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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Machado, Maria Clara (1921 - 2001)

Biografia
Maria Clara Jacob Machado (Belo Horizonte MG 1921 - Rio de Janeiro RJ 2001). Autora, diretora, professora e atriz. Aos 15 anos, entra para o movimento bandeirante e descobre sua vocação para o teatro. No começo da década de 1940, dedica-se ao teatro de bonecos, base de seu aprendizado teatral. Em 1949, participa da criação do grupo amador Os Farsantes, que monta a peça A Farsa do Advogado Pathelin, apresentada em curta temporada no Teatro de Bolso, no Rio de Janeiro.

Entre o fim de 1949 e início de 1950, recebe uma bolsa do governo francês e frequenta, em Paris, cursos de formação de ator na Education Par les Jeux Dramatiques (E.P.J.D.), do ator francês Jean-Louis Barrault (1910 - 1994). Convidada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), faz nas férias um curso de teatro em Londres. De volta ao Brasil, integra o elenco do filme Ângela, 1951, direção do argentino Tom Payne (1914 - 1996) e do dramaturgo Abílio Pereira de Almeida (1906 - 1977), produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Em 1951, funda o grupo de teatro amador O Tablado, com amigos e intelectuais que se reúnem na casa de seu pai, o escritor Aníbal Machado (1894 - 1964). Na estreia, dirige a peça O Pastelão e a Torta, de Michel Richard e R. Burguiard, atua em O Moço Bom e Obediente, com direção de Martim Gonçalves (1919 - 1973), e protagoniza A Moça da Cidade, espetáculo de mímica. Volta a Paris em 1952 e frequenta o curso de mímica do ator Étienne Decroux (1898 - 1991).

Dirige O Boi e o Burro a Caminho de Belém, em 1953, seu primeiro texto para o público infantil. Escreve e monta Pluft, o Fantasminha, em 1955, considerada uma de suas melhores peças. No ano seguinte inicia a publicação dos Cadernos de Teatro. Cria o curso regular de teatro do Tablado em 1964 e o coordena até 1999. Ensina improvisação no Conservatório Nacional de Teatro (atual Escola de Teatro da Unirio), de 1959 a 1974, e é diretora da escola em 1967.

Escreve 27 peças para o público infantil e cinco para adultos, entre 1953 e 2000. Dedicadas ao público infantil, além das já citadas, destacam-se A Bruxinha que Era Boa, 1958; O Cavalinho Azul, 1960; Maroquinhas Fru-Fru, 1961; A Menina e o Vento, 1963; Tribobó City, 1971; O Dragão Verde, 1984; Jonas e a Baleia, 2000, sua última obra, escrita em parceria com Cacá Mourthé (1959), sua sobrinha. Nos anos 1960 e início de 1970, revela-se como autora de peças para o teatro adulto. São encenadas As Interferências, 1966, Miss Brasil, 1970, Os Embrulhos, 1970, e Um Tango Argentino, 1972. Esta peça pode, segundo a autora, ser classificada como teatro juvenil, o mesmo ocorrendo com A Menina e o Vento e O Dragão Verde.

Em 1981, substitui a atriz Henriette Morineau (1908 - 1990) em Ensina-me a Viver, de Collin Higgins. Sua última atuação ocorre em Este Mundo É um Hospício, de Joseph Kesselring, em 1985, espetáculo que também dirige. Nos anos 1990, entrega a direção de suas peças a Cacá Mourthé, que encena Passo a Passo no Paço, em 1992, A Coruja Sofia e Por um Fio, em 1994, A Bela Adormecida, em 1996, Jonas e a Baleia, em 2000.

Comentário Crítico
A obra teatral de Maria Clara Machado está intimamente ligada à trajetória de O Tablado. Para o grupo amador, fundado em 1951, a autora desenvolve uma dramaturgia própria e pioneira, que revela sua importante contribuição na série de transformações e inovações introduzidas no teatro para crianças, a partir de 1950, em consonância com as mudanças por que passa a atividade teatral no Brasil.

