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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Macunaíma
15/ 9/ 1978 - São Paulo/SP
Theatro São Pedro

Espetáculo dirigido por Antunes Filho com o Grupo Pau Brasil, baseado na obra homônima de Mário de Andrade. Realização considerada renovadora e de alta qualidade artística, alcançando amplo sucesso no Brasil e no exterior.

Em 1977, Antunes Filho, por intermédio do Sindicado dos Atores, solicita espaço e uma verba à Comissão Estadual de Teatro de São Paulo, com o intuito de realizar uma pesquisa cênica sobre a obra de Mário de Andrade. Cansado do teatro empresarial, Antunes almeja uma renovação de padrões e para tanto reúne um elenco jovem, submetido a longo e rigoroso treinamento. O texto recebe adaptação cênica de Jacques Thieriot, à época diretor da Aliança Francesa de São Paulo, que traduzira a obra para o francês.

A saga de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, é inteiramente mítica: indígena, ele se torna negro e branco ao longo de sua aventura. Deixa sua tribo e vem para a cidade, em busca da perdida Muiraquitã, cruzando nesse percurso com vários estratos da realidade social e diversas figuras de mitologias brasileiras. Uma forte carnavalização percorre a obra, tornando o grotesco, a degradação/regeneração corporal e a paródia alguns de seus ingredientes estéticos mais salientes.

A encenação objetiva encontrar um desenho que satisfaça os contornos míticos propostos pelo texto, encontrando-os nos movimentos corais, através da exploração de diversos formatos de blocos imagéticos. É assim alcançada uma dinâmica de massas em movimento, com a aparição/desaparecimento de figuras e objetos cênicos. Há blocos de araras, piolhos e outros animais, além de danças indígenas rituais e bumba-meu-boi. A chegada a São Paulo dá-se com o encontro de um bloco de operários e suas britadeiras. As estátuas de Venceslau propiciam um novo conjunto, numa cena tornada antológica, bem como a do carnaval, na chegada do herói ao Rio de Janeiro.

Num comentário, o professor Antônio Mercado aponta os processos empregados: "A escritura cênica de Macunaíma realiza uma síntese extraordinária de mídias diversas (...), de teatro popular, pesquisa erudita e experimentação de vanguarda; de diferentes linguagens, estilos e tendências (...). O que nos surpreende é que de tudo isto não resulta algo sem nenhum caráter, como o herói da estória, mas justamente o contrário".1

A crítica Mariângela Alves de Lima fala do resultado obtido: "Em Macunaíma é visível o gosto pela transubstanciação, pela capacidade do teatro de sugerir sem precisar recorrer a objetos definidos. Um dos traços marcantes dessa encenação é a recorrência ao fabuloso que se instala em cena por um simples gesto ou de traços que apenas indicam a passagem para outro plano ficcional. O teatro, diz Macunaíma, é capaz de criar o maravilhoso a partir da presença de um ser humano no espaço destinado à representação".2

Ao estrear, a montagem possui quatro horas de duração; abreviada para três subseqüentemente. Entre 1978 e 1987, data de seu encerramento, foram apresentadas 876 sessões no Brasil e no mundo, especialmente em festivais internacionais, para os quais a encenação é reiteradamente convidada. Reverenciada em todos os locais, Macunaíma torna-se um marco na história do teatro brasileiro, determinando a entrada na era dos encenadores-autores, que marcará toda a década de 80. 



Atualizado em 14/10/2011