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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Pêra, Marília (1943)

Biografia
Marília Soares Pêra (Rio de Janeiro RJ 1943). Atriz. Intérprete virtuosística, Marília Pêra atua via de regra em musicais em que explora seu talento e a técnica desenvolvidos para o canto e a dança. A vitalidade interpretativa e o estilo cômico, com modulações que percorrem desde a suave ironia ao franco escracho, marcam suas composições em personagens como Dona Margarida, de Apareceu a Margarida e Mariazinha, de Fala Baixo Senão Eu Grito.

Filha de atores, Marília começa no teatro aos 4 anos, na companhia de Henriette Morineau, Os Artistas Unidos, na qual trabalham seus pais, Manuel Pêra e Dinorah Marzullo. Dos 14 aos 21 anos faz carreira como bailarina, e participa de musicais e revistas - entre eles, Minha Querida Lady, protagonizado por Bibi Ferreira, em 1962; e O Teu Cabelo Não Nega, biografia de Lamartine Babo, em que ela faz sua primeira interpretação de Carmem Miranda, 1963.

Atua em A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, uma produção de Ruth Escobar, sob a direção de José Renato, 1964; Onde Canta o Sabiá, de Gastão Tojeiro, na versão renovadora de Paulo Afonso Grisolli, 1966. No mesmo ano, atua em Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, no Grupo Opinião, além de protagonizar e coreografar A Megera Domada, de William Shakespeare. Em 1968, atua em Roda Viva, musical de Chico Buarque. Em 1969, recebe três prêmios como atriz - Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT), Governador do Estado e Molière - pela atuação na peça Fala Baixo Senão Eu Grito, de Leilah Assumpção, em que é também produtora. A crítica é unânime quanto à boa atuação da atriz. Segundo Oscar Araripe, Marília "[...] consegue ir mais além na interiorização desta caracterização e chegar mesmo a enriquecê-la com muito daquilo que pertence a seu mundo pessoal de mulher - é, aliás, a única presença crítica do espetáculo: atriz cheia de vida, consciente ou inconscientemente, conseguiu lutar contra a visão tacanha e frustrativa, psicodramática e decadente de Mariazinha. Nessa luta, como se fugisse de qualquer identificação, Marília Pêra passa sua personagem, isoladamente, através de uma afinadíssima lupa crítica [...]".1

Nesse período, atua constantemente em musicais em que assina também a coreografia, como A Moreninha, adaptação de Miroel Silveira da obra de Joaquim Manuel de Macedo, 1969, e A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato, de Bráulio Pedroso, 1970. Mantém um constante trabalho da televisão, e também faz participações no cinema.

Em 1971, protagoniza A Pequena Notável, show musical com roteiro de Ary Fontoura. Em 1973, protagoniza e produz a peça Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde, dirigida por Aderbal Freire-Filho, e recebe novamente o Prêmio Molière. Na pele da professora que encarna o autoritarismo, Marília revela nesse monólogo, segundo o crítico Yan Michalski, "... qualidades de atleta, acrobata, palhaço, mulher atraentíssima, monstro, e sobretudo atriz completa: engraçadíssima, comovente, espalhando diante de nós uma fabulosa gama de recursos interpretativos, colorindo seu longo discurso com permanentes e surpreendentes mudanças de tom, tempo e intenção".2

Em 1974, atua no musical Pippin, de Roger O. Hirson, com direção de Flávio Rangel. Protagoniza, coreografa e produz o show Feiticeira, 1975, e o espetáculo Síndica, Qual É a Tua?, de Luiz Carlos Góes, em 1976. No mesmo ano, atua no musical Deus lhe Pague, adaptação de Millôr Fernandes do original de Joracy Camargo. Em 1977, recebe o Prêmio Mambembe de melhor atriz pelo desempenho em O Exercício, de John Lewis, um dos únicos trabalhos de Klauss Vianna como diretor. Em 1978, estréia como diretora com a peça A Menina e o Vento, de Maria Clara Machado. Recebe o prêmio da crítica americana pela atuação no filme Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, em que, mergulhando na amargura e na crueza da personagem deixa entrever, ao mesmo tempo, sua delicadeza abafada.

Em 1981, atua e produz, com Marco Nanini, Doce Deleite, coletânia de textos de Alcione Araújo, Mauro Rasi, Vicente Pereira e José Márcio Penido, sob a direção de Alcione Araújo, peça que expõe os dois atores ao desafio de vestir uma série de personagens, trocados de uma cena a outra. Em 1983, atua, produz e co-dirige a peça Adorável Júlia, de Guy Bolton e Marc-Gilbert Sauvajon, adaptada para ela por Domingos Oliveira, que lhe vale o Prêmio Mambembe de melhor atriz. Em 1984, atua e produz Brincando em Cima Daquilo, com textos de Dario Fo e Franca Rame, conquistando seu terceiro Molière. Em 1986, dirige, coreografa e produz O Mistério de Irma Vap, de Charles Ludlam, grande sucesso de público que permanece anos em cartaz, com Marco Nanini e Ney Latorraca. Nos anos seguintes, Marília Pêra se dedica mais à direção do que à interpretação. Em cena, vive personagens da música: Dalva de Oliveira em A Estrela Dalva, de Renato Borghi e João Eliseu, 1987; cantoras diversas em Elas por Ela, coletânea de 1989; A Prima Dona, de Alcione Araújo, 1992; e Master Class, de Terence McNally, 1996. Volta à dramaturgia brasileira em Toda a Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues, com direção de Moacyr Góes, 1998. Em todos esses anos de carreira, dedica-se também ao cinema e à televisão.

Marília Pêra atravessa cinco décadas de ininterrupta atividade, muitas vezes reunindo em um mesmo espetáculo diversas funções. Com um leque muito amplo de personagens e gêneros, seu vínculo com a cena não varia segundo qualquer tendência, moda ou momento histórico. Ela diz: "Eu sou livre. Fui criada para ser livre, para ter opinião e fazer o que bem entender".3

Notas
1. ARARIPE, Oscar. Fala baixo - espetáculo. Correio da Manhã, Guanabara, 29 jan. 1970.

2. MICHALSKI, Yan. 'Doce Deleite'. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 set. 1973. Caderno B.

3. PÊRA, Marília. Marília Pêra ova nas asas rodriguianas e prepara biografia. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29 mar. 1998. Caderno B, p. 2. Entrevista.



Atualizado em 12/08/2011
 
 
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