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Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro
Borghi, Renato (1937)

Biografia

Renato de Castro Borghi (Rio de Janeiro RJ 1937). Ator e autor. Um dos principais integrantes do Teatro Oficina, intérprete vigoroso de papéis marcantes, nos quais sabe introjetar com equilíbrio irreverência e sarcasmo, num estilo todo particular.

Embora carioca, vive em São Paulo, formando-se em direito em 1960, ocasião em que integra o movimento a oficina, grupo amador ligado ao Centro Acadêmico 11 de Agosto. Estréia profissionalmente em 1958, no Rio de Janeiro, na montagem de Sergio Cardoso Chá e Simpatia, de Robert Anderson. Em 1959, em São Paulo, participa de A Incubadeira, de José Celso Martinez Corrêa, e, logo a seguir, de A Engrenagem, de Jean-Paul Sartre, direção de José Celso e Augusto Boal. Em 1961, torna-se um dos sócios do Teatro Oficina, onde desempenha ativo papel na condução dos rumos artísticos do empreendimento. Depois de A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Odetts, em 1961, torna-se aluno de Eugênio Kusnet, alicerçando conhecimentos de interpretação.

Novamente sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, atua em Todo Anjo É Terrível, de Ketti Frings, e Quatro Num Quarto, de Valentin Kataev, direção de Maurice Vaneau, ambos produções do Oficina, em 1962. Seu primeiro grande sucesso surge no ano seguinte, como o Piotr, de Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, mais uma encenação de José Celso cheia de méritos, que lhe vale o Molière. Em 1964, novo triunfo e novo prêmio, como Andri, de Andorra, texto de Max Frisch. Nas sucessivas remontagens de espetáculos que a companhia faz, seja para manter o cartel ou motivado pelo incêndio que destrói a sala do Oficina em 1966, Borghi tem a oportunidade de experimentar diversos papéis em linguagens múltiplas.

Sua consagração vem em 1967, vivendo com debochada irreverência o usurário Abelardo I de O Rei da Vela, texto de Oswald de Andrade (1890 - 1954) convertido em manifesto tropicalista por José Celso Martinez Corrêa, arrebatando os prêmios Molière e Associação Paulista de Críticos Teatrais - APCT, de melhor ator. Como o Papa, na notável encenação de José Celso para Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, em 1968, o ator encontra novo destaque; potencializado após assumir o papel-título, substituindo Cláudio Corrêa e Castro, protagonista da primeira versão.

Na última grande realização da companhia nos anos 1960, divide com Othon Bastos a maior parte das cenas de Na Selva das Cidades, onde o jovem Bertolt Brecht exercita uma dramaturgia expressionista cheia de fúria e desregramento. Nesse espetáculo de 1969, Borghi atinge o cume do estrelato, vigoroso exercício de um ator generoso e comprometido com as desnorteantes propostas da encenação de José Celso.

Renato convida e recebe o grupo Lobos e o Living Theatre, que trabalham com o Oficina, agora reformulado em sua estrutura, em 1970. Integra a longa excursão denominada Saldo para o Salto, percorrendo o país em remontagens de sucessos do grupo que resulta na criação coletiva Gracias, Señor. Apresentada em 1972 no Rio de Janeiro e São Paulo, a peça enfrenta problemas com a Censura. Com novas reformulações na equipe, surge, ainda em 1972 As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, última tentativa de José Celso de conciliar propostas díspares sobre o palco. No meio da temporada, ao final de uma sessão, Renato anuncia à platéia que está saindo do grupo, num rompimento irreversível.

Junto com Esther Góes, sua mulher, participa da encenação de Frank V, de Dürrenmatt, em 1973, direção de Fernando Peixoto, num projeto de Maurício e Beatriz Segall de reanimarem o combalido Theatro São Pedro. Na seqüência, ele e Esther Góes fundam o Teatro Vivo, com a realização de O Que Mantém um Homem Vivo?, colagem de textos e canções de Bertolt Brecht, com direção de Borghi e José Antônio de Souza. Em 1975, associando-se a Miriam Mehler, dirige Absurda Pessoa, texto de Alan Ayckbourn, com expressivo resultado.

