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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Celi, Adolfo (1922 - 1986)

Biografia
Adolfo Celi (Messina, Itália 1922 - Roma, Itália 1986). Diretor. Encenador italiano que chega ao Brasil nos anos 1950 para tornar-se o primeiro e mais bem-sucedido diretor artístico do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Permanece no Brasil até 1961, sendo um dos fundadores e mentores da Companhia Tônia-Celi-Autran (CTCA). Volta para seu país de origem, desenvolvendo profícua carreira como ator de cinema.

Forma-se em 1945 na Academia Nacional de Arte Dramática de Silvio D'Amico, onde é colega de futuras celebridades como Luigi Squarzina e Vittorio Gassman, e de Luciano Salce, que mais tarde será um de seus parceiros de trabalho no TBC.

Inicia sua carreira profissional como diretor, assistente de direção (de Luchino Visconti, entre outros), ator de teatro e de cinema. É participando de um filme com Aldo Fabrizzi, que viaja em 1948 para Buenos Aires e lá permanece após as filmagens, encenando uma versão de Antígone, de Sófocles, para o Teatro Experimental de Buenos Aires. Sendo indicado pelo cenógrafo Aldo Calvo a Franco Zampari, empresário que começa a implementar o TBC, é convidado a tornar-se diretor artístico da companhia, ainda em vias de profissionalização. Aos 27 anos, em janeiro de 1949, Celi desembarca em São Paulo para assumir a responsabilidade pesada de gerir artisticamente aquela que se tornará a companhia estável de maior importância na década de 1950 no teatro brasileiro.

Sua primeira realização paulista, também a primeira do elenco profissional que Zampari acaba de contratar, estréia em junho de 1949: Nick Bar...Álcool, Brinquedos, Ambições, de William Saroyan, já encenada por Celi na Itália, projeto piloto de um padrão que o TBC seguirá nos próximos anos: um texto interessante, capaz de fornecer interpretações marcantes, reunindo num ambiente levemente exótico um punhado de figuras humanas marcadas por alguma característica diferenciada. Nesse trabalho, dirige sua futura mulher, Cacilda Becker, primeira atriz profissional a ser contratada pela companhia. A repercussão serve de cartão de visitas ao evidente preparo técnico do jovem diretor, além de revelar sua tendência a um tratamento expansivo, teatral aos espetáculos que abraça. O grande trunfo da encenação, todavia, é a homogeneidade do elenco, hábil e correto nos desempenhos. Seguem-se, ainda em 1949, as direções de Arsênico e Alfazema, comédia americana de Joseph Kesselring, e Luz de Gás, um policial de Patrick Hamilton, última incursão da atriz Madalena Nicol no conjunto, cuja liderança fora abalada pela chegada de Celi.

Outro diretor italiano é contratado por indicação de Celi, Ruggero Jacobbi, e todos os espetáculos da temporada de 1949 são bem recebidos pelo público, resultando em um sucesso de bilheteria para o empreendimento.

O início de 1950 traz a primeira realização mais ambiciosa de Celi, Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, que alcança grande repercussão e polêmica, provocando reações adversas do Partido Comunista e da Cúria Metropolitana. Acompanha a montagem a comédia curta de Anton Tchekhov, Um Pedido de Casamento.

Intensamente envolvido na instalação da companhia cinematográfica Vera Cruz, em que dirige seu primeiro filme, Caiçara, roteiro de Alberto Cavalcanti, seu e de Ruggero Jacobbi, 1950 - só em 1951 Celi volta para o TBC, assinando um dos maiores êxitos da casa, Seis Personagens à Procura de Um Autor, de Pirandello, encenação de uma frenética teatralidade. A crítica enaltece o espetáculo, apesar de fazer restrições, novamente, à liberdade do diretor em relação ao texto, modificando o final, em que Cacilda Becker encontra-se às gargalhadas num balanço, rompendo uma tela de papel.

Em 1952, vem Para Onde a Terra Cresce, de Edgard da Rocha Miranda, espetáculo que já aponta um direcionamento mais voltado para o trabalho dos atores e menos aos efeitos, fracasso estrondoso de público. Segue-se outro projeto ambicioso: o de juntar num mesmo espetáculo duas Antígones, a de Sófocles e a de Jean Anouilh. O espetáculo rende três Prêmios Saci, um deles para a direção do espetáculo. Ainda em 1952, volta a dirigir para a Vera Cruz, com Tico-Tico no Fubá, produção sua e de Fernando de Barros, com Tônia Carrero - de quem mais tarde se torna marido e sócio - e Anselmo Duarte no papel de Zequinha de Abreu, um dos filmes de maior sucesso da frustrada experiência cinematográfica de Franco Zampari.

