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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Império, Flávio (1935 - 1985)

Biografia
Flávio Império (São Paulo SP 1935 - idem 1985). Cenógrafo, diretor, autor e diretor de arte. O mais respeitado e prestigiado cenógrafo de sua geração, pioneiro no entrelaçamento da arquitetura com a cenografia; reconhecido artista plástico e diretor de arte.

Forma-se em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo - USP em 1961. Inicia-se como cenógrafo e encenador no grupo amador Comunidade de Trabalho do Cristo Operário, em 1956. Para o Teatro de Arena faz a diagramação artística do programa de A Falecida Senhora Sua Mãe, de Georges Feydeau, com direção de Alfredo Mesquita, em 1957, marcando uma colaboração com este grupo que ganha impulso a partir de 1959, com a cenografia de Gente como a Gente, peça de Roberto Freire, com direção de Augusto Boal, seu primeiro trabalho profissional. Para o grupo experimental ligado ao Teatro Experimental Cacilda Becker, em 1960, cenografa Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

Em 1961, juntamente com Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, entre outros, apresenta à Bienal Internacional de São Paulo um projeto para a construção de um centro educacional, no Concurso Internacional para Escolas de Arquitetura; amigos que montam juntos ateliê e partilham outras atividades artísticas. Nesse ano, cria a cenografia e os figurinos de O Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis, um elogiado trabalho no Arena.

Em 1962, para o Teatro Oficina, cenografa Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, dirigido por Boal; e Todo Anjo É Terrível, de Ketti Frings, encenação de José Celso Martinez Corrêa, dois ambientes evocativos, misturando elementos realistas e poéticos, recebendo pelos dois trabalhos o Prêmio Saci de melhor cenografia.

Em 1963, para Melhor Juiz, o Rei, clássico de Calderón de la Barca, começa a experimentar sobre as propostas brechtianas, almejando uma síntese entre historicidade e teatralismo. O Filho do Cão, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Paulo José, de 1964, é apontada como a sua melhor e mais criativa solução para o espaço do Arena. No mesmo ano, para o Teatro Maria Della Costa - TMDC, cria um cenário inteiramente construtivista de grande efeito: Depois da Queda, texto de Arthur Miller dirigido por Flávio Rangel.

Uma mesmo princípio brechtiano percorre três trabalhos em seqüência: Andorra, no Oficina, encenação de José Celso Martinez Corrêa sobre texto de Max Frisch; A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, montado por José Renato para Ruth Escobar, ambos em 1964; e Os Inimigos, de Máximo Gorki, 1966, outra encenação de José Celso que redimensiona o realismo.

Em 1965, participa de Arena Conta Zumbi, de Boal e Guarnieri, um despojado ambiente cênico que serve os propósitos da obra, levando o Prêmio Governador do Estado de São Paulo; e Arena Conta Tiradentes, dos mesmos autores, de 1967, onde o sistema coringa é aprofundado e encontra, nas soluções cenográficas e na visualidade, amplo apoio de sustentação.

Flávio envolve-se em duas montagens polêmicas: Roda Viva, texto de Chico Buarque dirigido por José Celso Martinez Corrêa, 1968; e sua própria encenação de Os Fuzis da Mãe Carrar, de Bertolt Brecht, para o Teatro dos Universitários de São Paulo - TUSP, 1969. Em ambas se manifesta o ideário tropicalista. As propostas da nova objetividade - na agenda pictórica desde a exposição Opinião 65, no MAM/RJ - encontram aqui uma esplendorosa síntese: a derrisão dos rituais católicos, a crítica do vanguardismo, a síntese do figurativismo e a exploração do kitsch; colocando em primeiro plano a mensagem política.

Minucioso trabalho de síntese brechtiana ocorre em Jorge Dandin, encenação de Heleny Guariba para o Teatro da Cidade de Santo André, também em 1968 levando, novamente, o Prêmio Governador do Estado de São Paulo; assim como em Marta Saré, texto de Guarnieri, com montagem de Fernando Torres.

A partir de então, a imaginação cênica de Flávio ganha dois percursos paralelos: a realização de shows, onde pode voar imageticamente, criando espaços que beiram o onírico da brasilidade, em cores escandalosas e farto uso da iluminação tropical. São eles: Rosa dos Ventos: Show Encantado, com Maria Bethânia, 1971; A Cena Muda, com Bethânia, 1974; Doces Bárbaros, com os quatro baianos, em 1976; Pássaro da Manhã, novo solo de Bethânia, em 1977; Por um Beijo, com Célia, em 1978; Maria Bethânia, de 1979 e Estranha Forma de Vida, de 1981.

