  histórico
  ficha técnica
  fontes de pesquisa

    sugestões

 

 
Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Um Grito Parado no Ar
5/ 7/ 1973 - São Paulo/SP
Teatro Aliança Francesa

Histórico
Texto de Gianfrancesco Guarnieri, vinculado ao teatro de resistência, produzido por Martha Overbeck e Othon Bastos, em encenação de Fernando Peixoto. Um dos primeiros espetáculos que conseguem furar o cerco da Censura em plena ditadura, por meio de uma linguagem metafórica, que revela o inconformismo e a rebeldia característicos do período.

O espetáculo estreia quase simultaneamente a Botequim, outro texto de Guarnieri, configurando as primeiras incursões do autor por um estilo figurado no qual se fazem referências indiretas à situação social e política do Brasil.

Um Grito Parado no Ar reflete o momento difícil que a dramaturgia atravessa, desejosa de discutir problemas sociais, mas obrigada a evitar alusões explícitas que pudessem levar ao veto da Censura. Num depoimento prestado na ocasião, Guarnieri admite que "são minhas primeiras incursões no reino das metáforas e dos símbolos. Eu penso que esta ginástica possa ser útil, no sentido de que nos obriga a mexer com a gente mesmo. [...] Ter de modificar a própria maneira de falar pode ser bom, no sentido em que a modificação traz a conquista de novos instrumentos".1

A peça gira em torno de um grupo de teatro em seu processo de trabalho e ressalta as dificuldades que enfrentam dentro e fora dos palcos.

Enfocando três planos de realidade, o diretor Fernando Peixoto descreve a estrutura do espetáculo: as articulações existentes na encenação: "Um diretor e cinco atores procuram realizar um trabalho, enfrentando toda sorte de pressões externas; o trabalho está sendo minado por uma infra-estrutura repressiva, que provoca uma crise de conseqüências insuspeitas; a peça que este grupo está procurando encenar é mostrada através de cenas isoladas, mas nunca totalmente definida. [...] noutro plano estão os poucos momentos em que o diretor e atores conseguem vencer; são mostrados exercícios de interpretação, laboratórios e improvisações, discussões sobre os personagens. O espectador assiste ao processo de criação do ator. A mística do teatro é desnudada. [...] No terceiro plano estão as entrevistas com o povo, todas autênticas, gravadas nas ruas de São Paulo. Na peça dentro da peça seriam entrevistas realizadas para servirem de material de estudo para a criação de suas personagens".2

A ação de Um Grito utiliza-se da alegoria, mostrar o teatro como um local onde se trabalha e se fabrica uma aparência da realidade. Quando despojado de tudo, resta ao grupo de artistas somente um uníssono grito final, símbolo da luta e também da sobrevivência em meio à opressão reinante.

Notas

1. GUARNIERI, Gianfrancesco. Um Grito Parado no Ar. Revista Argumento, Rio de Janeiro, n. 1, 1973. Entrevista concedida a Geraldo Mayrinki.

2. PEIXOTO, Fernando. Notas sobre Um Grito Parado no Ar. In: Teatro em pedaços. São Paulo: Hucitec: 1980. p. 163-164.



Atualizado em 17/09/2009