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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Ratto, Gianni (1916 - 2005)

Biografia
Gianni Ratto (Milão, Itália 1916 - São Paulo SP 2005). Diretor e cenógrafo. É entre os diretores italianos contratados pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), responsáveis pela evolução da cena brasileira nos anos 1950, o que mais contribui entre todos, realizando uma série de encenações históricas, radicando-se no país e permanecendo entre nós até a atualidade.

Sua formação especializada inclui curso incompleto de arquitetura em Milão e cinema no Centro Experimental de Cinematografia em Roma. Faz cursos de artes plásticas no Liceu Artístico de Gênova. Estreia como cenógrafo em Electra e os Fantasmas, de Eugene O'Neill, em 1946, para a companhia Benassi-Torrieri. Em 1947, torna-se um dos fundadores do Piccolo Teatro de Milão, ao lado de Giorgio Strehler e Paolo Grassi. Ali desenvolve extenso trabalho de cenografia e indumentária durante sete anos. No mesmo período trabalha para o Teatro Scala, de Milão, sendo inclusive seu vice-diretor, ocasião em que integra importantes realizações, ao lado de Strehler, Karajan e Stravinski, entre outros. Participa, ainda, da fundação de conjuntos estáveis em Gênova, Torino e Firenze.

Em 1954, convidado por Sandro Polloni e Maria Della Costa, transfere-se para o Brasil e dirige O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, inaugurando o Teatro Maria Della Costa (TMDC), sede própria da companhia em São Paulo.

Confirmando seu prestígio na cena nacional é contratado, em 1956, pelo TBC, estreando com Eurydice, de Jean Anouilh, cujos papéis principais cabem a Cacilda Becker e Walmor Chagas.

Apesar dos elogios, o público não se entusiasma com a montagem. E a peça finaliza com um episódio grotesco, em que todos os elementos cênicos são queimados, por ordem do empresário Franco Zampari, num rompante de ira após um desentendimento pessoal com Ratto. Tendo de honrar o contrato com Gianni, o TBC transfere-o para o Rio de Janeiro, onde dirige, no Teatro Ginástico, Nossa Vida Com Papai, de Lindsay e Crouse, peça que ficou dez anos em cartaz na Broadway. Faz um sucesso estrondoso de público, e vem para São Paulo repetir o êxito carioca. A montagem serve, também, para confirmar o talento interpretativo de Fernanda Montenegro, apontado em A Moratória, no TMDC.

Vai a Salvador, em 1958, a convite do Teatro da Universidade Federal da Bahia, para o qual dirige As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, e O Tesouro da Chica da Silva, de Antônio Callado, provavelmente a primeira abordagem teatral da sensual heroína negra que mais tarde o cinema e os desfiles de carnaval tornam popular.

Transfere-se, então, para o Rio de Janeiro, associando-se a Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sergio Britto e Ítalo Rossi - que deixam o TBC - e fundam o Teatro dos Sete. A companhia estréia triunfalmente em 1959 com O Mambembe, de Artur Azevedo, que se torna marco na história do teatro brasileiro, alcançando sucesso de público e crítica.

Sempre sob a batuta de Ratto, o segundo espetáculo do Teatro dos Sete, em 1960, A Profissão da Senhora Warren, de Bernard Shaw, não alcança êxito semelhante ao do espetáculo de estréia. Em seguida a companhia investe em Cristo Proclamado, de Francisco Pereira da Silva, uma peça de denúncia, realista e panfletária, que revela a política da fome no sertão do Piauí. A montagem tem como proposta o palco inteiramente limpo. O público requintado do Copacabana Palace não entende essa "economia de meios" e, considerando o espetáculo pobre de recursos, não prestigia o empreendimento. Ainda em 1960, em Com a Pulga Atrás da Orelha, de George Feydeau, a companhia recupera o sucesso e o espetáculo faz longa carreira, confirmando a tese de que a bilheteria não responde à profundidade do texto encenado. Em 1961, depois de Apague Meu Spotlight, comédia de Jocy de Oliveira, a equipe monta O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, e, pela primeira e única vez, Gianni Ratto não assina a encenação. Seguem-se Festival de Comédia, uma montagem premiada de três peças curtas: Os Ciúmes de Um Pedestre, de Martins Pena; O Médico Volante, de Molière, e O Velho Ciumento, de Miguel de Cervantes. Em 1962, é a vez de O Homem, A Besta e a Virtude, de Luigi Pirandello.

