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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Gracias, Señor
2/ 1972 - Rio de Janeiro/RJ
Teatro Tereza Raquel
Histórico

Espetáculo de ruptura do Teatro Oficina, em que o grupo sofre a transição para uma comunidade. Criação coletiva concebida em viagem pelo Brasil, incorporando procedimentos do teatro de vanguarda, contracultura e teatro vivencial.

Gracias, Señor tem oito horas de duração, dividido em dois dias de apresentação. A montagem busca ultrapassar os limites da ficção para aproximar-se de um psicodrama. O elemento didático está presente, uma vez que se destina a ensinar à platéia um novo modo de olhar a si mesma e o mundo.

No primeiro dia, são apresentadas A Confrontação, a Aula de Esquizofrenia (repolhos figuram os cérebros submetidos à lobotomia), a Divina Comédia (mecanismos de repressão empregados pela indústria cultural) e A Morte. No dia seguinte, A Ressurreição dos Corpos (novas energias vitais são transmitidas ao público por contatos pulso a pulso), A Barca (utópica viagem por mares desconhecidos e convite à liberação corporal), O Novo Alfabeto (onde um bastão é manipulado) e o Te-Ato, a culminação de todo o processo, quando o bastão, passando de mão em mão, deve incentivar uma nova ação. Pela primeira vez é utilizado o conceito de te-ato, referência direta ao apelo performático que propõe, depois de desencadeado pelos atuadores, contaminar o comportamento do público.

O espetáculo divide público e crítica. Chega a criar uma situação de atrito entre o diretor José Celso Martinez Corrêa e o crítico Sábato Magaldi, com direito a contracrítica e carta resposta. Para Yan Michalski, "se Gracias, Señor devia ou não ser considerado um espetáculo teatral é uma questão irrelevante, que o próprio Oficina não se preocupou em responder. Em todo caso, se se tratava de uma experiência curiosa pelo que tinha de diferente, ficou-me dela uma lembrança desagradável, de um bando histérico hostilizando gratuitamente os espectadores que se dispuseram a pagar para vê-lo, assumindo uma postura autoritária e impositiva para enfiar nas cabeças dos espectadores uma hermética e zangada lição. Postura que só se tornava justificada se interpretada pelo prisma do desespero que transparecia por trás de cada gesto e fala desses jovens privados de perspectivas de realização pessoal".1

Gracias, Señor é proibido pela censura federal em junho de 1972, durante a temporada paulista. Como processo de trajetória do Oficina, essa montagem significa a ruptura com a antiga equipe e seus métodos de trabalho. Dos antigos integrantes permanecem apenas José Celso e Renato Borghi. Neste novo horizonte serão renovadas todas as relações teatrais, quer do grupo quanto da sala de espetáculos, uma vez que os processos de teatralização são levados para a vida cotidiana, e o espaço passa a denominar-se Teatro Oficina Uzyna Uzona.

O espetáculo evidencia os estímulos provenientes dos contatos de trabalho com os grupos experimentais Living Theatre, grupo norte-americano de Julian Beck e Judith Malina, como também o grupo Los Lobos, de Buenos Aires, que, a convite de José Celso, vêm ao Brasil em 1970 para uma troca de experiências. Além da metodologia empregada, paralelos podem ser traçados entre os roteiros de Gracias, Señor e Paradise Now, uma das grandes realizações do Living Theatre na segunda metade da década de 1960.

Notas

1. MICHALSKI, Yan. O teatro sob pressão: uma frente de resistência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 54.



Atualizado em 23/06/2009