Na outra vertente, nascida de sua associação com Fauzi Arap, resultam os espetáculos dramáticos Pano de Boca, 1976, sendo mais uma vez premiado, e Um Ponto de Luz, 1977, premiado com o Saci e Governador do Estado de São Paulo com a Royal Bexiga's Company. Nesse conjunto, as convergências ficam na exploração das cores, nas temáticas ligadas à contracultura, soluções pós-tropicalistas conceituais e farto uso de panejamentos e papéis que, aos poucos, vão substituindo os materiais pesados, como madeira e ferro.

Para Flávio, "existe, em todas as épocas, uma espécie determinada de sonho para os que estão dormindo e de realidade para quando acordam. Quando você consegue, ainda que pela mascarada, aproximar o momento do repouso do momento da vida, tanto melhor. Então, que se durma acordado no teatro! Acho isso melhor do que chamar a atenção para a vida. Para isso existem os debates na televisão, esclarecimentos, grupos que pensam..."1

Soluções arquitetônicas de síntese estão em A Falecida, de Nelson Rodrigues, montado no Teatro Popular do Sesi - TPS, em 1979 e Patética, João Ribeiro Chaves Neto, direção de Celso Nunes em 1980.

Para Osmar Rodrigues Cruz, Flávio cenografa os musicais O Poeta da Vila e Seus Amores, de Plínio Marcos, em 1977, arrebatando o Prêmio Molière; Chiquinha Gonzaga, Ó Abre Alas, de Maria Adelaide Amaral, em 1983, recebendo os prêmios Mambembe e Apetesp; e O Rei do Riso, de Luís Alberto de Abreu, em 1985, oportunidades onde pode aliar uma desenfreada imaginação cênica às pesquisas sobre a visualidade brasileira, uma espécie de carnaval para comportar signos barrocos, neoclássicos e contemporâneos, alcançando resultados muito elogiados. É ele quem faz a decoração da Avenida Tiradentes, em 1984, passarela para o desfile das escolas de samba.

Nos balés Libertas Quae Sera Tamen, direção Iacov Hillel, 1981, e Absurdos ou os Doze Trabalhos de Flérsules, em 1984, novamente as propostas de brasilidade visual voltam a ser exploradas e alcançam expressivas soluções.

Amplamente reconhecido, Flávio morre pouco antes dos 50 anos; tendo entrelaçado a arquitetura e as artes plásticas, a cenografia e a direção de arte em inusitadas e renovadas perspectivas. É professor na Escola de Arte Dramática - EAD; na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP, e na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, além de roteirista de cinema, junto com Ruy Guerra, no filme Os Deuses e os Mortos.

Num depoimento, o arquiteto e artista plástico Sérgio Ferro afirma sobre Império: "Flávio era pintor, poeta, professor, homem de teatro e cinema também. Dizia que o arquiteto sustentava os outros. [...] Se o arquiteto sustentava os outros, todos os outros Flávios certamente embaraçaram o arquiteto. Eles sabiam o que é o pôr-se lá no fazer para se achar, embrenhar na matéria para perder a desconcertante ligeireza do ser, pensar fora do pensamento dado: tudo o que é arte, enfim. Eles experimentaram tudo isso bem demais para não sentir que a arquitetura 'normal' impede aos que a servem, os operários da construção. W. Morris dizia: a arte é a manifestação da alegria no trabalho. Os Flávios viveram esta alegria séria e sabiam que ela não mais visitava os canteiros desde a Renascença".2

Notas
1. IMPÉRIO, Flávio. Depoimento. In: KATZ, Renina; HAMBURGUER, Amélia. Flávio Império: artistas brasileiros. São Paulo: Edusp: Fapesp, 1999. p. 60.

2. FERRO, Sérgio. Flávio Arquiteto. In: Flávio Império em cena. São Paulo: SESC Pompéia, 1997. p. 98-101.



Atualizado em 21/05/2010
 
 
Veja nas
Enciclopédias
 
  artes visuais - artistas
  Artigas, Vilanova (1915 - 1985)
Ferro, Sérgio (1938)
Império, Flávio (1935-1985)
Katz, Renina (1925)

 
  artes visuais - termos e conceitos
  Arte Pop

 
  artes visuais - marcos da arte brasileira
  Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP)

 
  literatura - nomes
  Buarque, Chico (1944)
Melo Neto, João Cabral de (1920 - 1999)
Rangel, Flávio (1934 - 1988)
Rodrigues, Nelson (1912 - 1980)