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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Araújo, Antônio (1966)

Biografia

Antônio Carlos de Araújo Silva (Uberaba MG 1966). Diretor. Encenador ligado ao Teatro da Vertigem, grupo que tem como marca a encenação em espaços não convencionais, bem como a pesquisa e construção dramatúrgica a partir de temas ligados à ética e religiosidade. Idealizador e realizador da Trilogia Bíblica, conjunto de três espetáculos marcantes da década de 1990: O Paraíso Perdido, 1992; O Livro de Jó, 1995; Apocalipse 1,11, 2000. 

Após cursar direção na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ECA/USP - chama a atenção por sua montagem de Oberösterreich, de Franz Xaver Kroetz. Dirige a atriz e bailarina Marilena Ansaldi num solo cheio de teatralidade e emoção: Clitemnestra, de Margherite Yourcenar.

Funda, a seguir, o Teatro da Vertigem, com ex-colegas da universidade, implementando, junto ao grupo, uma longa pesquisa de linguagem a partir de exercícios físicos inspirados nos princípios da física clássica de Newton. Em 1992, lança Paraíso Perdido, livremente inspirado na obra homônima de John Milton, um espetáculo construído com os atores do grupo e dramaturgia de Sérgio de Carvalho. Tendo escolhido a igreja de Santa Ifigênia como espaço de apresentação, enfrenta dura batalha contra setores retrógrados das instituições religiosas para a liberação da montagem. O articulista Marcelo Coelho, um dos espectadores da sessão-julgamento realizada para padres e freiras, descreve os elementos do espetáculo: "Uma experiência mística se produz, tão logo o público entra naquela nave de igreja escura; o espetáculo começa. O jogo de luzes, a cor dos vitrais, o eco das vozes, o mistério da arquitetura noturna e a fé que possamos ter nos propõem algo de ao mesmo tempo familiar e aterrador. (...) Sentimos a grandeza do templo: sua veracidade incompreensível, sua música de pedra, sua matéria plena, feita de arcos, de imagens, de ogivas e de vazios onde os atores correm, choram, celebram, lamentam a ausência e a esperança de Deus."1 O espetáculo, uma inusitada e inovadora maneira de falar sobre a queda do Homem, torna-se marcante e ganha destaque junto à mídia.

Sob novas linhas de pesquisas, o diretor e seu grupo estréiam, em 1995, O Livro de Jó, um episódio bíblico tratado dramaturgicamente por Luís Alberto de Abreu. Desta vez, um hospital sedia a encenação, aproveitando o ambiente terminal como metáfora para falar da peste e das angustiantes relações com a divindade. Sobre o espetáculo, a crítica Mariângela Alves de Lima declara: "O texto e a encenação se inspiram nos procedimentos alegóricos do teatro medieval. O que vemos não é um indivíduo, mas uma abstração ou uma alma. Nada encobre este núcleo metafísico, investigado pela consciência. Elementos narrativos como a queda e a revolta são mais tênues do que o teor do diálogo. Não há dúvida de que o espetáculo tem pesado revestimento material. Atravessamos o equipamento hospitalar, sentindo o odor de um resquício de desinfetante e seguimos as pegadas sangrentas de Jó. Com isso, lembramos de um lugar onde se põe à prova a frágil carcaça humana. Mas este espetáculo faz mais do que isso: transcende a dualidade entre o corpo e o espírito e propõe, com uma verdade que não conseguimos ignorar, um admirável combate".2

Ganha a bolsa de estudos Fellowships of the Americas, concedida pelo The John F. Kennedy Center for the Performing Arts em 1996/1997 realizando vários cursos e estágios em Nova York e em outras cidades nos Estados Unidos, onde tem a oportunidade de acompanhar processos de montagens de Robert Wilson e Andrei Serban, entre outros. De volta ao Brasil, Araújo estréia com o Teatro da Vertigem, em 2000, Apocalipse, 1,11, um "processo colaborativo" inspirado no Apocalipse, último episódio da Bíblia, com dramaturgia de Fernando Bonassi. Agora apoiada no evangelho de João, a encenação ocupa o espaço de um presídio. Recorrendo à alta teatralidade, Araújo mais uma vez articula uma encenação densa, alegórica, marcada pelos efeitos inusitados junto ao público. O crítico Macksen Luiz observa: "Antônio Araújo amplia o caráter processual de suas montagens anteriores, ao confinar o público a uma área de supressão como um presídio. O espectador não apenas caminha por uma arquitetura degradada pelo uso e abandono, como se submete a experiência dramática de percorrer corredores escuros, celas que parecem gavetas mortuárias, e sentir o cheiro de mofo e umidade, criando uma relação física imperativa. A sensação física, no entanto, não se esgota, na impressão de histórias vividas nesse cenário, mas é um apoio decisivo para que as impressionantes cenas construam a memória de um apocalipse que estamos vivendo. Assistir a uma cena de sexo explícito, realizada por um casal que vive profissionalmente dessa atividade, ou participar do corredor polonês na representação de um massacre, e ainda se confrontar com a ameaça de tortura com um rato, ou ficar frente a frente, com um homem degradando uma mulher ao urinar em seu corpo, adquire um sentido agressivo, mas em nenhum momento gratuito ou banalizador da violência".3

Araújo tem como colaboradores constantes, além do grupo de atores, o iluminador Guilherme Bonfanti; o músico Laércio Resende; o cenógrafo Marcos Pedroso e o figurinista Fabio Namatami.

É também, a partir de 1998, professor de direção na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP.

Comentando a força e particularidade das encenações de Antônio Araújo, a pesquisadora Sílvia Fernandes analisa: "Certamente, não é por acaso que as vertentes da cena contemporânea, representadas por Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas, de certa forma têm continuidade nesse trabalho, que representa uma síntese e uma superação daquilo que seus antecessores criaram nas últimas décadas. (...) Para Araújo, ao contrário, a concepção cênica acontece a posteriori e funciona como uma espécie de edição das contribuições individuais dos parceiros de criação. O que não diminui a marca forte de sua dramaturgia cênica, indisfarçável no transbordamento barroco, no resgate da expressividade integral do corpo do ator e na habilidade para compor trajetórias físicas e metafóricas em espaços urbanos que, desde o princípio da década, encantam e desestabilizam o espectador. Além disso, Antônio compõe uma cena mais impaciente que seus antecessores, dando uma resposta vital, agressiva e muitas vezes anárquica ao formalismo teatral dos anos 1980".4

Notas

1. COELHO, Marcelo. O paraíso perdido vira luta política. In: TEATRO da vertigem: trilogia bíblica. São Paulo: Publifolha, 2002. p. 291-292.

2. LIMA, Mariângela Alves de. O Livro de Jó põe metafísica à prova. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 17 fev. 1995. Caderno 2.

3. LUIZ, Macksen. Apocalipse atrás das grades. In: TEATRO da vertigem: trilogia bíblica. São Paulo: Publifolha, 2002. p. 317.

4. FERNANDES, Sílvia. O lugar da vertigem. In: TEATRO da vertigem: trilogia bíblica. São Paulo: Publifolha, 2002. p. 35-36.

 



Atualizado em 24/09/2008