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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Soares, Aristóteles (1910 - 1989)

Biografia
Aristóteles Soares da Silva (Rio Formoso PE 1910 - Recife PE 1989). Autor. Parte considerável de sua dramaturgia se caracteriza por um "realismo sombrio",1 cujos temas e personagens são baseados na realidade social do Nordeste brasileiro.

Muda-se, em 1915, para Catende, Pernambuco, e lá reside até os 42 anos. Dessa cidade, Aristóteles Soares extrai "toda a ambientação de sua obra. Na cidade: o drama dos operários, da política resumida dos coronéis de interior. No campo: a angústia dos camponeses oprimidos, surrados pela palha da cana, fracos diante do gigante latifundiário monocultor da cana-de-açúcar".2

A princípio, dedica-se a escrever comédias de costumes, encenadas pelo Teatro de Amadores de Catende, com direção de Jaime Albuquerque. São dessa fase as peças O Barão de Caitetú, A Carta, Temos Agora um Futuro e Casei-me com a Madrinha. São obras escritas à maneira dos comediógrafos ligeiros cariocas, aclimatadas, entretanto, ao ambiente e aos tipos nordestinos.
 
Com influência do dramaturgo e encenador Hermilo Borba Filho, Aristóteles Soares abandona as comédias de costumes e passa a escrever dramas baseados em assuntos regionais, aproximando-se do ideário de um conjunto de dramaturgos (liderados por Hermilo Borba Filho) comprometidos com a criação de um "Teatro do Nordeste". A primeira peça dessa fase é Cana Brava, montada, em 1952, pelo Teatro do Estudante Secundário de Pernambuco (Tesp), com direção de Clênio Wanderley.

Sua peça seguinte é A Trovoada, encenada, em 1949, pelo Teatro de Amadores de Catende, dirigida por Jaime Albuquerque. Na estreia, encontra-se na plateia do Cine Guarani o diretor do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), Valdemar de Oliveira, que, entusiasmado com o texto de Aristóteles Soares, convida-o a escrever uma peça para o TAP. Esse projeto se realiza três anos depois, com a montagem de Sangue Velho, texto de Aristóteles Soares com a colaboração de Valdemar de Oliveira, que também assina a direção do espetáculo, com o TAP. Originalmente, a peça recebe o nome de As Árvores, no entanto, por sugestão de Valdemar de Oliveira, passa a se chamar Sangue Velho. Sua ação é localizada no sertão nordestino e trata da luta por um pedaço de terra.

Em 1950, estreia Terra Queimada, com direção de Clênio Wanderley, com o Grupo Teatral do Atlético Clube de Amadores, no Recife. Essa peça tem como pano de fundo a decadência da economia do açúcar na Zona da Mata de Pernambuco, apresenta homens do campo limitados por sua condição social, sem esperanças, entregues a conflitos interiores e à apatia.

Dois anos depois, Terra Queimada é encenada por Paschoal Carlos Magno, no Rio de Janeiro, como parte da programação do Festival do Autor Novo, promovido pelo Teatro Duse. É o texto mais premiado de Aristóteles Soares, e recebe o Prêmio Artur Azevedo, da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em parecer sobre a peça, Viriato Correia, um dos jurados e relator do concurso da ABL, afirma que Aristóteles Soares "é sem querer o bardo da áspera terra nordestina, castigada de sol e de sofrimento, o intérprete das almas insatisfeitas e revoltadas que mourejam miseravelmente nos canaviais de sua terra natal. Terra Queimada é o conflito da gente da gleba em toda a sua crueza. É a vida dos párias dos engenhos do Nordeste, com os seus desajustados e as suas revoltas. [...] é o drama social dos infelizes e, por isso mesmo, comovedor".3

Aristóteles Soares muda-se para o Recife com a família em 1952. Além de Sangue Velho, apresentada pelo TAP, outra peça sua estreia nesse ano: A Trovoada, com direção de Clênio Wanderley.

Um ano depois, o TAP faz uma excursão ao Rio de Janeiro e inclui Sangue Velho em seu repertório. Na temporada carioca, o espetáculo recebe uma recepção favorável por parte da imprensa.

Terra Queimada é novamente encenada por Clênio Wanderley, em 1955, com o recém-fundado Teatro Adolescente do Recife (TAR). No ano seguinte, por essa montagem, Aristóteles Soares recebe, pela primeira vez, o Prêmio Vania Souto Carvalho, de melhor autor pernambucano, concedido pela Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco.

Na capital pernambucana, o dramaturgo exerce, a partir de 1957, a função de arquivista do Jornal do Commercio, além de também atuar como colunista de teatro nessa mesma empresa.

Com direção de Luiz Mendonça, estreia no Teatro de Santa Isabel, pelo Teatro da Universidade Rural de Pernambuco (Turp), A Represa, em 1960. Após dois anos depois, Aristóteles Soares volta ao gênero da comédia e escreve Município de São Silvestre, encenada pelo Teatro Popular do Nordeste (TPN), com direção de José Pimentel. Diferentemente das comédias de costumes da primeira fase de sua obra, Município de São Silvestre é uma sátira política que apresenta a corrupção e o conformismo do povo nas eleições municipais da cidade fictícia de São Silvestre. Essas duas obras recebem o Prêmio Vania Souto Carvalho.  

Após um período de quase 20 anos sem escrever para teatro, Aristóteles Soares cria, em 1979, o drama O Carcereiro. O protagonista é um andarilho que consegue se empregar na delegacia de uma pequena cidade do interior, mas, pelo seu temperamento sensível e sonhador, não se adapta ao lugar, preferindo, no final, voltar à vida errante.

Ambientando boa parte de seus dramas na monocultura da cana, suas personagens veem a exploração da terra e sentem seus efeitos, sem reagir. Impotentes e solitários, "devoram-se uns aos outros, como se estivessem purgando culpas, sem saber quais [...]. Onde podiam existir protestos há sofrimento agudo, expresso melhor nos instantes de apatia, quando os personagens reflexionam sobre a vida, condenados como animais esquecidos num curral fechado".4

Notas
1. PONTES, Joel. O teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: Desa, 1966. p. 146.

2. MELO, Jones. Aristóteles Soares - consagrado e esquecido. Diario de Pernambuco, Recife, p. D-4, 2 jul. 1978. [Acervo Jones Melo]

3. CORREIA, Viriato; EDMUNDO, Luiz; ATAÍDE, Austregésilo de. [13 maio, 1954]. Prêmio Artur Azevedo - Parecer. Revista da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, ano 53, v. 88, jul.-dez. Anais de 1954, p. 28.

4. PONTES, Joel. O teatro moderno em Pernambuco. São Paulo: Desa, 1966. p. 147.



Atualizado em 02/06/2010