Histórico
O projeto concebido e dirigido por José Celso Martinez Corrêa, à frente do Teatro Oficina Uzyna Uzona, reúne, em cinco espetáculos, as três partes de Os Sertões, de Euclides da Cunha (A Terra, O Homem e A Luta). Em cada um deles, que juntos totalizam cerca de 26 horas de encenação, há uma releitura múltipla dos episódios da Guerra de Canudos, sempre a associar passado e presente da história brasileira e a apresentar a própria luta do grupo pela sobrevivência de seu edifício teatral.
Em Os Sertões - A Terra, 2002, o elenco, composto por 40 atores adultos e 20 adolescentes (parte deles, crianças do Movimento Bixigão), reúne moradores do entorno do Teatro Oficina, presentes em todo esse projeto. As preocupações do diretor se voltam para o texto. Da parte do original de Euclides da Cunha comumente considerada a mais difícil de ser lida, Zé Celso explora a carga poética contida nas descrições do planalto brasileiro. Para o diretor, trata-se aqui de encontrar um caminho para a melhor enunciação das palavras de Euclides: "A Terra tem retórica teatral, mas difícil, porque tem períodos longos, para serem ditos como se fossem cantos de Pound ou de Homero".1 O conteúdo denso do vocabulário euclidiano é traduzido em cerca de 20 canções, em ritmo de samba, rap ou baião, o que exige um cuidadoso trabalho do coro. Isso leva o encenador a definir o seu Os Sertões como um "musical épico brasileiro". O corredor do Teatro Oficina é recoberto de terra para caracterizar a paisagem do sertão.
Também na segunda parte, a exemplo da primeira, há uma profusão de alegorias e de imagens, que são desdobradas por aparelhos de TV, câmeras e projetores de vídeo, espalhados pelo espaço. Em Os Sertões - O Homem I. Do Pré-Homem à Revolta, 2003, investiga-se a origem dos povos que formam a nação brasileira. Os diversos paralelos estabelecidos pelo espetáculo, como entre os revoltosos de Canudos e os integrantes do Movimento dos Sem-Terra, são apontados por Sérgio Salvia Coelho, que destaca algumas cenas em que isso ocorre: "Nenhum gesto, sobretudo, é aleatório. É como se o olhar antropológico de Euclides, que descreve minuciosamente os rituais da seca, se estendesse aos atuais rituais urbanos do pregão da Bolsa, da cobrança de pênalti, e fosse expressa em repentes e happenings a angústia brasileira cotidiana".2 Ainda em 2003, Os Sertões - O Homem II. Da Re-Volta ao Trans-Homem chega a reunir quase 100 atores. Nesse espetáculo, Zé Celso, que havia surgido na cena final de O Homem I como Antônio Conselheiro, incorpora em tempo integral a personagem, cuja biografia começa a ser recomposta. Referências ao filósofo Nietzsche, ao presidente americano, George W. Bush, à Alemanha nazista e ao Afeganistão inserem-se em algumas seqüências.
Em 2005, chega-se à terceira parte do livro, também dividida em duas na montagem. Para Os Sertões - A Luta I, que retrata as primeiras expedições malsucedidas do Exército brasileiro ao arraial de Canudos, o espaço do teatro é renovado, com a substituição da terra por galerias subterrâneas que servem como trincheiras. Pela primeira vez nesse ciclo, há a protagonização, enfatizando-se o desempenho-solo de atores, em vez de se admitirem apenas a atuação em coletivo e os happenings. Alguns desses solos cabem a Ricardo Bittencourt, como o coronel Moreira Cezar. O desfecho da série, Os Sertões - A Luta II. Do Des-Massacre ao Reinício, 2006, centra-se na quarta investida militar ao vilarejo. As alegorias nesse momento reforçam a luta de Zé Celso e seu grupo - presente em todos os espetáculos da série - para impedir que o empresário Silvio Santos construa um shopping center ao lado do Teatro Oficina.
Escrevendo sobre as cinco peças, a crítica Mariangela Alves de Lima avalia o conjunto: "A beleza extraordinária da articulação de signos visuais e sonoros, a abertura poética para significados múltiplos reafirma um intuito que é também enigmático e provocador, como o de toda obra de arte. O Oficina fala de antes e de hoje, do imaginado e da realidade que a outros pareceria banal (mais um shopping? mais um delito contra o direito à cultura?) com uma linguagem que tem a grandeza de uma catedral e a competência estética dos gênios da arte do teatro".3
A qualidade de Os Sertões é atestada pelos prêmios que recebe: A Terra ganha o Prêmio Shell de 2002, nas categorias direção e música. Em 2003, O Homem I. Do Pré-Homem à Revolta conquista o Prêmio Associação Paulista de Críticos de Artes - APCA de melhor espetáculo. A Luta I, em 2005, recebe o Prêmio BRAVO! Prime de melhor espetáculo e o Prêmio Shell de melhor cenografia, para Oswaldo Gabrielli, e de melhor direção de cena, para Elisete Jeremias.
Notas
1. PONCIANO, Helio. Canudos transformada. Bravo!, São Paulo, n. 63, dez. 2002. p. 90.
2. COELHO, Sérgio Salvia. Grupo Oficina ritualiza a miscigenação do Brasil. Folha de S.Paulo, São Paulo, Ilustrada, 23 ago. 2003. p. 9.
3. LIMA, Mariangela Alves de. Luta lúdica, política e sagrada. O Estado de S. Paulo, São Paulo, Caderno 2, 23 jun. 2006.
Atualizado em 30/07/2009