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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Rocha, Glauce (1933 - 1971)

Biografia

Glauce Eldé Ilgenfritz Corrêa de Araújo Rocha (Campo Grande MT 1933 - São Paulo SP 1971). Atriz. Musa dos anos 60 por seu estilo e personagens que interpreta no teatro, no cinema e na televisão, Glauce Rocha atravessa duas gerações de criadores. Trabalha sob a direção dos renovadores dos anos 40 e 50 - Ziembinski, Flaminio Bollini, Adolfo Celi - e se engaja no projeto dos novos encenadores - Ademar Guerra, Antunes Filho, Antônio Abujamra, Fauzi Arap. Com forte consistência intelectual, a profissão de atriz não lhe supre inteiramente, levando-a a desenvolver a direção, a produção, a dramaturgia e a crítica em sua vida artística.

Começa a atuar em Abertura de um Testamento, texto e direção de José Maria Monteiro, em 1951. Faz figuração em uma peça de Alda Garrido, Madame de Sans Gène, de Victorien Sardou e Émile Moreau, dirigida por Esther Leão, em 1952. No mesmo ano, ingressa no Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno. Seu desempenho em João Sem Terra, de Hermilo Borba Filho, lhe vale uma carta entusiasmada do diretor de teatro Renato Viana, que exalta seu talento. Trabalha no teatro infantil e começa também a fazer cinema.

Seu primeiro papel de destaque, já em 1953, é ao lado de Alda Garrido em Dona Xepa, de Pedro Bloch. É dirigida por Jaime Costa, em É Agora Suzana, de Ladislau Fodor, em 1955. No ano seguinte, atua sob a direção de Ziembinski, na temporada carioca de Divórcio para Três, de Victorien Sardou, originalmente montada pelo Teatro Brasileiro de Comédia, TBC, em 1953. Em 1957, atua em duas peças de Eugène Ionesco, realizações de Luís de Lima: A Lição, e A Cantora Careca. Seu primeiro prêmio vem em 1958, com Moral em Concordata, de Abílio Pereira de Almeida, com direção de Flaminio Bollini.

Durante dois anos atua nos espetáculos do Teatro Nacional de Comédia, TNC, em que protagoniza A Beata Maria do Egito, de Rachel de Queiroz, 1959, As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, 1960, como a personagem Olga, e Não Consultes Médico, de Machado de Assis (1839 - 1908), 1960, como D. Leocádia.

Em 1960, atua no Pequeno Teatro de Comédia como protagonista de Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams, sob direção de Ademar Guerra - pelo qual recebe o prêmio de melhor atriz da Associação Paulista de Críticos Teatrais, APCT - e em Plantão 21, de Sidnei Kingsley, direção de Antunes Filho.

Participa de montagens do Grupo Decisão, com direção de Antônio Abujamra - Terror e Miséria no III Reich, de Bertolt Brecht, 1963; e Electra, de Sófocles, 1965. O crítico Yan Michalski observa, a respeito de seu desempenho na cena em que a protagonista trágica recebe a urna contendo as cinzas do irmão, que "a atriz atinge um nivel de inspiração excepcionalmente elevado e projeta sua emoção para a platéia com um impacto impressionante".1

Em 1964 é dirigida por Rubens Corrêa em Além do Horizonte, de Eugene O'Neill; e À Margem da Vida, de Tennessee Williams. Para Glauce, o papel mais difícil que viveu foi o de GH, extraído do romance de Clarice Lispector (1925 - 1977), A Paixão Segundo GH, no espetáculo Perto do Coração Selvagem, primeira direção de Fauzi Arap, em 1965. A autora escreve sobre a interpretação da atriz:

"Como explicar o que aconteceu no palco? (...) A GH surgiu de rosto nu e exposto no palco. A voz falava de uma profundidade que me fez entender então ainda mais o que GH significava para mim. Os gestos de Glauce eram sóbrios, no entanto ela vibrava. E eu, sentada na platéia, fui obrigada a me respeitar: Glauce Rocha tinha feito isso por mim".2

Em 1968, no Teatro Jovem, interpreta a protagonista de Um Uísque pra Rei Saul, de César Vieira, sob a direção de B. de Paiva, que lhe vale o Prêmio Molière de melhor atriz. Em 1969, atua em O Exercício, de Lewis John Carlino, com o mesmo diretor, segundo o crítico Sábato Magaldi, um "magnífico desempenho", ao lado de Rubens de Falco, conquistando em São Paulo o Prêmio Governador do Estado.

No cinema, atua em Terra em Transe, 1967, Navalha da Carne, 1969, entre outros 25 filmes. Segundo a crítica Mariângela Alves de Lima, Glauce Rocha atinge, na interpretação da prostituta Neusa Sueli, uma "singular construção reducionista", economizando na configuração do trágico: "É incapaz de esboçar gestos à altura das violências que a atingem. O rosto, encoberto pelo cabelo em desalinho e a voz que não tem força para o grito, que, ao contrário, se reduz a um murmúrio quando o sofrimento se intensifica, reforçam a idéia de que há sempre um degrau mais baixo nesse calvário de humilhação. Glauce percorre, enfim, o caminho inverso ao da progressão dramática, retirando camadas de vitalidade da sua personagem até conduzi-la ao impressionante mutismo final".3

Glauce morre precocemente, de enfarto fulminante, aos 38 anos de idade, em 1971, recebendo um Prêmio Molière póstumo, pelo conjunto de trabalhos.

Notas

1. MICHALSKI, Yan. Electra. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 abr. 1965.

2. LIMA, Mariângela Alves de. Ela expressava a inquietação de várias gerações de artistas. O Estado de S. Paulo, São Paulo,  5 maio 1998.

3. ROCHA, Glauce, Citado por ABREU, Brício de. Um uísque para o Rei Saul (I). O Jornal, Rio de Janeiro, 21 maio 1968.

4. LISPECTOR, Clarice. Citado em ROCHA, Glauce. Dossiê Personalidades Artes Cênicas. Rio de Janeiro: Funarte / Cedoc.



Atualizado em 25/05/2010
 
 
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