Segundo a pesquisadora Claudia de Arruda Campos, com o sucesso, em 1948, de O Casaco Encantado, de Lucia Benedetti (1914 - 1998), medidas oficiais de incentivo ao teatro para crianças são propostas, inserindo essa área no processo de modernização cultural que está em curso no país. Em 1952 é instituído o Concurso Anual de Peças Infantis da Prefeitura do Distrito Federal, destinado a premiar anualmente as três melhores peças inéditas.1

Em 1953, Maria Clara ganha o 1º prêmio pela autoria de sua segunda peça, O Rapto das Cebolinhas, história que conta o roubo das cebolinhas mágicas da horta do coronel Felício, misto de agricultor e cientista distraído. A peça destaca-se pelo domínio da construção dramática, temática contemporânea próxima do cotidiano, simplicidade e eficiência da linguagem.

Para a pesquisadora Maria Helena Kühner (1933), "toda vez que se fala em teatro infantil brasileiro, surge necessariamente, como marco, um antes e depois de Maria Clara Machado e O Tablado". Maria Helena define a obra teatral da autora como uma "uma guinada da maior importância", caracterizada não só por suas inovações formais, mas por definir a criança "a partir dela mesma, de sua experiência, sua psicologia, sua linguagem. Representa não mais acatar passivamente valores instituídos ou estabelecidos, relações verticais de 'autoridade' e 'respeito', noções prefixadas sobre toda e qualquer coisa - até sobre o bem e o mal".2 Nas palavras do crítico de teatro Décio de Almeida Prado (1917 - 2000): "Maria Clara não diz, não descreve teoricamente como são as crianças; faz uma coisa mais difícil: mostra-as em ação diante dos nossos olhos, como uma realidade que é poética por ser tão depurada, tão simples e verdadeira".3

O texto de Maria Clara Machado é pensado em função da cena, do espetáculo que dele resulta, ressalta Claudia Campos. É um teatro sem pretensões literárias que busca assumidamente o caminho dos sentidos. Não é um "teatro-texto", mas ao incluir "em seu arsenal os recursos da palavra, um 'teatro-espetáculo', o que, entre outras coisas, quer dizer que a leitura da peça infantil precisa, necessariamente, dar grande peso às rubricas e, mais, ir além das rubricas, brincando um pouco com as possibilidades cênicas de cada recurso". Nesse sentido, o teatro-espetáculo pode utilizar, de maneira controlada ou desmedida, um conjunto equilibrado de efeitos articulados à palavra, e até mesmo dispensá-la ou substituí-la por algum recurso de cena equivalente.4

Pluft, o Fantasminha recebe os prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Teatro (APCT) de melhor autor e melhor espetáculo, em 1956. No mesmo ano obtém o Prêmio Saci de teatro, do jornal O Estado de S. Paulo. O texto, baseado em uma pequena intriga policialesca, conta com humor lírico e muita magia, a amizade que surge entre uma menina e um fantasma. O tema construído durante a narrativa é a possibilidade de se vencer o medo. Décio de Almeida Prado observa que os jogos de cena, habitualmente trabalhados na direção, aparecem incorporados ao texto e conclui ser impossível saber até onde vai a autora e onde começa a encenadora.5

Algumas de suas peças, criadas com base em roteiros desenvolvidos nos ensaios por meio de improvisações, têm sua origem em um elemento visual capaz de servir de eixo de toda a construção. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) visualiza essa possibilidade durante o espetáculo A Menina e o Vento, em 1963: "O espetáculo não se desenrola: gira, rodopia e 'ventarola' no palco, quando não é guindado ao céu e lá fica pairando, por artes do vento".6

Em 1966, Maria Clara encena a primeira peça de sua autoria para adultos: As Interferências, na qual famílias hospedadas em um hotel de veraneio ouvem rádios que começam a emitir interferências irritantes. Yan Michalski (1932 - 1990) considera ser essa a primeira peça brasileira satisfatoriamente realizada dentro do conceito do teatro do absurdo. O trabalho desenvolvido no campo da dramaturgia infantil propicia à autora o domínio das "bases da construção dramática, os critérios de uma verdadeira linguagem cênica e, talvez antes de mais nada, a eficiência dos símbolos".7