A partir de 1963, as produções da companhia se tornam esparsas, com apenas uma montagem anual. Mirandolina, de Goldoni, em 1964, é a última direção de Gianni Ratto para o Teatro dos Sete, que encerra suas atividades em 1965.

Em 1966 é convidado a realizar sua segunda encenação de um texto de Jorge Andrade, Rasto Atrás, para a companhia oficial Teatro Nacional de Comédia (TNC), alcançando unanimidade crítica jamais usufruída por esse conjunto.

Acompanhando as mudanças estruturais que perpassam o teatro brasileiro, envolve-se com o movimento de nacionalização, colaborando com o Grupo Opinião, em 1966, onde monta Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, uma das peças-símbolo do movimento de resistência.

Seguem-se uma participação no Teatro Cacilda Becker (TCB), Isso Devia Ser Proibido, texto em que Walmor Chagas testa-se como autor, escrevendo, em parceria com Bráulio Pedroso, em que também é ator ao lado de Cacilda em 1967; e Dura Lex, Sed Lex, no Cabelo Só Gumex, de Oduvaldo Vianna Filho, 1968.

Funda o Teatro Novo, uma companhia e escola de dança e teatro, reformando inteiramente o Teatro República. Apesar do amplo projeto de atividades, a companhia consegue levar apenas dois espetáculos: Ralé, de Máximo Gorki, 1968, e Ubu Rei, de Alfred Jarry, 1969, após acidentada fase de produção que inclui o fechamento do teatro, pela polícia política, e a conseqüente mudança para São Paulo, onde o espetáculo estréia.

Em 1972, dirige para Maurício e Beatriz Segall, pelo Theatro São Pedro, O Casamento de Fígaro, de Beaumarchais, compondo um elenco misto entre atores negros e brancos; e A Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade, de Tankred Dorst.

Em 1975, põe em cena Gota d'Água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, montagem associada ao teatro de resistência, com Bibi Ferreira como protagonista.

Encena O Grande Amor de Nossas Vidas, de Consuelo de Castro, produzida em São Paulo em 1979 e, no Rio, em 1980, texto que apresenta um pioneiro estudo dramático sobre os ranços reacionários e autoritários da pequena classe média.

Em 1981, dirige um dos bons textos de João Bethencourt, A Venerável Madame Goneau, no Teatro Paiol, e, em 1982, A Eterna Luta Entre O Homem e A Mulher, de Millôr Fernandes, no Teatro Clara Nunes. Faz uma versão de Drácula, de Hamilton Deanne, com Sérgio Mamberti, 1986. Em O Amante de Mme. Vidal, de Louis Verneuil, 1988, dirige, cenografa e ilumina, ainda rendendo uma ótima atuação para Renato Borghi. Em 1993, volta a chamar a atenção dirigindo Porca Miséria, de Marcos Caruso e Jandira Martini, fenômeno estrondoso de bilheteria. Em 2001, é o curador do Formação de Público, selecionando os textos e diretores que formam o projeto da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que visa oferecer um Panorama da Dramaturgia Nacional para leigos.

