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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Costa, Maria Della (1926)

Biografia
Gentile Maria Marchioro (Flores da Cunha RS 1926). Atriz e produtora. Intérprete de rara beleza que desponta nos palcos dos anos 1940, musa e mentora de uma das primeiras companhias modernas, o Teatro Popular de Arte, que no futuro levará seu nome, como companhia Teatro Maria Della Costa.

Estréia, ainda adolescente, no Rio de Janeiro, na companhia de Bibi Ferreira, em A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, 1944. Paralelamente, sobrevive do trabalho em shows de cassinos e em desfiles de moda. Nesse período é orientada por Fernando de Barros, produtor e seu primeiro marido. De 1945 a 1946 estuda teatro no Conservatório Dramático de Lisboa. Na volta, ingressa no elenco de Os Comediantes, onde estréia, sob a direção de Ziembinski, em A Rainha Morta, de Henry de Montherlant, 1946, fazendo o papel principal de Inês de Castro e chamando a atenção para a sua notável beleza. Neste espetáculo acontece o seu decisivo encontro com Sandro Polloni, que também participa do elenco, e que se torna, pouco depois, seu marido, sócio, mentor e administrador da sua carreira. Ainda com Os Comediantes, faz Não Sou Eu, de Edgard da Rocha Miranda, e Terras do Sem Fim, adaptado da obra de Jorge Amado, 1947. Em 1948, Sandro Polloni e Maria Della Costa fundam sua companhia própria, o Teatro Popular de Arte - TPA, que logo se impõe através de espetáculos ambiciosos e polêmicos, como Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, e Lua de Sangue (título dado a Woyzeck), de Georg Büchner, 1948, ambos dirigidos por Ziembinski. Em todos os espetáculos, a jovem protagonista e dona da companhia mostra um progressivo amadurecimento da sua arte e procura superar a imagem, que tende a cercá-la nessa fase inicial da sua carreira, de atriz prestigiada mais pela beleza do que pelo talento. A companhia, que valoriza o conjunto dos artistas e não se fecha na personalidade da atriz, percorre o interior do sul e do norte do país.

Em 1951, a atriz tem uma passagem pelo Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, para apenas um espetáculo, Ralé, de Máximo Gorki, direção do italiano Flaminio Bollini. Nessa época, Maria e Sandro já se dedicam à construção da sua sede própria, o Teatro Maria Della Costa, uma das melhores salas de São Paulo, e que durante cerca de um quarto de século hospeda as atividades de sua companhia, por sua vez rebatizada para Teatro Maria Della Costa - TMDC. Para a produção inaugural, em 1954, é trazido da Itália o diretor e cenógrafo Gianni Ratto, que realizará, com O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, um espetáculo de extremo requinte e beleza plástica, em que Maria Della Costa, no papel de Joana D'Arc, alcança o primeiro dos pontos altos de sua carreira.

Em 1956, volta a protagonizar três espetáculos criados por Flaminio Bollini: A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca; Rosa Tatuada, de Tennessee Williams; e Moral em Concordata, de Abílio Pereira de Almeida. Segue-se uma longa e consagrada visita a Lisboa, com parte do repertório montado pela companhia e, um pouco depois, outra e igualmente bem-sucedida visita a Montevidéu.

Em 1958, Bollini é trazido de volta da Itália para dirigir a primeira montagem profissional brasileira de uma peça de Bertolt Brecht: A Alma Boa de Set-Suan. O marcante desempenho da atriz no papel duplo de Chen-Te e Chui-tá faz críticos como Décio de Almeida Prado considerarem que Maria Della Costa tem uma vocação especial para os papéis populares, uma vez que neles podem brilhar as características mais fortes de sua interpretação - a franqueza e inocência - além de "sua flama, uma certa humanidade simples e direta que ela possui como ninguém".1 Em 1959, Maria e Sandro Polloni confiam a um jovem e desconhecido diretor, Flávio Rangel, a responsabilidade de montar um espetáculo complexo, Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri. É mais um destacado trabalho da atriz. Gimba acaba sendo o primeiro espetáculo brasileiro convidado a apresentar-se no Festival do Teatro das Nações, em Paris, onde, curiosamente, ganha o prêmio destinado ao melhor trabalho folclórico. Maria e sua companhia aproveitam a viagem para mostrar o seu repertório também em Madri, Roma e Lisboa. Na capital portuguesa conseguem, inclusive, a liberação pela censura local de A Alma Boa de Set-Suan, até então proibida. Na volta, em 1962, Maria protagoniza, com direção de Maurice Vaneau, O Marido Vai à Caça, de Georges Feydeau. Em 1964, volta a chamar Flávio Rangel para montar um dos seus maiores sucessos, Depois da Queda, de Arthur Miller. Depois de Homens de Papel, de Plínio Marcos, 1967, volta a trabalhar com Flávio, em Tudo no Jardim, de Edward Albee, 1969.

Um vigoroso desempenho em Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, 1973, na bela encenação de Antunes Filho, talvez seja o ponto final da fase mais intensa do trabalho de Maria Della Costa e do TMDC. Desde então, ela freqüenta o palco com menor assiduidade; sobretudo a partir do momento em que ela e Sandro Polloni passam a dividir seu tempo entre o teatro e o hotel que fundam em Parati; e mais ainda a partir do momento em que a crise econômica os obriga a desfazerem-se da sua casa de espetáculos. Nos anos 1980, atua, entre outros, em Motel Paradiso, de Juca de Oliveira, direção de José Renato, 1982; Alice que Delícia, de Antônio Bivar, dirigido por Odavlas Petti, 1987; e Temos de Desfazer a Casa, de Sebastián Junyent, com direção de Marcio Aurelio, 1989.

Esculpida duas vezes por Victor Brecheret, é também retratada por Di Cavalcanti e Djanira.

O crítico Yan Michalski destaca a firmeza de sua trajetória: "Vinda de origens modestas, e tendo de lutar pela sobrevivência desde muito cedo, Maria Della Costa firmou-se como uma exemplar trabalhadora do palco. Ajudada, inicialmente, pela sua excepcional beleza, empenhou-se incansavelmente em adquirir conhecimentos e conquistar espaços de atuação necessária para impor seu talento, que nos seus desempenhos mais destacados acabou aparecendo com grande brilho. A fibra que demonstra em cena é a mesma que caracteriza o seu trabalho de empresária, capaz de brigar valentemente pela construção do seu teatro, e levar seus espetáculos a platéias distantes, em excursões não raras vezes realizadas em condições quase heróicas".2

Notas
1. PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso. São Paulo: Ed. Perpectiva, 2002, p.99.

2. MICHALSKI, Yan. Maria Della Costa. In:_________. PEQUENA Enciclopédia do Teatro Brasileiro Contemporâneo. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq. Rio de Janeiro, 1989.



Atualizado em 11/06/2010
 
 
Veja nas
Enciclopédias
 
  artes visuais - artistas
  Brecheret, Victor (1894 - 1955)
Di Cavalcanti (1897 - 1976)
Djanira (1914 - 1979)

 
  literatura - nomes
  Macedo, Joaquim Manuel de (1820 -1882)
Rangel, Flávio (1934 - 1988)