Ao iniciar o curso regular de teatro de O Tablado, em 1964, Maria Clara procurar dar ênfase à prática teatral. Suas aulas são dinâmicas e por vezes ritmadas com a marcação de um tambor. Trabalha gestual, mímica e realiza exercícios dramáticos com os atores preparando-os para expressar sentimentos e emoções. Nos espetáculos de fim de ano, o aluno entra em contato direto com o público, vive a emoção de uma estreia e se envolve na elaboração de cenários, figurinos, sonoplastia, luz etc. O cuidado na formação dos atores tabladianos permite a criação de uma linguagem cênica que privilegia a dicção, a limpeza de movimentos em cena, a composição de personagens e o bom acabamento das produções.

Para Maria Clara, o fundamental é que o ator aprenda a ter consciência de trabalho de equipe e a noção do espetáculo como um todo. Suas montagens, além de ágeis, movimentadas e coloridas, possuem acabamento impecável. Carlos Drummond de Andrade constata: "Clara revelou-se autora e diretora da mais alta qualidade estética: a imaginação".8

Yan Michalski comenta que, apesar da maneira de trabalhar fantasiosa e aparentemente desprovida de método, Maria Clara se revela uma pessoa profundamente didática. Seu repertório de técnicas, truques e macetes pode não bastar para fazer um bom ator, mas permite a qualquer ator resolver diversos problemas básicos.9 Parte de seus ensinamentos, como professora de teatro no Tablado, está registrada no livro 100 Jogos Dramáticos, escrito em parceria com Marta Rosman (1920).

As melodias natalinas, sugeridas pela autora no mistério de Natal O Boi e o Burro no Caminho de Belém, indicam claramente o interesse em dar à música um papel de destaque em suas peças. Em 1960, o crítico de teatro Walmyr Ayala (1933 - 1991) parabeniza a música composta por Reginaldo de Carvalho (1932) para O Cavalinho Azul.10 Maria Clara escreve as letras das músicas que o compositor Carlos Lyra (1939) produz especialmente para Maroquinhas Fru-Fru, 1961, texto que também serve de inspiração para o compositor Ernst Mahle (1929) criar uma ópera infantil, em 1974, com os 13 personagens formando o coro, orquestra de cordas, quinteto de sopros e percussão. E estreia, em 1971, a comédia musical em um ato Tribobó City, um dos maiores sucessos de sua obra, com música e direção musical do compositor Ubirajara Cabral (1940).

Notas
1. CAMPOS, Claudia de Arruda. Maria Clara Machado. São Paulo: Edusp, 1998. p. 70.

2. KÜHNER, Maria Helena. O teatro infantil: antes e depois. SÜSSEKIND, Flora (Org.). Dionysos. O Tablado. Rio de Janeiro: MinC: Inacen, n. 27, 1986, p. 72.

3. PRADO, Décio de Almeida. Pluft, o fantasminha. Teatro em progresso: crítica teatral (1955-1964). São Paulo: Martins, 1964. p. 29.

4. CAMPOS, Claudia de Arruda. Maria Clara Machado. São Paulo: Edusp, 1998. p. 20.

5. PRADO, Décio de Almeida. Pluft, o fantasminha. Teatro em progresso: crítica teatral (1955-1964). São Paulo: Martins, 1964. p. 27.

6. ANDRADE, Carlos Drummond de. A menina e o vento. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 set. 1963.

7. MICHALSKI, Yan. Tablado sopra quinze velas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17 jul. 1966.

8. ANDRADE, Carlos Drummond de. Tablado, ontem e hoje. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 jan. 1977.

9. MICHALSKI, Yan. Dionysos. O Tablado. Rio de Janeiro: MinC: Inacen, n. 27, 1986, p. 227.

10. AYALA, Walmir. Dionysos. O Tablado. Rio de Janeiro: MinC: Inacen, n. 27, 1986, p. 179.



Atualizado em 19/05/2011
 
 
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  Andrade, Carlos Drummond de (1902 - 1987)