Em 1953, depois de dirigir para a companhia de Armando Couto e Ludi Veloso, Uma Mulher em Três Atos, de Millôr Fernandes, que ocupa o Teatro das Segundas-Feiras, horário experimental do teatro da Rua Major Diogo, Celi monta o seu segundo Pirandello, Assim É...(Se Lhe Parece), considerado por muitos críticos o melhor espetáculo até então produzido pela companhia, e um grande sucesso de bilheteria. Ainda no mesmo ano, dirige Uma Certa Cabana, boulevard de André Roussin, primeira peça de Tônia Carrero no elenco da companhia, já mostrando grande potencial de beleza e talento desta que rouba Adolfo Celi dos braços de Cacilda Becker, primeira atriz do conjunto: o espetáculo é sucesso imediato de bilheteria.

Em 1954, Celi assina uma comédia de Noel Coward, Uma Mulher do Outro Mundo, uma produção modesta, já revelando os sintomas de desgaste financeiro por que passa o TBC; e um clássico do romantismo brasileiro, Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, uma das suas encenações mais despojadas e vigorosas; e encerrando o ano, um drama policial, Assassinato a Domicílio, de Frederick Knott.

Em 1955, despede-se do TBC, salvando-o num momento de grave crise econômica, através do seu maior sucesso de bilheteria até então, Santa Marta Fabril S. A., o mais polêmico texto de Abílio Pereira de Almeida.

Ao lado de Franco Zampari e Cacilda Becker, Celi é uma das pessoas que mais contribuíram para fazer do TBC o que ele foi. Durante toda a primeira fase, é o principal responsável pela definição dos seus rumos artísticos, do seu repertório e estilo, pela formação dos seus atores e pelo aprimoramento do acabamento técnico das suas realizações. Em 1955, o declínio econômico da companhia, os conflitos internos de ordem pessoal e a natural ambição de estar à frente de um conjunto próprio o levaram a dar por encerrado o seu ciclo na casa, mudar-se para o Rio de Janeiro e fundar, junto com dois dos seus mais íntimos colaboradores, a Companhia Tônia-Celi-Autran (CTCA).

Antes do lançamento, Celi divulga um documento de 52 páginas, nomeando o repertório a ser realizado pelo conjunto nos anos seguintes - seleção de textos clássicos e modernos da dramaturgia universal -, e aponta suas diretrizes artísticas. Celi pretende diferenciar a qualidade do trabalho da CTCA através da dedicação ao trabalho do ator, cujo objetivo deve transcender o aspecto técnico para se tornar um instrumento de emoções. A companhia estréia no Teatro Dulcina, com uma ambiciosa direção de Celi: Otelo, uma das mais felizes realizações brasileiras de um texto de Shakespeare até então. Já nesse espetáculo coloca em prática seus princípios: a interpretação isenta de estrelismo, a importância preponderante do texto como fonte de pesquisa e busca de uma linguagem, a regularidade e a homogeneidade estética.

Otelo torna-se o acontecimento teatral mais importante de 1956, no Rio de Janeiro.

O alto nível é mantido nas direções subseqüentes do mesmo ano, A Viúva Astuciosa, de Carlo Goldoni, uma remontagem de Entre Quatro Paredes, de Sartre, seguidos de Dois a Dois, de Georges Neveux.

Em 1957, Celi dirige Frankel, de Antônio Callado, um dos fracassos da companhia; e Um Deus Dormiu Lá em Casa,  de Guilherme Figueiredo, nova versão da comédia que sete anos antes havia marcado a entrada de Tônia Carrero e Paulo Autran no teatro profissional. Ainda nesse ano, realiza Esses Maridos, comédia despretensiosa de George Axelrod.

O ano de 1958 inicia-se com A Ilha das Cabras, de Ugo Betti. Segue-se Calúnia, de Lillian Hellman, um grande êxito após uma série de espetáculos menos expressivos, permitindo um desafogo financeiro para a companhia. Primeira encenação profissional de Jean Tardieu no Brasil, Conversação Sinfonieta, abre o Teatro das Segundas-Feiras, espaço experimental que Celi implanta na CTCA, mostrando seu repertório de autores de vanguarda - Samuel Beckett, Michel de Guelderode, e o brasileiro Walmir Ayala, evento não muito acolhido pela crítica.