Gianni Ratto é, também, um dos cenógrafos mais conceituados e com ficha extensa de participações em espetáculos importantes, arrebatando uma série de prêmios nessa categoria. Entre os diretores e grupos com quem colabora estão: Ruggero Jacobbi, em Mirandolina, pelo TPA, em 1955; Ziembinski, em O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, e Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite, de Eugene O'Neill, ambos em 1958, como também César e Cleópatra, de Bernard Shaw, 1963, todos pelo TCB, Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, pela Companhia Brasileira de Comédia, 1960, e O Santo Inquérito, de Dias Gomes, 1966; Augusto Boal e o Teatro de Arena, em A Dança dos Toreadores, 1958; Ivan de Albuquerque, no Teatro do Rio, em Diário de um Louco, 1964; João das Neves, com o Grupo Opinião, em A Saída, Onde Fica a Saída, 1967; Paulo Afonso Grisolli, em Por Mares Nunca Dantes Navegados, 1972; Fernando Peixoto, em Frank V, de Dürrenmatt, 1973, Caminho de Volta, de Consuelo de Castro, 1973. Ponto de Partida, de Gianfrancesco Guarnieri, 1976, e Paulo José, em Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, 1978, os três últimos com a Othon Bastos Produções Artísticas. O diretor para quem mais cenografa é Flávio Rangel, com uma contribuição de mais de dez espetáculos, dentre eles: Abelardo e Heloisa, 1971, A Capital Federal, de Artur Azevedo, 1972, Dr. Fausto da Silva, de Paulo Pontes, 1973, Pippin, de Hirson e Shwarts, 1974, Mumú, A Vaca Metafísica, de Marcílio Moraes, 1975, O Rei de Ramos, 1979, e Vargas, ambos de Dias Gomes, 1983, Piaf, de Pam Gems, 1983, Freud - No Distante País da Alma, de Henry Denker, e Negócios de Estado, de Verneuill, 1984, e Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, 1986.

Escreve A Mochila do Mascate, publicado em 1966, livre biografia sobre sua vida e obra, além de reflexões sobre artes e artistas que cercaram a sua trajetória profissional, e Antitratado de Cenografia, em 1999.

Gianni Ratto é um homem de teatro completo. Integrante da primeira geração de encenadores no Brasil é, como foi Ziembinski, um estrangeiro que se torna indiscutivelmente brasileiro, sendo o italiano que mais contribui numérica e ideologicamente para a evolução do nosso teatro. Cabeça de geração, atuante em todos os períodos desde a década de 50, é um dos poucos encenadores que acumulam função, cenografando para suas próprias montagens, como também para outros diretores, sendo bem-sucedido em ambas as categorias. Nascido no começo do século XX continua ativo e atuante, sábio e generoso para com os mais novos, consultado e respeitadíssimo pelos mais velhos. Prefaciando o seu livro de memórias, o crítico Sábato Magaldi afirma: "Ninguém, como ele, se associou de forma tão consciente e conseqüente à dramaturgia brasileira. [...] Gianni lançou A Moratória de Jorge Andrade, um ano após sua chegada a São Paulo. E, a partir daí, estabeleceu como meta preponderante a valorização do nosso autor, base de uma desejada identidade cênica. [...] Seguiram-se várias montagens, em épocas diversas, que tiveram, ao lado do mérito artístico, o de revelar aspectos fundamentais da nossa realidade. [...] Todas elas imbuídas do propósito de servir bem ao autor, colaborando de forma decisiva na construção do nosso teatro. Só essas virtudes, sem necessidade de mencionar nada mais, asseguram para Gianni Ratto o crédito de uma imensa gratidão do país".1

Notas
1. MAGALDI, Sábato: prefácio In: RATTO, Gianni: A Mochila do Mascate, São Paulo, Ed. Hucitec, 1996.



Atualizado em 11/07/2011
 
 
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Enciclopédias
 
  artes visuais - artistas
  Gullar, Ferreira (1930)

 
  literatura - nomes
  Gullar, Ferreira (1930)
Rangel, Flávio (1934 - 1988)
Suassuna, Ariano (1927 - 2014)

 

 
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  Instituto Gianni Ratto