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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Ensaio.Hamlet
7/ 4/ 2004 - Rio de Janeiro/RJ
Espaço Sesc

Primeira montagem de um texto da literatura clássica universal pela Companhia dos Atores, o espetáculo sintetiza a narrativa da história de Shakespeare e a envolve em interferências retiradas do processo de encenação, das relações do ator com suas personagens e das livres associações que a ação propicia aos criadores.

O espetáculo começa com todos os atores em cena e o primeiro texto, dito por Fernando Eiras, conta que, durante os ensaios de outro espetáculo dirigido por Enrique Diaz, ele pedia aos atores que fizessem acontecer 'alguma coisa de real'. Essa chave aciona diversos procedimentos da encenação, desde o uso de elementos concretos até a revelação do conflito, da crítica ou da perplexidade do ator em relação ao personagem que está encarregado de representar.

O Rei Cláudio queima as próprias mãos com água fervendo; Ofélia se afoga em uma seqüência de garrafões d'água que ela mesma joga sobre si; Hamlet argüi a mãe com uma câmera na mão e a expõe em telas; Ofélia morta entra como bife cru que, passado a ferro, faz subir o cheiro de carne queimada; Rosencrantz e Guildenstern adentram a cena como bonecos infláveis na forma de Jaspion (super-herói de seriado japonês); a atriz Bel Garcia revira uma bolsa procurando Ofélia e reconhece sua aversão a adolescentes; enquanto fala da irmã, Laertes se despe de suas roupas, veste um vestido, e ao final desta ação se transmuta em Ofélia; a rainha Gertrudes infantiliza o filho, que reclama de suas roupas apertadas, pequenas demais para ele; no monólogo de Hamlet, os três atores que se revezam na personagem estão juntos em cena e partilham o texto.

O crítico teatral Michel Cournot, do jornal Le Monde, escreve: "Ainda que os intérpretes atuem como se eles realmente ensaiassem Hamlet, com a conivência do público, eles também interpretam a trupe imaginada por Shakespeare que representa uma cena. Nada se perde, e os comediantes brasileiros, dançarinos, acrobatas, mímicos, nos levam ao seu propósito através de peregrinações. Eles são aéreos, imaginários, surreais, e quando interpretam, de fato, uma cena ou outra de Hamlet, são formidáveis em presença de espírito, disponibilidade, evidência. (...) Eles nos dão uma maravilha de entretenimento, de espetáculo, cada detalhe enche nossa vista, os atores projetam fantasmagorias encantadoras, como se nós vivêssemos diversas reflexões de nossas mentes, a consciência do que é visto, fisicamente, e, ao mesmo tempo, os sobressaltos de nossas memórias, de nossos instintos".1

No Jornal do Brasil, o crítico Macksen Luiz considera que a desconstrução do texto de Shakespeare se dá "como experiência especulativa sobre a representação da obra" e que o diretor "persegue código teatral que impõe à obra desconcertante versão, em que experimentos sugestivamente arbitrários tornam secundária qualquer outra apropriação do texto".2

O espetáculo se apresenta no Rio de Janeiro (capital e interior), São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Goiânia, João Pessoa, São José do Rio Preto, Belo Horizonte, Estados Unidos, Colômbia, Espanha, Alemanha, Rússia, Bulgária e França, onde recebe o Prêmio da Crítica como melhor espetáculo estrangeiro de 2005.

Notas

1. COURNOT, Michel. Une interprétation brésiliénne de Shakespeare: l'imagination, le rêve et la poésie de Ensaio.Hamlet. Paris, Le Monde, 4 dez. 2005.

2. LUIZ, Macksen. Dois pontos de vista sobre um mesmo ensaio de Hamlet. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 13 abr. 2004.



Atualizado em 29/05/2007