Como ator, integra os elencos de Castro Alves Pede Passagem, texto e direção de Gianfrancesco Guarnieri, 1971, e Um Grito Parado no Ar, do mesmo autor, com direção de Fernando Peixoto, 1973, produções da Othon Bastos Produções Artísticas. Seguem-se diversas atuações, em espetáculos comprometidos com a resistência: Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, dirigido por Paulo José, 1978; Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1980; e Pegue e Não Pague, de Dario Fo, encenação de Guarnieri, 1982.

No papel-título de Édipo Rei, de Sófocles, volta a ser premiado, agora com o Associação Paulista de Críticos de Artes - APCA, de melhor ator de 1982, apoiado na sensível direção de Marcio Aurelio, contracenando com a Jocasta de Ítala Nandi, antiga companheira do Oficina. Dois vaudevilles bem armados entram em seu currículo: Com a Pulga Atrás da Orelha, de Georges Feydeau, em 1984, e O Amante de Madame Vidal, de Louis Verneuil, em 1988, ambos dirigidos por Gianni Ratto.

Cedendo a uma antiga paixão dedicada à cantora Dalva de Oliveira, Borghi escreve, juntamente com João Elíseo Fonseca, o musical A Estrela Dalva, consagradora montagem estrelada por Marília Pêra, em 1987. No mesmo ano, em São Paulo, lança seu texto Lobo de Ray-Ban, enfocando a crise de um casal de atores, aproveitando sua larga vivência nos bastidores do meio teatral. A encenação de José Possi Neto, onde se degladiam Christiane Torloni e Raul Cortez, permanece dois anos em cartaz pelo Brasil, e atribui a Borghi os prêmios Molière, Mambembe, APCA e Apetesp de melhor autor. Em 1989, é novamente premiado com o Apetesp pelo texto Decifra-me ou Devoro-te, encenado por Roberto Lage. Em 1992, atua em Rancor, de Otávio Frias Filho, com Sérgio Mamberti e Bete Coelho.

É dirigido por Bete, em Pentesiléias, texto de Daniela Thomas inspirado em Heinrich von Kleist, em 1994. No ano seguinte, funda o Teatro Promíscuo, com o ator e diretor Élcio Nogueira, realizando os seguintes espetáculos: Senhora do Camarim, texto de Borghi, 1995; Édipo de Tabas, de Sófocles e Sêneca, 1996; Tio Vânia, de Anton Tchekhov, 1998; A Vida de Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, direção de Cibele Forjaz, 1998; divide o palco com Tônia Carrero em Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchekhov, 2000.

Em 2002 organiza e atua na Mostra de Dramaturgia Contemporânea do Teatro Popular do Sesi - TPS, ao lado de Élcio Nogueira, Luah Guimarães e Débora Duboc, apresentando 15 peças curtas, panorama dos dramaturgos paulistas da década de 1990, em que se destaca em Três Cigarros e a Última Lasanha, de Fernando Bonassi e Victor Navas, com direção de Débora Dubois.

Sobre suas virtudes como intérprete, na consagradora criação de Abelardo I de O Rei da Vela, salienta o estudioso Armando Sérgio da Silva: "Renato, por sua vez, no seu desempenho incorporou muitas características do político paulista Ademar de Barros, mas como era uma personagem dentro do circo, ele foi buscar inspiração no velho palhaço mais conhecido do grande público, Abelardo Barbosa, o 'Chacrinha'. É sabido o fato de que Renato passou semanas assistindo a programas de TV, revistas, chanchadas brasileiras, para compor sua personagem. Daí resultando a crítica feita por Luiza Barreto Leite sobre seu trabalho: Renato Borghi está absoluto. diverte-se, divertindo a platéia, com o rasgar das próprias entranhas, com o expor das próprias vísceras, com o prazer sádico que só Oswald em pessoa teria empregado".1

Notas

1. SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo: Perspectiva, 1981. p.150-151.



Atualizado em 25/05/2010
 
 
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  Andrade, Oswald de (1890 - 1954)