No rastro da nacionalização a sua companhia realiza um concurso de dramaturgia na busca de autores nacionais, encenando uma onerosa montagem de Olho Mecânico, de Antonio Carlos de Carvalho, primeiro lugar no edital, premiada juntamente com A Torre de Marfim, de Cleber Fernandes, que é levada à cena no ano seguinte, nova frustrada incursão na dramaturgia nacional. Fechando a temporada, Negócios de Estado, de Louis Verneuil, peça exumada do período tebecista, com um "arranjo cênico" - esqueleto de cenários de outras montagens -, de Napoleão Moniz Freire, sintomas da desestruturação da empresa.

A companhia segue no fim do ano para São Paulo a tempo de apresentar Natal na Praça, de Henri Ghéon - texto que fora encenado no Dulcina em 1957-, e ganhar prêmios com uma amostragem dos três espetáculos anteriores no mercado teatral paulista.

Em 1960, Dois na Gangorra, de William Gibson, se mantém em cartaz, resultando num sucesso razoável de público. Já em 1961, a companhia instaura um segundo concurso, cujo vencedor, Lisbela e o Prisioneiro, de Osman Lins, é dirigido por Celi e Carlos Kroeber. Efetiva uma remontagem de Arsênico e Alfazema, de Joseph Kesselring, e a sua despedida da companhia, que se desfará poucos meses depois, com Um Castelo na Suécia, de Françoise Sagan, na qual Celi está também em cena como ator. A essa altura, porém, a sua participação na CTCA já é menos intensa, e ele exerce paralelamente as funções de diretor do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

A partir do ano seguinte, a CTCA começa a se dissolver, enfraquecida por dissidências internas, pelas remontagens que tentam preencher as lacunas de seu planejamento e pelo descompasso de seu projeto em relação ao gosto do novo público e dos ares que sopram no Brasil da década de 1960. Desiludido, em 1961 Celi dá por encerrado o seu trabalho no Brasil e volta à Itália, onde construirá uma próspera carreira como ator de cinema.

Retornará ao Rio de Janeiro em 1978, a convite de Paulo Autran, para dirigir a comédia Pato com Laranja, inaugurando o Teatro Villa-Lobos, e ainda, para Tônia Carrero uma outra comédia, Teu Nome é Mulher, seu último trabalho no Brasil.

Na Itália, retoma seu ofício de ator e diretor de teatro e inicia carreira cinematográfica, com participação em filmes nacionais e estrangeiros como Este Mundo É dos Loucos, de Phillipe de Broca, 1966; Brancaleone nas Cruzadas, de Mario Monicelli, 1970; O Fantasma da Liberdade, 1974, de Luis Buñuel, e como o gângster Emílio Largo, o vilão em 007 Contra A Chantagem Atômica, de Terence Young, 1965. Em 1968, co-dirige O Álibi, com o prestigiado Vittorio Gassman.

Dando uma avaliação iluminada sobre as características vigorosas e violentas do trabalho de Adolfo Celi na cena, Décio de Almeida Prado escreve: "[...] Não se julgue, todavia, que a direção de Celi seja ao pé da letra ou pouco inspirada. Celi é também, a seu modo, como todo artista, um visionário, alguém que impõe aos outros a sua visão particular e poderosa das coisas. Mas o material com que lida não são tanto as idéias puras, as abstrações, como a pessoa física do ator, aquela presença humana, tangível, que se debate e sofre dentro de um quadro - o palco - não menos sólido e verdadeiro. Celi, como homem de teatro que é, antes de mais nada, parte do espetáculo, da realização viva e dramática, para o texto e, quando deforma, quando sonha, tende antes para o pesadelo, que se apresenta com todas as aparências angustiosas da realidade, do que para o devaneio lírico ou filosófico. Daí a força de suas encenações, esse condão de atrair e prender o público da forma mais direta e imediata, agarrando-o, por assim dizer, pelos cabelos".1

Notas
1. PRADO, Décio de Almeida. Seis Personagens a Procura de um Autor. Teatro em Progresso. São Paulo. Ed. Martins, 1964, p. 278.



Atualizado em 08/04/2011
 
 
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