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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Cohen, Renato (1956 - 2003)

Biografia
Renato Cohen (Porto Alegre RS 1956 - São Paulo SP 2003). Diretor, performer e teórico. Pesquisador de arte e tecnologia, atua em São Paulo desde meados dos anos 1980, um dos diretores mais conectados às inovações multimídias e performáticas.

Após realizar mestrado e doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), com temas associados às técnicas da performance, Renato Cohen torna-se professor da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), respeitado como um especialista em tais domínios.

O grupo por ele dirigido, Orlando Furioso, possui como eixo de investigação a extensão do conceito de cena e de teatralização, incorporando recursos da performance, das artes plásticas, do cinema e dos audiovisuais, almejando encontrar uma obra de arte total. O grupo é precursor da associação entre arte e tecnologia no Brasil. As montagens do Orlando Furioso são pioneiras também, no uso de espaços não convencionais, utilizando bosques, galpões, piscinas e sites virtuais em suas montagens. Nesse sentido, a pesquisa volta-se para a espetacularidade da cena, a atuação performática, o uso de narrativas não-lineares que incorporam o acaso e o processo e as relações com o público.

Sua estréia dá-se com Magritte, o Espelho Vivo, em 1986, inspirado na obra de René Magritte, concebido para um espaço no Museu de Arte Contemporânea (MAC), utilizando parte das salas reservadas às Bienais, no Parque do Ibirapuera. A não-delimitação entre as linguagens empregadas cria a ambígua posição da obra entre teatro e performance. A crítica Mariangela Alves de Lima comenta o espetáculo: "Magritte, o Espelho Vivo, dialogava de modo original com a ilogicidade sugerida pela obra do artista belga. Mas associava à temática atemporal da psique profunda os recursos do vídeo e a alta definição corporal da performance. E foi especialmente notável, para um grupo iniciante, o acabamento técnico que se expressava por um trabalho coreográfico exigente e criativo e pela virtualidade que nada ficava a dever ao repertório surrealista consagrado".1

Sturm und Drang/Tempestade e Ímpeto, em 1991, é realizado no jardim da Casa Modernista, na Vila Mariana, abrindo-se no ambiente natural um discurso sobre os horizontes da criação poética.

Em 1995, Renato Cohen debruça-se sobre Vitória Sobre o Sol, segundo ele "uma recriação sobre repertórios do futurismo russo, nas obras de Velimir Khlébnikov, Maiakóvski, Malévitch e do místico Gurdjieff". Em 1997, concebe Ka-Poética, inspirado em Vélimir Khlébnikov, autor radical ligado às vanguardas russas do começo do século, com um novo grupo, denominado Ka. O trabalho foi concebido como "hipertexto épico" e produzido pelo Laboratório de Mídia da Unicamp. Ainda em 1997, avançando na pesquisa sobre as vanguardas históricas, cria Máquina Futurista, uma performance sobre arte e tecnologia, que integra a Mostra de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural. O grupo de Renato Cohen torna-se um dos primeiros grupos brasileiros a realizar performances - em tempo real - para audiência na rede. Na mesma ocasião, com pacientes psiquiátricos, encena Ueinzz, Viagem à Babel, experiência limite com não-atores.

O texto de Gertrud Stein Dr. Faustus Liga a Luz, encenado com o grupo Ka, constitui-se em nova experiência com os limites da linguagem, em 1999. No mesmo ano, retoma o trabalho com o grupo Ueinzz, originado na vivência com pacientes psiquiátricos, criando Dedalus, e, em 2001, realiza com eles Gothan São Paulo, ambos "apresentados poucos dias para o público paulistano, mas suportadas por uma investigação teórica que contribui para procedimentos terapêuticos e para o campo da arte-educação".2

Como autor, Renato escreve A Performance Como Linguagem, primeira incursão brasileira sobre o tema, em 1989 e, dez anos depois, publica Work in Progress na Cena Contemporânea, obra que analisa realizações de criadores de vanguarda, como também resgata as origens nas pesquisas das vanguardas históricas.

Fazendo um artigo por ocasião do súbito falecimento do artista, a crítica Mariângela Alves de Lima analisa a contribuição de Renato Cohen: "Duas tábuas e uma paixão não seriam suficientes para o diretor, professor e teórico Renato Cohen, morto há uma semana. Sua última criação, definida como a busca de 'novas arenas de teatralização' projetava-se em direção ao espaço combinando representações presenciais feitas no Brasil com outras emitidas de outros pontos do planeta. Sintonizando com a vanguarda do século 20 revia, a cada trabalho, as matrizes teóricas e os suportes materiais da representação. O tempo pretérito do verbo, aliás, parece especialmente inadequado para esse artista focado no devir da arte cênica".3

Notas
1. LIMA, Mariangela Alves de. Um teatrólogo focado no futuro. São Paulo, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25 out. 2003.

2. Idem.

3. Idem.



Atualizado em 16/06/2010